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Em honra de suas majestades: as 25 vidas dos Rolling Stones em 25 álbuns

O novo "Foreign Tongues" assinala um marco histórico: é o 25º álbum dos Rolling Stones. Aproveitámos o número redondo para revisitar uma discografia que percorre mais de 60 anos e mudou o rock'n'roll.

Luís Freitas Branco
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Inês Correia
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Nunca foi “apenas” rock’n’roll. Esse é o grande embuste de It’s Only Rock ’n’ Roll (but I Like It), o hino dos Rolling Stones à profissão invulgar à qual se dedicam há mais de 60 anos. A canção revela mais do que o ouvido apanha à primeira: “Se eu perfurar o coração e espalhar o sangue em palco”, questiona-nos Mick Jagger, “será suficiente para aliviar a vossa dor?” A resposta é não. Nunca é suficiente. Enquanto houver pernas para dançar, permanecemos insatisfeitos, a correr atrás da juventude perdida.

Esta insatisfação eterna é a única explicação plausível para estarmos aqui a escrever sobre um novo álbum destes músicos octogenários, ainda sem satisfação, por muito que tentem — “Cause I try, and I try, and I try, and I try”. Foreign Tongues, que foi editado esta sexta-feira, 10 de julho, assinala um marco histórico: é o 25.º dos Rolling Stones. O número redondo é motivo nobre para revisitar uma das discografias mais longevas da música popular, um caminho sinuoso, à beira do abismo, feito de curvas e encruzilhadas, sempre com o pé no acelerador. Esta é a história de centenas de canções que resumem as últimas décadas da humanidade, do analógico à inteligência artificial. Há quem diga que estamos a exagerar, que é apenas rock’n’roll — não é exagero nenhum.

“THE ROLLING STONES”

1964

https://open.spotify.com/album/0bJMFJ2XQwpO5nKTrYdUtX?si=yih_sE0lTMq1GyNYJqqhpA

O álbum de estreia dos Rolling Stones é uma janela no tempo: entrem no pub da esquina, cenário do pós-guerra, onde miúdos ingleses de blazer cintado, rente ao corpo, matam o tempo a maltratar versões rudimentares de R&B norte-americano. A banda de Mick Jagger, Keith Richards, Brian Jones, Charlie Watts e Bill Wyman era igual a tantas outras, não fosse o ambicioso agente Andrew Loog Oldham que, aos meros vinte anos, convence a Decca Records a editar estes putos desgrenhados, com produção do próprio agente — sem qualquer experiência de estúdio, pois claro. O pitch de venda à editora que, dois anos antes, rejeitou os Beatles, é infalível: vão fazer figura de urso outra vez?

“THE ROLLING STONES Nº.2”

1965

https://open.spotify.com/album/0MDhZ0yRkugNEg7PmMMUE8?si=JNupG_avRIqBhKtd5WITRw

É mais do mesmo, dirão alguns. Mas não era. Standards R&B, soul meloso, versões dos mestres Muddy Waters e Chuck Berry, e canções da dupla recém-formada Jagger/Richards, ainda a medo — como era habitual na época, as melhores canções não estavam no álbum, desde o andamento hipnótico de The Last Time a Heart of Stone, uma balada deliciosamente desafinada. Os singles escalam as tabelas de vendas e alavancam o sucesso deste segundo álbum, que alcança o topo na Grã-Bretanha, com toda a justiça — ouçam o slide de Brian Jones em What a Shame, insinuador de maldade, somente superado em Little Red Rooster, definitivamente maléfico. O ambiente pernicioso das canções alimentava uma certa aura, com Andrew Loog Oldham a vender os Rolling Stones como o lado negativo dos Beatles — nem sempre usavam gravata, que atrevimento!

“OUT OF OUR HEADS”

1965

https://open.spotify.com/album/4ODlRs61uBFoP7HspXs1je?si=rUhODRugSzSpFQ2xh6JRIw

O sobressalto que deve ter sido ouvir na rádio, entre o trânsito, a disparar do tablier, um zumbido esmagador de três notas, seguido de um grunhido malicioso que, garante, por muito que tente, não alcança o plateau da satisfação. Editado um mês depois de (I Can’t Get No) Satisfaction, Out of Our Heads nunca seria apenas mais um álbum: foi a consagração dos Rolling Stones e a conquista definitiva dos EUA. As canções sujas, o groove estridente e a posse subversiva serviram de molde para milhares de bandas de garagem que, inadvertidamente, criam um género — o tal garage rock. O exemplo mais descarado de imitação são os Velvet Underground; ora ouçam, lado a lado, a introdução de Hitch Hike e There She Goes Again.

