Falta exatamente uma semana para o início da 77.ª cimeira da NATO. Um ano depois de, em Haia, os Estados-membros da Aliança Atlântica terem concordado com uma nova meta de investimento em defesa, correspondente a 5% do PIB, a maior parte ficou, ainda assim, aquém desse compromisso. A poucos dias de viajar para Ancara, Keir Starmer está decidido a apresentar resultados concretos aos seus pares. Nesse sentido, o primeiro-ministro britânico apresentou esta terça-feira o há muito aguardado plano de investimento em defesa (Dip, na sigla em inglês).
Contudo, a proximidade da cimeira da NATO não é o único prazo que paira sobre Londres. O encontro entre os chefes de Estado e os chefes de Governo da Aliança será também o último grande evento internacional de Starmer, que apresentou, na passada terça-feira, a sua demissão. Neste momento, apenas um nome avançou com uma candidatura para o substituir na liderança do Labour — e, consequentemente, do Executivo britânico. Se nenhum outro trabalhista entrar na corrida contra Andy Burnham, Keir Starmer pode abandonar Downing Street já no dia 20 de julho.
O anúncio da saída de Starmer complicou ainda mais o desenho do plano, obrigando o Governo a recorrer a especialistas para avaliar a constitucionalidade de um primeiro-ministro demissionário empreender grandes projetos de investimento, noticia o The Times. Mas o líder britânico recusou ceder e escolheu apostar em exclusivo neste plano na sua reta final no Governo, argumentando que o compromisso com um aumento dos investimentos em defesa já tinha sido feito. A um nível mais pessoal, Starmer terá encarado o projeto como um “pilar-chave do seu legado“, segundo descreveram responsáveis com conhecimento da situação ao Financial Times.

Mas o “legado” de Starmer na área da defesa pode não durar além do dia 21 de julho. Apesar de, neste momento, Andy Burnham ser apenas um deputado em Westminster sem poder para influenciar as ações do Governo, assim que chegar ao número 10 de Downing Street — uma realidade que parece inevitável — terá poder para rever as decisões aprovadas. Segundo revelaram aliados de Burnham ao The Times, esse será “provavelmente” o plano de ação do agora deputado trabalhista.
Apesar de os relatos dos seus aliados e das suas primeiras declarações públicas após a demissão de Starmer levantarem o véu sobre as posições que deverá assumir enquanto primeiro-ministro, sobram muitos pontos de interrogação sobre a postura que deverá adotar. Em particular, em relação ao maior Estado-membro da NATO, cujo líder insistiu no aumento das metas de defesa. Até agora, a sua personalidade e as palavras que Andy Burnham deixou sobre Donald Trump no passado antecipam um primeiro-ministro muito mais direto e menos lisonjeiro com a Casa Branca.
O plano que levou à demissão do ministro da Defesa e ficou “mal cozido”
O Dip anunciado esta terça-feira estava, na verdade, em construção há quase um ano, resultado das conclusões da cimeira da NATO em Haia. Contudo, dez anos depois do Brexit, a economia britânica ainda se ressente da saída da União Europeia e mantém-se em grande parte estagnada. Apesar do desejo de apostar na defesa, Starmer recusou cortar serviços sociais ou aumentar impostos para alcançar esse objetivo e o plano não avançou.
A recusa de Starmer resultou, no início de junho, na demissão do ministro da Defesa, John Healey, que acusou Starmer de não conseguir “mobilizar os recursos de que a nação necessita para defender o país”. O plano anunciado esta terça-feira, semanas depois da demissão, contempla um investimento de 80 mil milhões de libras (cerca de 93 mil milhões de euros) num prazo de quatro anos, alcançado através de cortes em programas de energia e transportes, no valor de 15 mil milhões de libras.
Mais concretamente, o plano prevê um investimento de 47 mil milhões de libras em submarinos nucleares, 13 mil milhões numa ogiva nuclear e jatos F-35A, capazes de carregar armas nucleares, e 5 mil milhões em drones. Contudo, apesar do aumento absoluto, isto traduz-se apenas num aumento de 0,1 pontos percentuais entre 2027 e 2030, para um total de 2,7% do PIB.
