Os últimos dias da concentração dos Países Baixos têm sido particularmente dolorosos. No fim de semana, Cody Gakpo anunciou que o segundo filho morreu durante a gravidez, tendo sido dispensado dos trabalhos dos neerlandeses para acompanhar a mulher e também o filho mais velho. Através das redes sociais, o avançado do Liverpool deu a notícia — mas também deixou desde logo a ideia de que teria uma nova estrela a guiá-lo.
“Com os corações partidos, partilhamos a notícia devastadora de que o nosso menino morreu durante a gravidez. Obrigado pelo vosso amor e apoio. Elijah Raphael Gakpo. Amado para sempre, para sempre o nosso filho. Fomos à igreja acender uma vela. Depois, caminhámos até ao parque infantil da igreja com o nosso filho Samuel. Estava lá apenas mais uma criança e o nome dele era Elijah. Não poderia ter havido um sinal mais bonito de Deus. Relembrou-nos de que o nosso menino nunca está longe”, escreveu Gakpo, cujo filho mais velho tem apenas dois anos.
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Neste contexto, e até porque o futebol é apenas a coisa mais importante das menos importantes da vida, a certeza de que Cody Gakpo seria baixa para o jogo dos Países Baixos contra Marrocos começou a ganhar força. Até ao momento em que Ronald Koeman, com a devida autorização do avançado, confirmou que este queria jogar, ia jogar e nunca colocou em causa a hipótese de não entrar em campo nos 16 avos de final do Mundial 2026.
“Foi uma notícia muito triste. O Cody e a família… Fizemos tudo para o apoiar, como jogadores e como staff. Nos últimos dias ele foi dispensado para estar com a família. Lidou bem com isto e não houve nenhum momento em que tenha dito que queria sair. É a maneira de ser dele e acaba por mostrar maturidade. Está pronto para jogar e não acho que vá ser um peso na exibição, ele lida com as coisas à maneira dele. É forte e damos sempre o nosso apoio, pode contar connosco”, explicou o selecionador neerlandês.
Assim e com Cody Gakpo no onze inicial, os Países Baixos defrontavam Marrocos no Estádio BBVA de Monterrey, no México, depois de terem vencido o Grupo F e já a saber que o eventual adversário dos oitavos de final era o Canadá, que eliminou a África do Sul. Ronald Koeman sacrificava Reijnders para montar uma linha de três defesas, enquanto que Mohamed Ouahbi, do outro lado e numa seleção marroquina que ficou no segundo lugar do Grupo C, tinha Ounahi, El Khannouss e Brahim Díaz no apoio ao crónico Ismael Saibari.
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Numa primeira parte que terminou sem golos, mas que teve sempre muitos duelos e uma agressividade acima da média, os Países Baixos começaram por ter uma posse de bola inconsequente que rapidamente foi substituída pelo caos de Marrocos. El Aynaoui (20′) e Achraf Hakimi (21′) ficaram ambos muito perto de marcar, com Bart Verbruggen a responder com duas enormes defesas, a pausa para hidratação travou o entusiasmo africano e Micky van de Ven ainda assustou Bounou (44′). Ao intervalo, porém, estava ainda tudo empatado sem golos em Monterrey.
Os marroquinos regressaram dos balneários muito por cima e com uma capacidade brutal de entrar em velocidade no último terço contrário, com Hakimi a acertar na trave logo nos instantes iniciais (52′) e El Khannouss a atirar de fora de área para Verbruggen encaixar (58′). Os neerlandeses não tinham qualquer capacidade para contrariar o ascendente do adversário e só respondiam em transição rápida, sendo que raramente causavam grandes calafrios perto da baliza de Bounou.
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Ronald Koeman reagiu com Koopmeiners e Wout Weghorst e tudo mudou com a segunda pausa de hidratação: no primeiro lance depois de o jogo ser interrompido, numa jogada mais do que direta que começou no guarda-redes, Summerville apareceu lançado no ataque e conseguiu tocar para Cody Gakpo, que à saída de Bounou atirou para abrir o marcador (72′). De forma natural, o avançado não conseguiu conter as lágrimas e festejou de forma muito emocionada, sendo abraçado por todos os jogadores em campo e também por todos os suplentes antes de apontar para o céu.
Ainda assim, nada estava decidido: já nos descontos, Chemsdine Talbi cruzou na esquerda e Issa Diop, a saltar mais alto do que Van Dijk ao segundo poste, cabeceou para empatar e levar tudo para o prolongamento (90+1′). Nada mudou na meia-hora extra e o jogo seguiu mesmo para a decisão por grandes penalidades, onde entre vários falhanços e muitos remates ao poste, à trave ou até para fora, o herói acabou por ser Bounou, que defendeu o penálti de Summerville e permitiu a Ismael Saibari fechar as contas. Marrocos venceu os Países Baixos em Monterrey e está nos oitavos de final do Mundial 2026.
A estrela
- De forma inevitável, Bounou. Apesar de nem sequer ter sido um dos jogadores em destaque ao longo dos 120 minutos, cumprindo sempre que foi chamado a intervir e sem qualquer tipo de responsabilidade no golo sofrido, o guarda-redes do Al Hilal voltou a segurar um país inteiro com as mãos ao defender a grande penalidade de Summerville de pé, com um único movimento, quase como se já soubesse que a bola ia ali parar.
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O joker
- Ismael Saibari, Achraf Hakimi, El Khannouss ou Bouaddi, entre tantos outros, mereciam estar aqui — e só não estão porque existiu Bart Verbruggen. O guarda-redes do Brighton agigantou-se em Monterrey, entre duas defesas brutais ainda na primeira parte, outra junto ao poste que evitou um potencial canto olímpico de Hakimi e uma quarta já no prolongamento, e tornou-se uma das tábuas de salvação de uns Países Baixos que foram contando mais com a sobrevivência do que necessariamente com a inspiração para seguir em frente no Campeonato do Mundo. No fim, porém, nem Verbruggen — e aquele azar no penálti de Soufiane Rahimi, que chegou a defender — chegou.
A sentença
- Marrocos está nos oitavos de final do Mundial 2026 e vai defrontar o Canadá, que eliminou a África do Sul. Os marroquinos repetem assim o feito da última edição, quando ficaram num histórico quarto lugar no Qatar, mas também de 1986, ano em que também conseguiram chegar aos oitavos de final do Campeonato do Mundo — curiosamente, no México, onde esta segunda-feira carimbaram novamente o passaporte. Este ano, porém, têm a possibilidade de juntar uma excelente prestação no Mundial à conquista da CAN (ainda que alcançada de forma administrativa e na sequência da final perdida em campo contra o Senegal).
A mentira
- Os Países Baixos continuam muito longe da equipa que outrora nos fez sonhar. Apesar de ter discutido o apuramento até ao fim e de ter realizado uma boa fase de grupos, a equipa de Ronald Koeman foi quase sempre inferior a Marrocos e raramente merecer garantir a qualificação — marcando até na sequência de uma pausa para hidratação que inverteu todo o sentido do jogo. Com bons intérpretes, um bom treinador e uma boa mistura entre experiência e juventude, pedia-se muito mais aos neerlandeses.