“AFTERMATH”

1966

https://open.spotify.com/album/1MaP82K4mOoGYW5Ej0eUyM?si=rV6IR9J-QqC8_vRpLfiQVQ

Aconteceu o impensável: as composições Jagger/Richards, que começaram a tanto custo, alcançaram o estado de graça da melhor música norte-americana, superadas apenas por uma certa dupla de Liverpool — e mesmo assim, há controvérsia. Aftermath é o primeiro álbum feito só de originais e representa a maioridade dos Rolling Stones, a começar pela caneta de Jagger, que escreve sobre donas de casa entorpecidas, amores neuróticos e o seu tema predileto ao longo dos anos: como as mulheres são dominadas debaixo do seu polegar. Esta última, Under My Thumb, de compasso na marimba, foi também a prova de vida de Brian Jones que, afastado do centro de poder por dois egomaníacos, encontrou um caminho enquanto prolífico multi-instrumentista. Esta banda renascida atingiu a apoteose em single, banhada a negro: Paint It Black.

“BETWEEN THE BUTTONS”

1967

https://open.spotify.com/album/6zUGj6iIU30nuPTEoqbD9n?si=Z-SdWiWrT0qEQQWQxu7Law

O tempo entrou em aceleração vertiginosa. No ano mágico de 67, um agressivo processo de terraplanagem transformou radicalmente a mundivisão, a personalidade e, como não poderia deixar de ser, os penteados da cena musical londrina. O cinzentismo britânico, com ajuda de certos lisérgicos, foi o berço da “Swinging London”, onde ecos de vaudeville e de música palaciana contaminaram a pop, incluindo a dos outrora sombrios Rolling Stones. Na última canção abrem o jogo, aconteceu alguma coisa maravilhosa: “Something happened to me yesterday/ Something I can’t speak of right away/ Something happened to me/ Something oh so groovy” — foram drogas, traduzindo para bom português.

“THEIR SATANIC MAJESTIES REQUEST”

1967

https://open.spotify.com/album/2SE7fs002NlNc3cw3SQLRC?si=jP86XQl9T8CS_gMnhAEP7A

Os Rolling Stones correram atrás dos Beatles, a morder os calcanhares, até se espalharem ao comprido, num álbum renegado por todos os envolvidos, até hoje. Seis meses depois de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, cometeram a loucura de lançar outro álbum com um título, capa e canções embaraçosamente semelhantes ao magnum opus psicadélico. Their Satanic Majesties Request merece uma reconsideração, mas é evidente que os Rolling Stones não estavam perdidos nem achados em estúdio; de tal forma que Bill Wyman chegou às gravações sozinho e improvisou The Lantern. O foco de Jagger e Richards era sobretudo judicial, ainda a lidar com as consequências de uma prisão altamente mediática, em flagrante delito, com os olhos a brilhar dos ácidos.

“BEGGARS BANQUET”

1968

https://open.spotify.com/album/6OHri5qNxwCdVSdyCslspd?si=s7oXMu_hTpm0-9JW5kFpEA

A única explicação razoável é o velho mito satânico dos blues: no momento de maior desespero, percorreram uma certa encruzilhada e acertaram os detalhes com um senhor de fortuna e requinte. Em estúdio, o vocalista franzino renasceu endiabrado, com um timbre de velho negro no sopé do Mississippi; o guitarrista transformou o instrumento em saco de pancada, indecentemente desordeiro, a roçar o malcriado; e a cozinha do baixo/bateria acertou a receita ao milímetro, com sincopados de empréstimo de uma recente viagem ao Brasil — com o contributo imprescindível do produtor Jimmy Miller. Os Stones nunca mais foram os mesmos depois de Beggars Banquet: a alma foi entregue ao diabo, incendiaram as promessas de paz e amor e dançaram em cima da fogueira.

