(c) 2023 am|dev

(A) :: "Estado cometeu um crime". José Sócrates celebra vitória "histórica", mas Ministério Público vai recorrer da decisão

"Estado cometeu um crime". José Sócrates celebra vitória "histórica", mas Ministério Público vai recorrer da decisão

Depois de tribunal condenar Estado por má administração da justiça, ex-primeiro-ministro falou num "processo julgado nos jornais". Procuradoria confirmou que vai recorrer da sentença do tribunal.

Manuel Nobre Monteiro
text

José Sócrates considerou que a decisão do Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa de condenar o Estado a indemnizá-lo em 15 mil euros por má administração no processo Operação Marquês foi “singular e histórica”, sublinhando que “esta é a primeira vez que o Estado é condenado por violação do segredo de justiça”. O Ministério Público vai, no entanto, recorrer da decisão do tribunal, confirmou fonte oficial da Procuradoria-Geral da República ao Observador.

https://observador.pt/especiais/3-razoes-que-explicam-a-primeira-vitoria-de-jose-socrates-contra-o-estado-e-o-direito-a-uma-indemnizacao-de-15-mil-euros/

Em declarações aos jornalistas na manhã desta terça-feira, o antigo primeiro-ministro afirmou que “o Estado é condenado por ter praticado um crime“, acrescentando que a sentença aponta que a violação do segredo de justiça foi cometida pelo “polícia, ou o procurador, ou o juiz”, defendendo que essa atuação pôs em causa “a ideia de um processo equitativo” e “a presunção de inocência“. Sócrates insistiu que se trata de uma decisão “histórica” e destacou que é “a primeira sentença em 13 anos da primeira instância de condenação, mas do Estado”.

O antigo primeiro-ministro afirmou, também, que o caso expõe métodos que, no seu entendimento, têm marcado a investigação criminal em Portugal, apontando para uma “cumplicidade entre o Ministério Público e a comunicação social” que descreveu como um mecanismo em que “um dá informação, a comunicação social alinha nessa informação e divulga essa informação, sem sequer se perguntar se o que está a reproduzir é verdade”.

“Quiseram fazer no fundo um processo paralelo, um processo que fosse julgado nos jornais e na televisão, sem direito a defesa e sem direito a ter juiz. Dão clandestinamente informações, violam a lei com a cumplicidade do jornalismo”, acusou.

Sócrates destacou, porém, as palavras do procurador que representou o Estado em julgamento, que terá referido que o antigo primeiro-ministro foi alvo de “uma campanha que se constituiu como um verdadeiro assassinato de carácter“, considerando-a “a mais violenta que existiu em Portugal”. Para Sócrates, essas declarações são particularmente relevantes por traduzirem “honestidade e coragem absolutamente invulgares”.

Segundo o acórdão a que o Observador teve acesso, o Estado foi condenado pelos “danos não patrimoniais sofridos em virtude de má administração da justiça, quanto à divulgação de informações sujeitas a segredo de justiça pelos respetivos órgãos”.

https://observador.pt/2026/06/29/estado-condenado-a-pagar-indemnizacao-de-15-mil-euros-a-jose-socrates-por-violacao-do-segredo-de-justica/

O tribunal admite que o segredo de justiça não foi cumprido durante “outras diligências de investigação que o Ministério Público levou a cabo, em conjugação com o juiz de instrução criminal e o órgão de polícia criminal”, mas rejeitou uma “parte substancial” da ação de José Sócrates, que exigia 205 mil euros de indemnização, acrescentando queixas sobre a “duração excessiva do inquérito”.

A indemnização é assim atribuída parcialmente, uma vez que o Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa concluiu que não houve qualquer atuação ilícita do Estado, apontando para o elevado grau de complexidade associado a esta investigação.