O medo constitui uma etapa importante da experiência religiosa bíblica, mas a revelação cristã procura superá-lo, transformando-o em confiança amorosa. O «temor de Deus» não desaparece; deixa de ser terror diante do castigo e torna-se reverência diante do Mistério que ama.
1 – O medo de Deus no Antigo Testamento
O medo, enquanto emoção básica e componente fundamental da experiência humana, permite abordagens muito distintas. Embora universal e indispensável à sobrevivência, é fortemente moldado por fatores sociais, culturais, históricos, políticos e religiosos.
Note-se que o medo é uma emoção presente em diferentes formas de vida, aproximando-se de uma reação biológica comum. Esse facto aproxima o medo humano do medo animal, entendido como mecanismo fisiológico de defesa. Todavia, nos seres humanos, os medos são múltiplos porque são também fruto da imaginação e, por isso, mais complexos e diferenciados do que no mundo animal.
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro.
(Carlos Drummond de Andrade, Congresso Internacional do Medo)
O medo é uma reação biológica primária e adaptativa, essencial à sobrevivência humana. Ativa-se diante de uma ameaça concreta para desencadear respostas de fuga ou de defesa. Contudo, transforma-se profundamente quando o perigo deixa de ter um rosto definido e passa a habitar o universo das representações, das expectativas e das crenças.
Ao analisar o medo na experiência bíblica, surge um dos temas mais delicados da teologia: a conciliação entre o Deus que parece severo, guerreiro e, por vezes, violento em muitos textos do Antigo Testamento e a afirmação central do Novo Testamento de que «Deus é amor» [1 Jo 4,8.16].
Nas religiões antigas, incluindo a religião de Israel nos seus estágios mais remotos, o sagrado era frequentemente experimentado como algo tremendo e assustador. Contudo, a maioria dos biblistas contemporâneos considera que esses textos não devem ser lidos como relatos literais da ação divina, mas como interpretações humanas da história à luz da fé.
Israel acreditava que Deus estava presente em tudo o que acontecia, incluindo as guerras e as derrotas. Por isso, atribuía a Deus acontecimentos que hoje seriam interpretados de outra forma. Pode dizer-se que os autores bíblicos compreenderam e descreveram Deus segundo as categorias culturais e religiosas do seu tempo. Daí que seja redutor afirmar simplesmente que «Deus era cruel no Antigo Testamento», interpretação difícil de compatibilizar com a proclamação neotestamentária de que «Deus é amor».
O Deuteronómio representa precisamente uma espiritualidade em que o medo do castigo ainda desempenha uma função pedagógica. Tem muito a dizer tanto sobre aquilo que não deve ser temido como sobre aquilo que merece ser temido. O livro pretende servir de guia para o temor religioso, tanto para o indivíduo como para a comunidade.
A expressão «temer o Senhor» é frequentemente sinónima de «guardar os seus mandamentos». O temor a Deus encontra-se intimamente ligado a outras atitudes fundamentais, como amar [Dt 10,12] e servir [Dt 6,13; 10,12.20].
Enquanto ato de comunicação, o Deuteronómio é particularmente interessante para o estudo do medo coletivo, das suas estratégias retóricas e dos mecanismos de transmissão da memória religiosa.
Trata-se de uma obra literária complexa, formada ao longo de vários séculos. Segundo a sua apresentação narrativa, preserva os discursos que Moisés teria dirigido ao povo às vésperas da entrada na Terra Prometida. Embora fale em nome de Deus, as suas palavras são marcadas pela consciência da própria morte iminente, uma vez que sabe que não acompanhará o povo na posse da terra prometida. Neste contexto é promulgado um vasto conjunto de leis destinado a organizar uma sociedade sedentária, muito diferente da vida nómada anteriormente vivida por Israel.
Importa, contudo, sublinhar a evolução da imagem de Deus ao longo do próprio Antigo Testamento. Se nos textos mais antigos Deus surge frequentemente associado à justiça retributiva, progressivamente aparecem vozes proféticas que revelam um rosto muito diferente.
O profeta Oseias apresenta Deus como um esposo apaixonado [Os 2,19] e coloca nos seus lábios palavras de extraordinária ternura: «O meu coração comove-se dentro de mim» [Os 11,8]. Isaías, por sua vez, compara Deus a uma mãe incapaz de esquecer o filho que gerou [Is 49,15].
Apesar desta evolução, grande parte da teologia do Deuteronómio assenta numa lógica relativamente clara: quem é fiel é abençoado; quem é infiel é castigado. É aquilo a que os biblistas chamam «teologia da retribuição».
Esta visão produz uma consequência psicológica importante: o medo. O fiel vive na esperança da recompensa, mas também sob a ameaça do castigo. No entanto, a experiência concreta da vida frequentemente contradiz esta lógica. Existem justos que sofrem, crianças inocentes que padecem e perversos que prosperam.
O Livro de Job nasce precisamente desta crise. O seu tema central é a justiça de Deus e o modo como Ele conduz a história da salvação num mundo onde, misteriosamente, o justo sofre e o mal parece triunfar.
