Junho: nos Estados Unidos decorre o Campeonato do Mundo de futebol enquanto a Europa se debate com ondas de calor absurdo provocadas pelas alterações climáticas. O resultado disto: centenas de milhares de americanos acusam os europeus de quererem matar os seus velhinhos ao não usarem AC (ar condicionado). Os europeus retorquem que se pode usar AC na Europa e que o AC não é a resposta para um problema global e que a indústria mundial tem de passar a usar apenas energias renováveis porque senão qualquer dia não haverá retorno – e não será só na Europa. Os americanos retorquem: usem AC, seus assassinos.
Enfim, tem sido cansativo, ir ao Twitter.
Porém, o mundo não é só o Twitter, é também Olivia Rodrigo e uma data de discos sobre os quais não falámos, apesar do seu mérito, e isso acaba aqui e agora, com esta escolha de álbuns particularmente originais para vosso prazer. Escusam de agradecer, é só ir morder e sentir o prazer no palato.
“Magazine”
YHWH Nailgun
Se em algum momento, por entre o estertor dos sintetizadores e a voz próxima do metal mais ferrugento, se lembrarem dos Nine Inch Nails ou dos Lightning Bolt, fiquem descansados que não são caso único. Magazine tenta – e possivelmente consegue – ser ainda mais radical do que 45 Pounds: em apenas onze minutos despacha dez faixas, como se cada música fosse reduzida ao seu núcleo mais violento. Muitos dirão que onze minutos nem duração de EP é, quanto mais LP, mas a banda insiste em tratá-lo como um álbum e, apesar da duração invulgar, faz sentido vê-lo dessa forma, pela coerência da experiência.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/5nT9mBH0yosh5yRuCqpKW3?si=327c6916d94947f1
Continuamos, portanto, a existir nesse intervalo em que noise rock, post-punk, industrial, dub, no wave e rock experimental se conjugam – como se caíssem todos simultaneamente na mesma falha tectónica e a música fosse o resultado da reação da Terra. A bateria continua a ser o grande centro gravitacional do grupo e os ritmos continuam imprevisíveis e cheios de mudanças de direção, a voz, mais que produzir melodias, lança gritos abafados, sussurros, frases quase incompreensíveis e explosões repentinas. Ainda assim, em Magazine o caos parece mais controlado do que em 45 Pounds. Um disco para os duros.
“So Help Me God”
Kelsey Lu
Passaram sete anos desde que Kelsey Lu se estreou com o maravilhoso e estranho Blood – sendo ela uma violoncelista, as cordas estavam sempre presentes, mas o disco misturava r’n’b, beats, música de câmara e experimental de uma forma inesperada. Ainda não é desta que ela se apresta a fazer música fácil: Reaper, a lindíssima faixa de abertura de So Help Me God, atinge os 8 minutos e é como se fosse várias canções numa só, aqui dominada pelo piano, ali pelos metais, etc. Se Blood era exuberante – e em parte talvez o fosse porque ninguém estava à espera daquilo – So Help Me God opta por uma abordagem mais introspetiva e espiritual.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/1NRIhAmDSsF25lFAwv4pDt?si=j2uIINwXT9aTEERubGAEeg
O violoncelo continua a ocupar o lugar central, mas surge envolvido por eletrónica delicada, sintetizadores etéreos e arranjos que cruzam pop, ambient, r’n’b alternativo e música de câmara. A voz de Lu mantém-se simultaneamente vulnerável e senhora de si, enquanto as canções exploram temas como redenção, identidade e transformação. Tal como Blood, não é um álbum que procure refrões imediatos ou momentos explosivos; prefere conquistar lentamente, revelando novos detalhes a cada audição. Sete anos depois podemos confirmar que Kelsey Lu é efetivamente uma das artistas mais singulares da pop experimental contemporânea.
“Cry Baby”
Vince Staples
Lançado em 2022, Ramona Park Broke My Heart consolidou Vince Staples como um dos grandes cronistas do rap contemporâneo, mas Cry Baby mostra-o mais direto e emocional, sem abandonar a precisão narrativa que sempre distinguiu a sua escrita. Grande parte do álbum assenta na produção de Cardo, The Alchemist, Kenny Beats, DJ Dahi, Hagler e LeKen Taylor, que constroem um ambiente melancólico e minimalista, recorrendo a sintetizadores discretos, baixos profundos e ritmos que deixam espaço para a voz do rapper.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/5Asm8hPfn7pAlxpoir4ljs?si=s7S2W0TdRs6HXlc4vHTI0A
Staples evita o virtuosismo técnico gratuito e prefere versos contidos, refletindo sobre fama, trauma, violência, relações pessoais e o peso de crescer em Long Beach. A sua interpretação pode parecer por vezes monotónica mas ele saca sempre uma bela melodia. Sem procurar singles óbvios ou refrões explosivos, Cry Baby aposta na atmosfera e na consistência, oferecendo um retrato íntimo de um artista que continua a transformar experiências pessoais em algumas das narrativas mais maduras e humanas do hip hop atual. Discão.
“An Eraser and a Maze”
Modest Mouse
Em 2022 Jeremiah Green, que era o baterista dos Modest Mouse, morreu – era o único elemento original da banda, além do compositor, cantor e guitarrista Isaac Brock. Se desde o início a formação dos Modest Mouse sempre foi uma espécie de cardápio em mutação constante, agora não há como os olhar senão como a banda de Brock – pelo que quando chegamos a Dogbed in heaven / Give it a sketleton, uma faixa que está algures entre a country feita num barracão a abanar de podres e uma cantiga da qual Tom Waits se esqueceu num baú cheio de teias de aranha, sabemos que isto é Brock e só Brock.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/0lJPeenR7JbVGYIj1g4d3g?si=e1d540e713a54972
Só pela descrição devem ter percebido que há algo em An Eraser and a Maze que é próximo da espontaneidade caótica dos primeiros discos – as guitarras nervosas, os ritmos imprevisíveis e a voz de Brock no centro da música, enquanto as letras revelam um artista mais contemplativo, refletindo sobre mortalidade, memória e legado. An Eraser and a Maze mostra que os Modest Mouse continuam capazes de transformar ansiedade existencial em algumas das canções mais singulares do rock alternativo contemporâneo.
“Whack’s Museum”
Tierra Whack
Quando Tierra Whack surgiu inicialmente, eu de alguma forma convenci-me de que ela explodiria, não digo que ao nível de estrela planetária mas de uma M.I.A. ou de uma Santigold – as suas faixas tinham algo de exótico, como se uma enzima tomasse MD e desatasse a rapar. Enfim, não aconteceu, nunca ninguém disse que o mundo era justo, mas em Whack’s Museum ela está novamente apaixonada pelo rap puro, numa mixtape de apenas 27 minutos centrada na escrita, no humor e na criatividade dos seus flows.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/46mboRimEXi5KPeUqtkC2i?si=2b9e1fd4cd954f43
A produção, liderada por Conductor Williams e complementada por vários colaboradores, aposta em samples de soul e batidas minimalistas, deixando espaço para que a personalidade de Whack ocupe o centro da narrativa. Ela continua a misturar referências da cultura pop com mudanças constantes de cadência em versos que soam simultaneamente leves e tecnicamente impressionantes. Faixas como Wiggidy Whack, Candle Wax e “Two Fifteen” demonstram uma MC mais focada do que nunca na arte de rimar. Tierra Whack nunca desilude e permanece uma das vozes mais avariadas e fascinantes do hip hop atual.