“LET IT BLEED”

1969

https://open.spotify.com/album/47hOpZQfXVIRzTiv0Ef8pO?si=cjaUTMPgTdKYdq4pTnlhpQ

O encarte do disco diz tudo: “This record should be played loud”. Não vale a pena, nem tentem, é impossível ouvir Let It Bleed baixinho, basta mencionar as primeiras duas canções: Gimme Shelter, o regozijo do mundo em chamas, seguido de Love in Vain, a outra face deste álbum, distante da convulsão citadina, a gente terra-a-terra, sentada no alpendre a bradar um country aos céus. Let It Bleed move-se entre estes dois universos antagónicos, da suruba de Midnight Rambler à placidez de You Got the Silver, este último como estreia triunfal da voz ressacada de Keith Richards. Imobilizado pelo rodopio de drogas e autocomiseração, Brian Jones foi despedido durante as gravações e, um mês depois, morreu afogado na piscina de casa. No final do ano, os Rolling Stones enterram a benevolência dos anos 60 no funeral dantesco que foi o concerto gratuito em Altamont — a conta foram quatro mortes e milhares de overdoses.

“STICKY FINGERS”

1971

https://open.spotify.com/album/0ucOpNNckY0op5B1yfW6pv?si=8mhjqak_QzOpef3MF5LDdQ

O primeiro álbum dos anos 70 introduz o paradoxo fascinante dos Rolling Stones: a banda degenerada que nos deu estes 45 minutos de ostensiva celebração de heroína e sexo fácil, embalou as canções para venda massiva na superfície comercial, com uma capa desenhada por Andy Warhol e um logo com registo de marca. O grande capital devorou a contracultura e cuspiu um dos melhores álbuns rock de todos os tempos, com a ajuda de novos amigos: o substituto de Brian Jones, o guitarrista-cara-de-bebé Mick Taylor, dotado de uma subtileza musical invejável; o saxofonista Bobby Keys, que certa vez encheu uma banheira de Dom Perignon; e um compêndio de teclistas invejáveis — Nicky Hopkins, Jack Nitzsche, Billy Preston. Beggars Banquet e Let It Bleed preparam o estaleiro, mas foi Sticky Fingers que soltou os cavalos selvagens.

“EXILE ON MAIN ST.”

1972

https://open.spotify.com/album/1D0PTM0bg7skufClSUOxTP?si=Ih225Ow9Tc2xgltYHStBew

A história é bem conhecida, já rendeu livros, documentários e incontáveis entrevistas: com o fisco à perna, os Stones refugiaram-se no Sul de França, onde Jagger protagonizou um casamento très chic em Saint Tropez, e Richards dedicou-se, com extraordinária determinação, ao consumo très décadent de heroína. Este foi o ambiente improvável que motivou o período mais fértil da dupla, ao gravarem um tour de force, o raro álbum duplo imaculado, sem chouriço, apenas filet mignon, de Rocks Off a Soul Survivor. Exile on Main St. contém um encantamento singular, entre o transcendente e o desleixado, que nunca mais conseguiram replicar — se me permitem acrescentar outra expressão francófona, era joie de vivre.

“GOATS HEAD SOUP”

1973

https://open.spotify.com/album/5Q7oMv5dx9VinYxveFZNsn?si=VK1Du5XLS02-vg7sel1Vnw

O segredo para qualquer casamento duradouro é a capacidade de compromisso. Depois de um álbum gravado em França ao ritmo pachorrento de Keith Richards, Jagger impôs a sua vontade, que é sempre a mesma, até aos nossos dias: encostar-se à canção da moda. Goats Head Soup é uma tentativa aquém de glam, à boleia de Bowie e companhia, mas é um álbum bem melhor do que o cânone do rock nos quer convencer — ouçam a languidez de Coming Down Again, o rockabilly ordinário de Star Star ou a balada-das-baladas Angie. Se tivermos em conta que foi um álbum gravado por amigos milionários na Jamaica, entre drogas à discrição e excentricidades como um vocalista de dente de diamante, o resultado é, ainda assim, o melhor possível.

“IT’S ONLY ROCK’N’ROLL”

1974

https://open.spotify.com/album/4jCpSNa8dV40aMrHOshRdv?si=Em2Uzk84RdyCMx9BZRSnDg

Finalmente admitiram: é só rock ‘n’ roll, mas eles gostam. A canção que dá nome ao disco, uma confidência de prazeres sadomasoquistas em palco, é o mote para uma entrada a pés juntos — If You Can’t Rock Me, Ain’t Too Proud to Beg, It’s Only Rock ‘n Roll (But I Like It), que depois se perde em atalhos derivativos — rock molinho de Time Waits for No One, estou a olhar para ti — até um inesperado funk sedutor — Fingerprint File. It’s Only Rock ‘n Roll assinala outro final de ciclo: é o último álbum com Mick Taylor, que nunca acompanhou devidamente a farra em palco e nos bastidores — não seria, de todo, um problema do guitarrista seguinte.

