Vai voltar a ser votada esta semana uma das medidas-bandeira do PS para fazer face ao aumento do custo de vida é o IVA Zero e este foi um dos anúncios dos dois dias de Jornadas Parlamentares socialistas. Mas para o painel de debate desta manhã o PS convidou dois oradores muito críticos dessa mesma medida, um deles o antigo ministro das Finanças.
Mário Centeno apareceu na Amadora para participar num painel com Susana Peralta e foi a economista que interveio primeiro, criticando de forma clara a medida que o PS vai voltar a levar a votos. Centeno concordou com os argumentos usados e até disse que na altura em que o Governo socialista aplicou a medida, na crise inflacionista de 2023, até mandava “fotografias de queijo pecorino com trufa com IVA zero, o que era uma benesse verdadeiramente inexplicável”.
Não é de hoje a oposição de Centeno à medida, já tinha manifestado dúvidas quando era governador do Banco de Portugal, por temer que não fosse sentida pelos consumidores finais. Os tempos de aplicação não parecem ter convencido o antigo ministro que ao seu lado tinha sentado, a moderar o debate, o socialista que aplicou a medida em 2023, como secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, António Mendonça Mendes.
Peralta já tinha considerado esta uma “má medida”. É, argumentou, “dizer a toda a gente para manter o nível de consumo num período inflacionista quando esse é um período de escassez”. E Centeno também defendeu uma linha genérica de atuação que não deve seguir este caminho, ao dizer que quem governa deve estar “sempre disponível para tomar medidas como as que foram tomadas no início do processo inflacionista”, onde não constava o IVA Zero (que só foi aplicado mais tarde). E que essas medidas devem ser “temporárias, para que ninguém se acomode a elas, senão vamos estar a subsidiar consumos quando queremos que eles reduzam”.
Na intervenção que fez a seguir, sem referir o assunto, Carneiro agradeceu contributos para ajudar a “refletir” sobre opções políticas. Ao mesmo tempo defendeu o seu pacote de medidas para “mitigar os impactos do aumento do custo de vida”, onde se mantém o criticado IVA Zero — uma das medidas em que tem insistido mais nos debates quinzenais com o primeiro-ministro e que vai a votos novamente esta quinta-feira no Parlamento.
Do antigo ministro das Finanças, Carneiro ouviu ainda recomendações sobre a necessidade de ter “paciência” para “não transformar utopias em distopias”, chegando mesmo a dar um exemplo da governação de que fez parte: a promessa (não cumprida) do médico de família para todos os portugueses.
“Transformámos uma discussão positiva numa discussão que não tem nenhum sentido, nunca vai acontecer”, vaticinou o antigo ministro e governador do Banco de Portugal. E disse que essa é uma tendência dos políticos, “tornar muitas das utopias em distopias”, e que quando se transformam “objetivos legítimos em coisas que parecem inalcançáveis”, isso pode gerar “frustração”, que é “o melhor instrumento para os populistas”.
“Não tenhamos a tentação de desenhar políticas que resolvem problemas em seis meses. O pior que se pode ter quando se faz uma proposta política é que ela gere frustração a seguir. Pomos ênfase em respostas que não são, de todo, recomendáveis”, afirmou o antigo ministro que foi também convidado pelo líder do PS para integrar o painel de economistas que vão debater propostas políticas para os próximos dez anos.
Na sua intervenção, Centeno olhou para o copo meio cheio dos últimos dez anos: “Entre 2015 e 2025 os salários pagos às famílias portuguesas duplicaram.” “O sucesso da economia portuguesa é ímpar e único, não há outro momento da história em que tenha existido”, afirmou apontando a um período que coincide com a governação socialista e, em grande parte, com a sua passagem pelo Ministério das Finanças.
Recorde-se que Centeno é apontado como uma possibilidade do universo socialista (não é militante) para um dia poder vir a ser primeiro-ministro. Chegou a ser proposto por António Costa, como seu substituto como primeiro-ministro, na demissão de 2023, mas o então Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, não aceitou, optando por eleições antecipadas. Desde então já foi colocado no grupo de presidenciáveis preferidos pelo PS e não deixa de ser falado como uma reserva para o futuro.