O plano é, portanto, descrito pelos aliados de Healey ao The Times como estando “mal cozido” (utilizando a expressão idiomática half-baked para se referir a algo incompleto ou mal feito). “Isto não resolve o problema de que, para defender bem o Reino Unido, tem de ser feito mais e mais cedo e isso exige mais dinheiro que, neste momento, não está em cima da mesa”, elaborou por sua vez o general Richard Barrons, antigo comandante do Comando Conjunto das Forças Armadas, à BBC.

Starmer tentou navegar a relação com Trump e procura evitar “profunda humilhação” em Ancara
“O próprio Presidente vai estar presente na próxima reunião de chefes de Estado da NATO”. A confirmação foi feita pelo secretário de Estado norte-americano Marco Rubio, no início de junho. A presença do Presidente dos Estados Unidos na cimeira costuma ser uma certeza que não carece de confirmação, mas as sucessivas críticas de Trump à aliança e aos aliados durante a guerra no Médio Oriente alimentaram o rumor nos círculos diplomáticos de que Donald Trump poderia falhar a reunião em Ancara.
Em privado, a administração norte-americana terá mesmo questionado se os países europeus da NATO teriam feito apenas uma “falsa promessa” em Haia e não planeavam aumentar os gastos com defesa, segundo relataram três pessoas, incluindo um responsável sénior do Executivo, ao The Telegraph. Tanto nas críticas públicas, como nas conversas privadas, o Reino Unido, e Keir Starmer, surgiram uma e outra vez como um dos alvos mais frequentes de Trump.
Enquanto outros líderes europeus resistiram à pressão e entraram num braço de ferro com Donald Trump, Starmer foi capaz de manter uma relação particularmente cordial com o intempestivo e imprevisível líder norte-americano. Grande parte do sucesso dessa relação deve-se à postura lisonjeira que Starmer adotou — exemplo disso é o facto de a sua primeira visita de Estado ter sido a Washington ou de ter entregue a Trump o convite do Rei Carlos para uma visita a Londres. Em resposta, Starmer foi “premiado” com um acordo comercial, o primeiro que os EUA assinaram depois de terem aplicado pesadas taxas alfandegárias às importações. Starmer foi o primeiro líder a mostrar que a personalização da relação com Donald Trump podia ser chave para navegar a necessidade europeia de manter laços com os Estados Unidos.
Afinal, a dependência militar ainda marca a relação transatlântica e os EUA continuam a ser o membro inquestionavelmente mais relevante da NATO. Neste contexto, impera, portanto, a necessidade de apresentar resultados concretos na cimeira. Chegar a Ancara de mãos a abanar, depois do compromisso assumido no ano passado, seria “profundamente humilhante”, como descreve a imprensa britânica — daí que Londres tenha preferido apresentar um plano mesmo que incompleto.
“Acho que vamos ter opiniões muito diferentes”. A expectativa de um líder mais distante de Washington
A relação com Trump não foi o único tema que ocupou a agenda de política externa de Keir Starmer ao longo dos dois anos que passou em Downing Street. Ao lado dos seus pares francês e alemão, o primeiro-ministro britânico tem liderado o apoio europeu à Ucrânia. Os dois exemplos ilustram o foco de Starmer na esfera internacional, que acabou por lhe valer uma alcunha pouco elogiosa: “never here Keir” (“Keir nunca está aqui”, em tradução livre).
“Não acho que Andy Burnham vá querer ser o ‘never here Andy‘ depois do ‘never here Keir‘”, argumentou Jill Rutter, analista do think tank Institute for Government, à Associated Press. O jogo de palavras espelha aquela que é a expectativa para a liderança de Andy Burnham, focada nas políticas domésticas e não na esfera internacional, muito diferente do seu antecessor. Não quer isso dizer que Burnham possa simplesmente ignorar a difícil relação com Trump (e com a NATO por associação), mas é expectável que esta sofra mudanças.