“BLACK AND BLUE”

1976

https://open.spotify.com/album/5wEUIEpxAFSr5fEbQv1fud?si=VvlblfQjQKyHJHQaQXOCjw

A reedição deste álbum que celebra 50 anos, lançada no ano passado, confirma a natureza espontânea com que os Stones gravaram as suas faixas mais gingadas. O groove renovado deve-se à entrada em cena de Ronnie Wood, guitarrista de Rod Stewart e Jeff Beck e, sobretudo, reconhecido pelo temperamento boa-praça, sempre pronto para mais uma, que afaga os egos da dupla Jagger/Richards. O staccato elétrico de Ronnie brilha na canção de baile Hey Negrita, numa troca de galhardetes com Keith Richards que seria, daqui e para todo o sempre, o som definitivo dos Rolling Stones. Se pedirmos com jeitinho, quem sabe se Ronnie Wood não recria esta brincadeira no Coliseu dos Recreios, quando nos visitar no próximo dia 26 de setembro.

“SOME GIRLS”

1978

https://open.spotify.com/album/6FjXxl9VLURGuubdXUn2J3?si=f7aIL7yfQ3S3mUtHVBgtVQ

Um álbum que poderia ser explicado pelo meme do sexagenário Steve Buscemi na escola, à paisana, de boné e skate para trás, a perguntar: como é que estão, juventude? Mas é o exato oposto: os Stones estão camuflados de gaiatos, de calças remendadas à punk, e conseguem convencer-nos que a batida sinuosa de Miss You ou a agressividade de Respectable merecem conviver na mesma terra que os Blondie ou os Sex Pistols. É o álbum mais urbano, gravado entre Paris e Nova Iorque, com um Jagger particularmente bem-disposto — Far Away Eyes é quase stand up comedy. Some Girls estendeu a validade da banda, que tinha a existência em xeque após a prisão espalhafatosa de Keith Richards no Canadá por posse de heroína.

“EMOTIONAL RESCUE”

1980

https://open.spotify.com/album/5mEjFOLcBs94wSchOtMCTB?si=4oC91Lq2QOWaMf0PQLuY_w

Uma dança rouba o filme inteiro. É Ralph Fiennes de camisa aberta, a cortar o vento com um entusiasmo juvenil; abana, roda, contorce-se, a seguir a batida a quatro tempos, e o falsete esganiçado, quase a quebrar, de Mick Jagger. O Mergulho Profundo de Luca Guadagnino relembrou-nos do encanto menosprezado de Emotional Rescue, que cimentou a presença da banda na pista de dança, para desagrado de alguns grunhos que pretendiam, literalmente, queimar o disco sound. Para os Stones, isto era uma não-questão: a música negra norte-americana, fosse dançável ou lacrimosa, estava no mundo para ser digerida a seu bel-prazer.

“TATTOO YOU”

1981

https://open.spotify.com/album/3RWlnnrGMHsNWrgRXPUESk?si=rwiLNyrdQu-lHqWE7m_joA

Uma das aldrabices mais bem-sucedidas da história do rock: um punhado de outtakes, sobras dos últimos álbuns, são retocadas e embaladas como uma novidade fresquinha, para antecipar a primeira digressão de estádios de sempre. O mais escandaloso é a qualidade irrepreensível de Tattoo You, que inclui algumas das melhores canções desta banda — abre com aquele riff de encher estádios, Start Me Up, quando precisavam de encher estádios; recupera uma cumplicidade jovial que julgávamos perdida, em Hang Fire; ainda com tempo para uma meditação onírica, Heaven. O álbum encerra com um adorável reconhecimento da amizade que sustentava isto tudo — Waiting On a Friend, uma amizade que, sem o sabermos, estava prestes a desfazer-se.

“UNDERCOVER”

1983

https://open.spotify.com/album/6Dee9XTTIUh5zXRUguuC40?si=11y_fN7sQF-0PHWH83SipQ

Deleitem-se com esta cena: o quarentão Mick Jagger está no seu apartamento em Paris, por certo chiquérrimo, a escrever uma nova canção, inspirado pela new wave cintilante de oitentas, pelo livro de William Burroughs na cabeceira e pela repressão das ditaduras militares na América Latina. Keith Richards nem disse nada, mal se falavam. O resultado só poderia ser a canção absolutamente incompreensível Undercover of the Night. É um reflexo do álbum: confuso e malcozinhado, um inegável fracasso. Os Stones entram no calvário dos anos 80, a década que conseguiu, um a um, assassinar a categoria musical dos heróis da geração anterior.

