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O fim da Curva de Phillips como preditor da Inflação

Para Kevin Warsh, crescimento forte, preços controlados e emprego elevado são mutuamente compatíveis, desde que a expansão seja alicerçada pela produtividade.

Jorge Coutinho de Miranda
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Durante sessenta anos, os Bancos Centrais e em especial a Reserva Federal Americana, governaram as expectativas dos preços a partir da premissa de que para conter a inflação, é preciso conter o crescimento da massa salarial. Chamaram-lhe Curva de Phillips, batizada em 1958 a partir de um estudo do economista neozelandês William Phillips sobre salários e desemprego no Reino Unido, transformando uma correlação estatística contingente numa suposta lei da natureza. E sobre essa lei ergueram um edifício inteiro de poder: o banco central como oráculo, a sociedade como refém da “escolha cruel” entre emprego e estabilidade de preços.

Na sua primeira conferência de imprensa como Presidente da Reserva Federal, Kevin Warsh disse não a essa premissa pela primeira vez como Governador do Banco Central Americano. Disse-o com todas as letras ao não acreditar que tenha de subir ao púlpito e insinuar aos americanos que escolham entre tolerar mais inflação ou colocar mais gente a trabalhar. Para Warsh, crescimento forte, preços controlados e emprego elevado são mutuamente compatíveis, desde que a expansão seja alicerçada pela produtividade. Ninguém reparou, pois estão todos ocupados a predizer qual irá ser a nova taxa diretora sobre o dinheiro.

O Professor Javier Milei, Presidente da República Argentina, provou-o ao controlar a inflação na Argentina, aplicando com disciplina férrea os ensinamentos da Escola Austríaca formulados há mais de um século: que a inflação é, essencialmente, um fenómeno monetário e não é o emprego que faz subir os preços. Não é o salário do operário, nem o crescimento da economia real, que corroem o poder de compra. É a emissão de moeda sem lastro na produção, pois quando um banco central imprime mais unidades monetárias do que a economia produz em bens e serviços, cada unidade vale menos. Preparem-se, pois os 90 mil milhões de euros que acabamos de imprimir para entregar para o esforço de Guerra Ucraniano, vão certamente ter impacto inflacionista no futuro.

Desde quando é que o progresso real alguma vez encareceu as coisas? Cada máquina melhorada, cada processo mais rápido, cada descoberta científica faz cair o custo de tudo o que toca. O crescimento alimentado pela produtividade é, por natureza, deflacionário: O telemóvel que comanda as nossas vidas de hoje, cabe no bolso e tem mais poder de cálculo do que os computadores que levaram o homem à Lua, a um custo acessível; Os foguetões recicláveis da SpaceX, que todos insistiram ser impossível, e que baixaram o preço da colocação de satélites em Órbita, democratizando o acesso ao Espaço.

Warsh foi mais longe e dispensou o chamado forward guidance, a prática de o Fed anunciar antecipadamente aos mercados as suas intenções de política monetária. Quando um repórter da Fox Business o questionou sobre o risco de mais volatilidade, respondeu que os mercados funcionam melhor quando reagem aos dados que chegam da economia real, e pior quando passam o tempo a tentar adivinhar como reagirá a Reserva Federal. Por outras palavras: deixem de consultar o “bruxo” e olhem para a produção, o emprego, os preços. É uma transferência de autoridade da profecia monetária para a realidade.

Esta viragem doutrinária não vive sozinha nos Estados Unidos. Acompanha-a um esforço de reindustrialização através de crédito direcionado: na semana passada, o Conselho de Segurança Nacional reuniu com o Export-Import Bank, o Departamento do Comércio e a Small Business Administration, e saiu desse encontro o anúncio de garantias de empréstimo até 90% para máquinas-ferramenta, no âmbito da iniciativa Make More in America. Crédito para o sector produtivo, não para a engenharia financeira.

Foi por estes dias que Luís Montenegro anunciou, no encerramento do congresso do PSD, a criação de um Fundo Soberano de Portugal, alojado no IGCP, destinado a tomar participações acionistas em empresas “estratégicas” da energia, da banca, das comunicações e das infraestruturas.

À primeira vista, parece o decalque português do modelo de Trump: o Estado a entrar no capital de campeões nacionais. Mas a semelhança é enganosa, e o contraste é evidente. O instrumento americano denomina-se de crédito reembolsável, com garantia, dirigido a quem produz bens transacionáveis: o investimento que o Governo Federal Americano fez no início do ano na Intel já foi triplicado, e assegurou a criação de uma fábrica gigantesca em solo americano para a produção de chips de última geração, ao mesmo tempo que a TSMC de Taipé inicia a construção da maior fábrica de semicondutores e chips do mundo em solo americano. A independência da América neste setor estratégico deixou de depender de terceiros!

O veículo de Montenegro, financiado anualmente pelo Orçamento e sem mandato claro, é propriedade pública à procura de empresas onde entrar. O próprio primeiro-ministro passou a campanha de 2024 a criticar precisamente esta visão de Estado interventor, pois crédito dirigido pelo Estado é terreno fértil para má alocação de capital e captura de rendas. Copiar a estética de Washington sem a disciplina do reembolso é ficar com o pior dos dois mundos, arriscando-nos a ficar com os ossos, enquanto que empresários predadores continuem a usar e abusar da generosidade dos contribuintes.

É a mente humana que faz progredir o mundo e cada descoberta aumenta o poder do homem sobre a natureza e faz colapsar o custo de tudo a jusante. É assim que se tem crescimento dos salários sem inflação e se aumenta a produtividade.

Warsh enterrou a escolha cruel. Resta saber se Frankfurt, e sobretudo se o BCE e Christine Lagarde terão a coragem intelectual de o escutar, e se Lisboa conseguirá distinguir entre financiar a produção ou optar pela captura do Estado pelos mesmos de sempre.

¡Viva la Libertad, Carajo!