Essas mesmas mudanças foram antecipadas pelo próprio Donald Trump, quando, na passada quarta-feira, reagiu à possibilidade de o antigo autarca de Manchester ir ocupar o número 10 de Downing Street. “Acho que provavelmente vamos ter opiniões muito diferentes. Ele é muito liberal“, afirmou o Presidente norte-americano. Uma publicação que agora reemergiu, feita por Burnham nas redes sociais na sequência da invasão do Capitólio, a 6 de janeiro de 2021, também ajuda na construção do retrato de um político muito mais duro com Trump. “Qualquer político do Reino Unido que tenha dado atenção a Trump devia ter vergonha neste momento”, escreveu o então presidente da Câmara.
Ainda antes de a relação entre Washington e Londres poder estalar, o secretário-geral da NATO já procura uma ponte entre os dois. No espaço de uma semana, Mark Rutte — que ganhou o título de “encantador de Trump” — visitou Donald Trump na Casa Branca e Keir Starmer em Downing Street. Em ambas as ocasiões, fez questão de salientar que o aumento dos gastos em defesa é benéfico para todas as partes. “Consigo imaginar que o novo primeiro-ministro estaria extremamente interessado no crescimento económico e na criação de mais postos de trabalho”, afirmou Rutte ao The Guardian, na passagem por Londres. “Gastos com defesa fazem duas coisas ao mesmo tempo”, rematou.
O plano provável de Burnham: reindustrialização e “arte de persuasão”
Tinham passado pouco mais de 24 horas desde o anúncio de demissão de Keir Starmer quando o primeiro-ministro britânico recebeu, numa localização não divulgada e durante apenas uma hora, o seu provável sucessor. Na reunião, relatada por múltiplas fontes à imprensa britânica e descrita como “fria”, Burnham terá pedido a Starmer para analisar o rascunho do Dip, pedido que não terá sido aceite.
Esta terça-feira, questionado diretamente pelos jornalistas durante o anúncio do plano sobre se Burnham tinha sido incluído nas discussões, Starmer fugiu à questão, garantindo apenas que trabalhará para garantir uma transição de poder “ordeira”. Este constrangimento condena, logo à partida, o sucesso do plano, argumentam responsáveis de defesa ouvidos pelo Financial Times. “Starmer tem mais autoridade hoje do que tinha ontem? Não. Não vejo como é que a questão está resolvida. A única pessoa cuja opinião sobre qualquer coisa importa é Burnham“, elaborou um, criticando o método de trabalho para produzir um plano antes da cimeira da NATO.
Na verdade, Andy Burnham também defende a necessidade de aumentar os gastos com defesa. As críticas são direcionadas diretamente ao Dip e o plano de Burnham para alcançar esse objetivo passa antes por um modelo económico que aplicou na Câmara de Manchester e que já argumentou que deve ser alargado a todo o país. “Burnham favorece um horizonte de 10 anos para compra e investimento”, argumentam os professores especialistas em defesa e segurança John R. Deni e Philippe Dickinson, num artigo de análise.
“Isto reflete o desejo de Burnham de criar uma estratégia industrial que utilize as despesas com a defesa para reforçar o crescimento, reconstruir as economias locais e ampliar as competências dos trabalhadores a longo prazo. Desta forma, é provável que Burnham enquadre o aumento das despesas com a defesa — que se afigura cada vez mais necessário — como reindustrialização”, elaboram. É precisamente este o modelo de investimento referido por Mark Rutte no início desta semana.

Para além de um projeto diferente, o professor Rob Ford, da Universidade de Manchester, aponta ao New York Times um outro trunfo que pode ajudar Andy Burnham a ser bem-sucedido num campo em que Keir Starmer falhou. “Ao contrário do senhor Starmer, que tinha dificuldades com a arte da persuasão, o senhor Burnham é muito melhor contador de histórias”, escreve o jornal, parafraseando o especialista. Para o Reino Unido, o sucesso de Burnham pode ser positivo. Mas, para Keir Starmer, isso apagaria o seu “legado”, no qual apostou a 100% na reta final da sua passagem encurtada pelo Governo.