“DIRTY WORK”

1986

https://open.spotify.com/album/6Xui7Ex7Qs5CafFQnWeR6w?si=hKZkknTVSrSPkC0N1CjZrg

A CBS Records cumpriu um sonho antigo e roubou os Stones à Atlantic pela módica quantia de 25 milhões de dólares. Pormenor: a dupla de compositores estava de costas voltadas. A banda arrastou-se para estúdio, com milhões na algibeira, e gravou um álbum displicente que manchou uma discografia ilustre. No leme estava Keith Richards, sempre o último homem a saltar do barco, enquanto Jagger já estava na boia de salvação de uma carreira a solo — o promissor álbum de estreia, She’s the Boss; um dueto memorável com Tina Turner no Live Aid; e como esquecer, o épico kitsch Dancing in the Street com David Bowie. Como isto são os Rolling Stones, o baterista que nunca falhou um tempo, Charlie Watts, em vez do tradicional descapotável, entrou na crise de meia-idade com um vício de heroína. Um período para esquecer.

“STEEL WHEELS”

1989

https://open.spotify.com/album/7yUBkHdrxKHn4a3QhrfEj4?si=KNlyqwo-Q0mQDb3374aFTg

Os Glimmer Twins, petit nom desta inseparável dupla de compositores, fizeram as pazes nas Caraíbas e prometeram ultrapassar as suas animosidades para voltar a conquistar o título de maior banda do mundo. Steel Wheels é um grito de sobrevivência, uma dúzia de canções densas, pesadas, que seriam a fórmula para a década que se avizinha. E termina com um instante de glória do guitarrista mais resiliente deste planeta — Slipping Away. Esta seria a melhor versão dos Stones desde Tattoo You e vejam a nossa sorte: foi esta digressão que visitou Portugal pela primeira vez, no dia 10 de junho em 1990, Estádio José Alvalade, ainda com Bill Wyman, em breve reformado do rock’n’roll.

“VOODOO LOUNGE”

1994

https://open.spotify.com/album/3oyjbpNQs5Qm5DNVJW4AlV?si=D97OguBNRkG6RBCnJVtXug

O raio do trovão não cai duas vezes. E o raio das canções nunca soa como na nossa cabeça. O alvo em estúdio eram mais cantigas-para-a-multidão: harmonias básicas, pulso firme e um refrão ruidoso. Por muito que tentassem, e como tentaram, nunca mais se aproximaram do sentido de missão de Steel Wheels. Este álbum é um cartão de visita para uma digressão mundial e, verdade seja dita, Voodoo Lounge cumpre os mínimos olímpicos, basta You Got Me Rocking, à medida do estádio mais perto de si. A Voodoo Lounge Tour, com nova passagem no Estádio José Alvalade, em 1995, era uma megalomania que hoje seria impensável, com mais de engenharia civil do que de espetáculo musical. Resultado: a digressão mais rentável dos anos 90.

“BRIDGES TO BABYLON”

1997

https://open.spotify.com/album/6lbQFxYqubkf4GbEtXARE7?si=PqaVHzAtTjKf9TslY9JQUw

Pela última vez, os Stones saem da zona de conforto. É verdade que ainda temos aqui os singles orelhudos para alimentar as multidões — Saint of Me e Out of Control, mas Bridges to Babylon é um álbum eclético que tenta experimentar com a fórmula de uma canção Stones: o sprechgesang de Anybody Seen My Baby? faz uma tangente ao universo hip hop; Might as Well Get Juiced é uma fascinante imitação dos imitadores Primal Scream; ou o blues grunge, bem noventas, de Gunface. Agradecemos o esforço, mas o saldo é assim-assim; por essa e por outras, ficam quase uma década sem gravar um novo álbum.

“A BIGGER BANG”

2005

https://open.spotify.com/album/5zqveAALqLpkXgPLyYItRV?si=2U2PZjBoT3iD2rc2EJ2IZg

A vantagem de lançar discos durante 40 anos é conseguir, geração a geração, encontrar novos públicos. A Bigger Bang foi o álbum que acompanhou a chegada à maioridade de quem vos escreve, o que, em rigor, não deveria afetar esta minuciosa análise discográfica, mas para o qual se pede, desta vez, alguma latitude. Um ouvinte impressionável ouvia em A Bigger Bang um retumbante triunfo, um regresso ao som despretensioso da década de 70, enquanto uma alma velha apontou para um pastiche sem-vergonha de Some Girls. A verdade está a meio caminho, num álbum de solidez exemplar que, mesmo assim, não acrescentou muito ao alinhamento dos três concertos em Portugal — Coimbra, Porto e Lisboa.

