O número de utentes sem médico de família atribuído no Serviço Nacional de Saúde (SNS) voltou a aumentar em maio, segundo os dados divulgados esta terça-feira no Portal da Transparência do SNS. Trata-se do terceiro mês consecutivo de agravamento deste indicador. Na região de Lisboa e Vale do Tejo, foi mesmo batido o recorde do número de pessoas sem médico.
No final de maio de 2026, havia 1.666.823 utentes a descoberto em todo o país, um acréscimo de cerca de 20 mil pessoas em relação ao mês anterior. Em abril, já se tinha registado um aumento de 22 mil pessoas sem médico de família atribuído em relação a março. Em sete dos últimos oito meses houve um aumento do número de utentes sem médico.
O número de utentes sem médico registado em maio aproxima-se já do valor máximo atingido durante a governação da Aliança Democrática — 1.675.663, em agosto de 2024.
No entanto, na região de Lisboa e Vale do Tejo, a mais carenciada, o número de utentes sem médico atingiu um recorde em maio. Nesta região, existem agora 1.165.496 pessoas sem médico, um valor suficiente para ultrapassar o anterior máximo (que datava de dezembro de 2023, quando 1.162.611 utentes não tinham médico atribuído). Desta forma, 29,7% da população desta região não tem médico atribuído, um cenário que se agrava ainda mais em Unidades Locais de Saúde como a do Oeste (em que 46,5% da população não tem médico) ou na ULS do Estuário do Tejo (47,7% dos utentes sem médico).
Também no Alentejo foi batido o anterior recorde. Em maio, esta região registava 93.389 utentes sem médico de família, mais do que os 89.501 que não tinham clínico atribuído em dezembro de 2023.
https://observador.pt/2026/06/02/numero-de-utentes-sem-medico-de-familia-volta-a-aumentar-em-abril-e-o-maior-numero-desde-o-ultimo-verao/
De resto, olhando apenas para o mês de maio, registou-se uma subida do número de pessoas sem médico em todas as regiões do país.
Número de utentes com médico está em queda
À medida que aumenta o número de utentes sem médico, há uma outra tendência a consolidar-se: a diminuição do número de inscritos com médico atribuído — o que contraria o discurso do Ministério da Saúde, que tem sempre argumentado que o número de utentes com médico está a aumentar. Em maio, havia 9.121.566 utentes com médico, menos cerca de 33 mil pessoas do que em fevereiro (mês a partir do qual o número de pessoas com médico começou a cair).
Por outro lado, o número de utentes inscritos nos centros de saúde não pára de aumentar. Em maio, eram já 10.799.807 pessoas, o número mais alto de que há registo. Desde agosto de 2025 que o número de utentes inscritos tem vindo a bater sucessivos recordes.
É precisamente a subida do número de inscritos, impulsionada pelo aumento da população imigrante, que tem sido referida pela ministra da Saúde para justificar os consecutivos aumentos de utentes sem médico. Esta segunda-feira, Ana Paula Martins justificou o aumento do número de pessoas sem médico de família com o aumento de registos no SNS, alegando que o serviço público de saúde está a demonstrar ter “elasticidade”.
https://observador.pt/2026/06/20/ministra-da-saude-culpa-imigracao-pelo-aumento-das-pessoas-sem-medico-de-familia-e-atira-ao-ps-que-deixou-o-sns-num-estado-lastimavel/
“Temos todos os meses novas inscrições de utentes residentes em Portugal (…). E vamos continuar durante muito mais tempo, seguramente, a ter pessoas a inscreverem-se no Registo Nacional do Utente. Naturalmente que, quando nós percebemos que temos mais um milhão e meio de pessoas em Portugal do que tínhamos há cinco anos, compreendemos que a elasticidade que o SNS tem de ter é muito grande. É quase, eu diria, de ser feita de forma muito rápida”, disse a governante.
Já no último congresso do PSD, Ana Paula Martins tinha responsabilizado a imigração e as redes de imigração ilegal pelo aumento do número de utentes sem médico de família (um problema que se tem vindo a agudizar nos últimos meses), lamentando que o esforço do Governo para aumentar o número de médicos de família “pareça não existir”. Numa intervenção muito aplaudida, no Congresso do PSD, em Anadia, a ministra da Saúde culpou ainda o PS pelo “estado lastimável” em que deixou o SNS.
“As circunstâncias que vivemos, com um aumento populacional brusco — causado pelo acolhimento de imigrantes que entram no país sem regras e sem humanismo, a que acresce a existência de redes organizadas, que se aproveitam da bondade da democracia e de negócios ilegais assentes nas ineficiências de sistemas de saúde de outros países — fazem com que o esforço e o sucesso que temos tido no aumento do número de médicos de família pareça não existir”, lamentou Ana Paula Martins, garantindo que o reforço do número de especialistas “existe, é real e vai continuar a ser real nos próximos meses”.
Em maio, foram abertas 2.500 vagas para médicos recém-especialistas no SNS, entre as quais 711 para Medicina Geral e Familiar, mas ainda não são conhecidos os resultados. No concurso de segunda época de 2025, concluído já em janeiro deste ano, apenas 50 das 142 vagas disponíveis foram ocupadas, ou seja, 35% do total.