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Para além do diploma

Esperamos que os médicos sejam o exemplo perfeito de vida saudável. Depois entramos numa urgência às 4 da manhã e encontramos uma equipa inteira a sobreviver graças a café, chocolates e nicotina.

Diana Pedreira
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Será que os médicos vão ao médico? É uma daquelas perguntas universais que me fazem com uma frequência surpreendente. A resposta é sim. Embora, para sermos rigorosos, tentemos evitar ao máximo.

Primeiro autodiagnosticamo-nos.

Depois automedicamo-nos.

A seguir pedimos uma “opinião rápida” ao colega no corredor, entre dois doentes e uma chávena de café.

Só quando tudo isto falha é que fazemos aquilo que andamos há dias a aconselhar aos outros:

Marcamos uma consulta.

Existem, aliás, dois tipos de médicos.

Há o que desvaloriza tudo.

A dor no peito é muscular. A tosse é uma virose. A febre “há de passar”. A colonoscopia fica para o próximo ano. E o próximo ano tem o estranho hábito de nunca chegar.

E depois há o hipocondríaco.

O que acorda com uma dor de cabeça e, antes de terminar o pequeno-almoço, já fez mentalmente o diagnóstico diferencial entre uma enxaqueca, uma hemorragia subaracnoideia e um tumor cerebral tão raro que só apareceu descrito numa obscura revista alemã há vinte anos.

Conheço excelentes representantes das duas espécies.

Alguns estudaram na mesma faculdade. No mesmo ano. Com os mesmos professores.

No meu caso, basta abrir a porta de casa para perceber que o curso de Medicina também tem limitações.

Sou médica.

Sou asmática.

Sou alérgica a gatos.

E vivo com dois.

Os meus melhores amigos são os gatos.

Os segundos são os anti-histamínicos.

A ordem depende da estação do ano.

Continuo a dizer aos meus doentes que devem evitar aquilo a que são alérgicos.

Continuo convencida de que é um excelente conselho.

Só não sou propriamente um exemplo brilhante de obediência.

Talvez atribuamos às profissões poderes que nunca tiveram.

Esperamos que os médicos sejam o exemplo perfeito de vida saudável.

Depois entramos numa urgência às quatro da manhã e encontramos uma equipa inteira a sobreviver graças a café, chocolates e nicotina.

Esperamos que as cabeleireiras tenham sempre o cabelo impecável.

Até conhecermos aquela que passa o dia inteiro a tratar do cabelo dos outros e chega a casa com as raízes por pintar e um rabo de cavalo apressado.

Esperamos que os psicólogos sejam emocionalmente inabaláveis.

E surpreendemo-nos quando alguns acabam, precisamente eles, em burnout.

Os cursos ensinam-nos a reconhecer problemas.

Nem sempre nos ensinam a resolvê-los em nós próprios.

Talvez esse seja o nosso maior equívoco.

Confundimos competência com perfeição.

Esperamos que uma profissão transforme alguém numa pessoa diferente.

Mas a profissão nunca substitui a pessoa.

Apenas lhe acrescenta conhecimento.

Porque, tal como costumamos dizer que um diploma não dá educação, talvez também devêssemos lembrar-nos de que um curso não altera personalidades.