“BLUE & LONESOME”

2016

https://open.spotify.com/album/43TJjpNBfw0qY6E87VeIxX?si=aQJrPVYvRpu5bLmyfSNkNA

Quando os Rolling Stones foram gravar nos estúdios da Chess Records, em Chicago, ainda nos primeiros anos da banda, os irmãos Chess, editores de Muddy Waters ou Howlin’ Wolf, cumprimentaram o vocalista com algo neste estilo: “Então és tu que tens comprado todos os nossos discos em Inglaterra?”. É difícil de confirmar a veracidade desta conversa, mas é perfeitamente plausível. Afinal, quantos adolescentes de um subúrbio londrino andavam a encomendar singles obscuros do harmonicista Sonny Boy Williamson? Apenas um: Mick Jagger. Foram precisamente estes discos que o aproximaram do colega de liceu, Keith Richards. E o resto é história, que é devidamente celebrada neste regresso a um álbum de versões quando se encontram, enfim, na idade certa para gemer blues com propriedade.

“HACKNEY DIAMONDS”

2023

https://open.spotify.com/album/1AxMcdQRLguJqSZMxvRNdO?si=WSDkb18nSmqAX0yt8isTyw

Acreditem: os Stones têm mais coisas para fazer do que passar o pouco tempo que lhes resta em estúdio. Se continuam a gravar é porque sabem que ainda conseguem gravar uma dúzia de canções eficazes em menos de uma hora. E Hackney Diamonds não é exceção: Angry, o single com riff para passar na rádio e a moça bonita para passar no YouTube — a saber, Sydney Sweeney; os velhotes contemplativos, a moer uma vida extraordinária, em Dreamy Skies; e ainda, uma inesperada súplica gospel, em Sweet Sounds of Heaven, com ajuda divina de Lady Gaga. O primeiro disco sem Charlie Watts, que morreu em 2021, é uma justa homenagem ao seu ritmo: no tempo certo.

“FOREIGN TONGUES”

2026

https://open.spotify.com/intl-pt/album/6jfU2DEetUUo8nmxrzwkhc?si=eYi1pI5ZRRu8uovJMEItaQ

As pedras preciosas ainda tinham brilho por lustrar: três anos depois do regresso aos originais, Jagger e Richards recuperam canções compostas para Hackney Diamonds, chamam o mesmo produtor, contratam um novo baterista e fecham-se num estúdio em Londres durante um mês. O 25.º álbum dos Rolling Stones é mais variado — blues, punk, new wave, disco, soul, country — e, pelo mesmo motivo, mais desigual que Hackney Diamonds.

Comecemos pela glamourosa lista de convidados: Paul McCartney, Steve Winwood, Robert Smith, Chad Smith e Bruno Mars no chocalho de vaca. Isto não é motivo de alarme, se ninguém nos dissesse, nunca daríamos pela sua presença, até porque o palco já estava reservado. Foreign Tongues é puro Mick Jagger show: o falsete de Jealous Lover, a recuperar a boa disposição disco de Emotional Rescue; a punkalhada de Covered In You; a inesperada versão de Amy Winehouse, You Know I’m No Good, com a voz e harmónica do vocalista octogenário a substituir os arranjos de metais de Mark Ronson; e claro, a escolha incompreensível de single, In the Stars, com aquele enervante refrão ululante, somente superado pelo perturbador videoclipe de Inteligência Artificial — finalmente inventaram a tecnologia para a juventude eterna de Mick Jagger.

A entrada à T-Rex, de blues furtivo, em Rough and Twisted, confirma que ainda existe alquimia na parelha Keith Richards e Ronnie Wood. Desta vez, os dois guitarristas podem não ser os titulares, mas têm direito a minutos de glória: Richards canta na comovente Some of Us, quem sabe pela última vez, e Ronnie dribla o adversário no solo de Back In Your Life. A canção que vai fazer correr tinta é a magnífica Ringing Hollow, uma carta de amor aos EUA que confessa desilusão com o estado atual da nação que celebra 250 anos. Este country venenoso é também o melhor momento de Foreign Tongues, que nos leva a crer que, com este Jagger atrevido, com tanto para dizer e fazer, ainda não ouvimos a última dança dos Rolling Stones.