Ao integrar diferentes tradições literárias numa mesma obra, o autor procura enfrentar esta questão fundamental. Entre as várias intervenções redaccionais destaca-se a figura de Eliú, apresentada como um sábio inspirado pelo Espírito de Deus.
Eliú está convencido de que Deus possui um desígnio para toda a Criação e para toda a história. A partir dessa convicção, interpreta o sofrimento como lugar de educação, correção e possível crescimento espiritual. Esta é, porém, a sua interpretação particular, não necessariamente a conclusão definitiva de todo o livro.
Muitos leitores ficam impressionados com os capítulos iniciais, onde Deus parece aceitar uma espécie de aposta com Satanás. No entanto, o objetivo do relato é colocar uma questão radical: poderá existir uma fé que não dependa da recompensa? Continuará o ser humano a acreditar quando perde tudo aquilo que possuía?
O verdadeiro tema do livro não é a crueldade divina, mas a gratuidade da fé. Job não se limita a sofrer. Protesta, acusa, questiona Deus e aproxima-se, por vezes, do limite da blasfémia.
Os amigos de Job, representantes da ortodoxia tradicional, insistem em que ele sofre porque pecou. Porém, no final do livro, Deus reprova os amigos e não Job. Este facto é extraordinário, porque significa que a Bíblia considera mais autêntica a busca angustiada de Job do que as respostas religiosas simplistas oferecidas pelos seus interlocutores.
A parte mais difícil do Livro de Job surge quando Deus, finalmente, fala do meio da tempestade. Contudo, não responde diretamente à pergunta essencial: «Porque sofre o inocente?»
Em vez disso, formula uma série de perguntas sobre a Criação:
«Onde estavas quando fundei a Terra?»
«Conheces os segredos do mar?»
«Governas o universo?»
À primeira vista, pode parecer uma fuga à questão. No entanto, muitos estudiosos entendem que o objetivo não é humilhar Job, mas deslocar a pergunta para um horizonte mais amplo. O sofrimento humano não encontra explicação numa simples contabilidade moral. A realidade é mais profunda e misteriosa do que os sistemas religiosos conseguem abarcar.
A experiência de Deus deixa então de assentar no medo do castigo ou na expectativa da recompensa. Torna-se encontro. Por isso, a frase final de Job é considerada por muitos teólogos como o verdadeiro centro do livro: «Eu conhecia-Te só de ouvir dizer; mas agora os meus olhos veem-Te» [Jb 42,5].
Job descobre que o sofrimento não pode ser explicado apenas pelo pecado e que a relação com Deus não pode assentar exclusivamente na lógica da recompensa e do castigo. Abre-se, assim, o caminho para uma fé mais livre, mais madura e mais próxima daquela que encontrará a sua expressão plena em Jesus Cristo.
Não é por acaso que muitos autores cristãos veem em Job uma figura antecipadora de Cristo: o justo inocente que sofre sem compreender plenamente o porquê. A diferença é que, em Job, a pergunta permanece em aberto; no Evangelho, a resposta não surge através de uma explicação racional do sofrimento, mas pela solidariedade de Deus com aqueles que sofrem. Esta constitui uma das mais profundas transformações da experiência religiosa do medo na tradição bíblica.
2 – Jesus e a transformação do medo
No Novo Testamento, Jesus não elimina completamente o temor religioso, mas transforma-o profundamente, substituindo o medo do castigo pela confiança filial.
Enquanto muitas tradições religiosas afirmavam: «Teme a Deus porque Ele é poderoso», Jesus ensina: «Confia em Deus porque Ele é Pai.»
A palavra aramaica Abba, que poderíamos traduzir por «Pai querido», representa uma verdadeira revolução espiritual. Por isso, em numerosas passagens evangélicas, Jesus repete aos seus discípulos: «Não tenhais medo.»
O medo deixa de ser o fundamento da relação com Deus. O fundamento passa a ser o amor.
Na tradição bíblica, especialmente na espiritualidade cristã, o «temor de Deus» não significa terror, mas reverência, admiração, consciência da grandeza divina e humildade diante do mistério.
Santo Agostinho considera o temor como o início do caminho espiritual. São Tomás de Aquino vê no amor a sua plenitude. Santa Teresa de Ávila (santa Teresa de Jesus) , por sua vez, ensina que a alma amadurecida já não serve Deus por medo, mas por amor.
No “Caminho de Perfeição”, escreve: «Procurando viver sempre no amor e no temor de Deus, iremos seguras por entre tantas tentações.»
O temor permanece, mas já não é medo servil. Torna-se respeito amoroso diante de Deus e confiança na Sua misericórdia.
3 – A situação na contemporaneidade
Muitos teólogos contemporâneos consideram que a Bíblia revela uma verdadeira pedagogia divina, mediante a qual o ser humano é conduzido progressivamente: do medo à confiança; da obediência servil à liberdade; da lei ao amor; da imagem de um soberano castigador à imagem de um Pai misericordioso revelado em Jesus Cristo.
