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Gaza na rua europeia: indignação, radicalização e segurança interna

É legítimo protestar por Gaza. O que não é legítimo é transformar a rua europeia num prolongamento simbólico da guerra.

Francisco Jorge Gonçalves
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Há momentos em que a Europa julga ouvir ao longe o som da guerra e acredita que ele permanecerá do outro lado do Mediterrâneo. A experiência recente mostra o contrário.
A guerra em Gaza não ficou no Médio Oriente: entrou na Europa — primeiro como linguagem de protesto, depois como fator de radicalização e, em alguns casos, como risco para a segurança interna.

Desde 7 de outubro de 2023, a guerra traduziu-se nas ruas, nas universidades e nas redes sociais europeias: slogans transformados em ameaça, identidades convertidas em alvo e um antissemitismo que regressou ao espaço público. Comunidades passaram a viver, expor-se e agir em função do risco.

Durante meses, muitos optaram por interpretar este fenómeno como excesso retórico — reflexo da comoção perante imagens de devastação. Os dados europeus contrariam essa leitura. Em 2024, a Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA) revelou níveis muito elevados de exposição ao antissemitismo: 80% dos judeus inquiridos consideram que este se agravou e 75% sentem-se responsabilizados pelas ações de Israel apenas por serem judeus. Em vários Estados-Membros, os incidentes aumentaram mais de 400% após outubro de 2023. A própria Comissão Europeia reconhece, no Relatório de Progresso da Estratégia 2021-2030, uma deterioração “dramática” e níveis “sem precedentes” no período subsequente.

Importa, por isso, uma distinção essencial. É legítimo protestar por Gaza, criticar operações militares, exigir cessar-fogo ou denunciar violações do direito internacional — tudo isso integra o espaço democrático. Mas uma coisa é a crítica política; outra, qualitativamente distinta, é transformar judeus europeus em representantes substitutivos de Israel. Criticar um Estado é um direito. Responsabilizar uma comunidade é uma forma de hostilidade coletiva.

Este fenómeno ultrapassa claramente o plano discursivo. Em vários países, segmentos deste ativismo transitaram já para o domínio da segurança interna e, em certos casos, para o âmbito da legislação antiterrorista. No Reino Unido, o grupo Palestine Action foi extinto ao abrigo do Terrorism Act 2000, decisão confirmada pelo Tribunal de Recurso em 15 de junho de 2026. Na Alemanha, o caso “Ulm 5” levou a julgamento, em 27 de abril de 2026, cinco ativistas do Palestine Action Germany, acusados de ataques a infraestruturas industriais e pronunciados por associação criminosa. Em França, o coletivo Collectif Palestine Vaincra foi extinto, com confirmação judicial em 20 de fevereiro de 2025, tendo ainda sido instaurados procedimentos criminais contra ativistas por apologia do terrorismo e incitamento à violência.

Outros sinais reforçam esta tendência. Em Itália, a dimensão financeira ganhou relevo com a emissão de medidas cautelares, a 27 de dezembro de 2025, a nove indivíduos numa operação da Direção Distrital Antimáfia e Antiterrorismo de Génova, envolvendo três associações — Associazione Benefica di Solidarietà con il Popolo Palestinese (Génova), Associazione di Solidarietà Palestinese e La Cupola d’Oro (Milão) — alegadamente usadas para canalizar fundos destinados ao financiamento do Hamas. Na Dinamarca, os serviços de informações (PET) identificaram redes com ligações logísticas e operacionais suscetíveis de enquadrar dinâmicas de preparação de potenciais atentados.

A Samidoun — Palestinian Prisoner Solidarity Network — ilustra um padrão transnacional. O seu nome significa «os que permanecem firmes» e é frequentemente referenciada por autoridades internacionais como rede associada à legitimação e apoio a organizações terroristas. Foi proibida na Alemanha e sancionada no Canadá e nos Estados Unidos, refletindo uma convergência internacional na sua qualificação.