Neste sentido, não existem dois Deuses — um severo no Antigo Testamento e outro amoroso no Novo. Existe uma única Revelação, compreendida progressivamente por um povo que foi amadurecendo na sua experiência de Deus até alcançar, em Jesus Cristo, a manifestação plena do amor divino.
Ao longo da tradição bíblica, o medo desempenha uma função pedagógica importante. Contudo, a revelação cristã procura transformá-lo progressivamente em confiança amorosa. O «temor de Deus» não desaparece; deixa de ser terror diante do castigo e torna-se reverência diante do Mistério que ama.
A conciliação entre o Deus que parece severo, guerreiro e, por vezes, violento em alguns textos do Antigo Testamento e a afirmação central do Novo Testamento de que «Deus é amor» exige distinguir entre a Revelação divina e a compreensão humana dessa Revelação ao longo da história. Esta perspetiva permite articular o Antigo e o Novo Testamento sem cair na oposição simplista entre um «Deus cruel» e um «Deus amoroso».
Na homilia de início do seu pontificado, em 22 de outubro de 1978, São João Paulo II lançou o célebre apelo: «Não tenhais medo! Abri, antes, escancarai as portas a Cristo!»
Revisitando esse momento histórico, percebe-se que João Paulo II identificou com notável lucidez uma das grandes fragilidades do homem contemporâneo: a dúvida que facilmente se transforma em desespero.
Ao pedir que os sistemas económicos, políticos e culturais se abrissem a Deus, o Papa propunha que o verdadeiro antídoto para o medo social e existencial não fosse a autodefesa nem o isolamento, mas a abertura confiante a uma transcendência que conhece profundamente o coração humano.
«Não tenhais medo» tornou-se o grande lema do seu pontificado e um convite universal à coragem, à esperança e à fé cristã. Este apelo atravessou toda a sua ação pastoral e encontra eco em numerosos documentos do seu magistério.
Na encíclica Ecclesia de Eucharistia, por exemplo, escreve: «É bom demorar-se com Ele e, inclinados sobre o seu peito como o discípulo predileto, deixar-se tocar pelo amor infinito do seu coração.» E acrescenta: «Quantas vezes, meus queridos irmãos e irmãs, fiz esta experiência e dela recebi força, consolação e apoio.»
Como franciscano, considero igualmente significativo recordar a imagem de Deus transmitida por São Francisco de Assis. Na sua Admoestação XXVII encontramos uma síntese admirável: «Onde há caridade e sabedoria, aí não há temor nem ignorância.»
Pode afirmar-se que Francisco estava profundamente à frente do seu tempo, não por ter criado uma doutrina, mas porque regressou ao núcleo mais puro do Evangelho num contexto medieval amplamente marcado pelo medo. No século XIII, o temor do inferno, das epidemias, dos hereges e do fim do mundo era frequentemente utilizado como instrumento de coesão social e religiosa.
Francisco rompe, em grande medida, com essa pedagogia do medo. Ao centrar-se na Encarnação — simbolizada no presépio de Greccio — e na humanidade sofredora de Cristo, aproxima Deus do ser humano. O medo é substituído pela confiança filial. Se Deus conta até os cabelos da nossa cabeça e cuida dos pardais, então o ser humano não precisa de viver sob o peso permanente do pânico espiritual.
Além disso, ao chamar «irmão» e «irmã» não apenas aos seres humanos, mas também ao Sol, à Lua e até à própria morte corporal, Francisco dissolve uma das raízes mais profundas do medo: a separação radical entre o eu e aquilo que é percebido como estranho ou ameaçador.
O encontro entre São Francisco e o sultão Malik al-Kamil, em 1219, durante a Quinta Cruzada, constitui talvez o exemplo mais eloquente desta espiritualidade.
Numa época em que o Islão era frequentemente visto como o inimigo absoluto, Francisco escolheu o caminho do encontro em vez do confronto. Demonstrou, na prática, que o medo é muitas vezes o verdadeiro motor da violência. Ao vencer o medo dentro de si mesmo, deixou de necessitar de armaduras e de espadas.
O encontro com o sultão mostra que, para Francisco, o «não temais» evangélico não era apenas uma preparação para a morte, mas uma proposta concreta para a convivência humana: uma diplomacia fundada no respeito mútuo, na escuta e na fraternidade.
Tal foi a força profética desta atitude que, ainda hoje, os Franciscanos permanecem como guardiões dos Lugares Santos no Médio Oriente, testemunhando uma presença construída mais sobre a confiança do que sobre o poder.
Concluindo, a história bíblica do temor de Deus pode ser lida como uma longa caminhada espiritual. Parte-se do medo diante do sagrado, passa-se pela confiança progressivamente amadurecida na experiência de Israel e chega-se, em Jesus Cristo, à revelação plena de um Deus que é amor.
O temor permanece, mas transforma-se. Já não é o medo do castigo; é a reverência de quem se sabe amado. E talvez seja precisamente esta a mensagem que continua a ressoar no coração da fé cristã: «Não tenhais medo»