Apesar disso, mantém presença ativa em vários países europeus. Nos Países Baixos, os serviços de informações (AIVD) identificam-na como rede extremista associada à radicalização e à propaganda; na Bélgica, foi integrada, em 3 de julho de 2025, na base de dados T.E.R. (Terrorismo, Extremismo e Radicalização) do Organismo de Coordenação da Ameaça (OCAD) sinalizando um nível de risco consolidado. Em 16 de junho de 2026, a Polícia Nacional espanhola deteve dois indivíduos ligados a estes ambientes, no âmbito de uma operação dirigida pela Audiência Nacional, evidenciando a sua transposição para o plano criminal.

Estas dinâmicas não operam isoladamente. Funcionam como um ecossistema em que organizações transnacionais, redes informais e práticas de mobilização nacional se reforçam mutuamente, contribuindo para a normalização de linguagens e comportamentos radicais.

No espaço público, essa evolução tornou-se visível: edifícios marcados com Estrelas de David como intimidação, tentativas de intrusão em sinagogas, agressões em contextos académicos. Paralelamente, slogans como “globalize the intifada” são usados em manifestações e, em determinados contextos, funcionam como legitimação simbólica da violência. Não se trata apenas de palavras, mas da sua banalização como linguagem aceitável.

Em alguns casos, estas práticas articulam-se com mecanismos mais estruturados — financiamento encoberto, organização em células ou disseminação sistemática de propaganda — suscetíveis de evoluir para apoio logístico a redes terroristas. É precisamente esta zona de transição que mais preocupa as autoridades europeias.

Isto não significa que toda a mobilização pró-Palestina seja extremista. Significa, sim, que uma parte desse espaço passou a ser observada como terreno de radicalização e legitimação da violência, afastando-se das balizas democráticas.

Portugal começa a evidenciar que não está imune a este padrão. Aliás, o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2025, alinha com tendências identificadas ao nível europeu — designadamente pela Europol, no seu Relatório sobre a Situação e as Tendências do Terrorismo (TE-SAT 2025) — que assinala o impacto do conflito em Gaza na radicalização e na instrumentalização de causas políticas por redes extremistas.

As buscas da Polícia Judiciária (PJ), a 18 de junho de 2026, a elementos do denominado “Coletivo pela Libertação da Palestina”, conduzidas pela Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT), inserem-se num inquérito com suspeitas de associação criminosa, instigação pública a crime, apologia de crime e dano qualificado.

A reação do próprio coletivo é reveladora: mais do que contestar a intervenção policial, enquadrou-a como parte de um alegado “ataque dos Estados” e afirmou a continuidade da sua ação, numa lógica de confronto que excede o protesto cívico.

Este episódio ilustra um ponto decisivo: quando um fenómeno entra no perímetro da UNCT/PJ, deixa de ser apenas expressão de protesto e passa a poder ser tratado como potencial risco estruturado de segurança interna.

É neste contexto que emerge também a contestação institucional. Em 20 de junho de 2026, várias organizações e ativistas manifestaram solidariedade com o coletivo, denunciando o que consideram ser uma perseguição e enquadrando o caso numa alegada tendência europeia de criminalização do ativismo.

O desafio para as democracias liberais é delicado. Confundir toda a solidariedade com Gaza com extremismo seria um erro grave. Mas ignorar que certos segmentos banalizam a intimidação, legitimam a violência e contribuem para um ambiente hostil para judeus europeus seria ainda mais perigoso.

A distinção permanece simples: é legítimo chorar Gaza. É legítimo protestar por Gaza. O que não é legítimo é transformar a rua europeia num prolongamento simbólico da guerra — um espaço onde comunidades se tornam alvos difusos e o radicalismo se apresenta como consciência moral.

Porque as democracias liberais não falham apenas quando enfrentam a violência — falham sobretudo quando deixam de a reconhecer.