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(A) :: A manipulação da linguagem e o falso progresso

A manipulação da linguagem e o falso progresso

Uma sociedade livre não fabrica cidadãos bem-pensantes. Forma cidadãos capazes de pensar livremente. E pensar livremente começa, muitas vezes, por recusar a tirania das palavras que nos querem impor.

Pedro Afonso
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Nos últimos anos, houve uma enorme polarização na sociedade com vários temas que exigiriam prudência, rigor e um debate sereno, a criarem posições crispadas e tensas. O ambiente político radicalizou-se e a tentação de criar uma visão única do mundo foi posta em prática; ou seja, impôs-se o desejo de controlar o pensamento das massas.

Para impor uma única aceção da realidade, a propaganda política recorre com frequência à linguagem como forma de manipulação. Um dos métodos utilizados é a distorção dos factos, através do recurso a eufemismos. Muitos jovens não se dão conta de que a linguagem pode ser corrompida para dar um aspeto positivo a um conceito ou comportamento eticamente condenável.

Os nazis chamaram “a solução final” ao plano de extermínio dos judeus. Por sua vez, os comunistas chamaram “campos de reeducação social” aos lugares onde encarceravam os dissidentes políticos. A força deste eufemismo está precisamente no seguinte: não nega frontalmente os factos; reveste-os de uma aparência mais suportável. Não muda a coisa em si, mas muda a sua avaliação moral. Aquilo que, nomeado com precisão, suscitaria repulsa, passa a parecer neutro, técnico, inevitável ou até virtuoso.

Hoje em dia, os debates públicos, a imprensa e as redes sociais estão cheios de eufemismos: A “interrupção voluntária da gravidez” substitui frequentemente a palavra aborto, afastando do debate a realidade biológica e moral do ato. A expressão “trabalho sexual” procura conferir estatuto laboral a situações que, na maioria dos casos, envolvem exploração, vulnerabilidade e degradação humana. A “autodeterminação de género” transforma uma questão clínica, antropológica e social complexa numa fórmula jurídica aparentemente indiscutível; como se fosse um direito humano absoluto sem diagnóstico médico.

É evidente que nem todo o eufemismo é manipulação. O problema começa quando a suavização das palavras passa a ser uma estratégia ideológica. Por conseguinte, estas estratégias têm subjacente um desejo totalitário de impor uma doutrina, através de uma linguagem politicamente correta. A linguagem inclusiva promovida pela ideologia de género é um bom exemplo, pois já não procura descrever, mas impedir que se questione. Veja-se o modo como certas expressões entraram no vocabulário público: “pessoa que menstrua” em vez de mulher, “incongruência de género” em vez de disforia de género, “sexo atribuído à nascença” em vez de sexo biológico. Aparentemente, trata-se apenas de incluir. Mas, na verdade, altera-se pela via ideológica o modo como a realidade é nomeada.

Este ambiente tem consequências políticas. Muitos responsáveis públicos, mesmo quando têm dúvidas legítimas, preferem o silêncio. Não por convicção, mas por receio. O medo da censura social, da condenação mediática ou da caricatura pública leva à autocensura. A sociedade deixa de discutir livremente e passa a gerir silêncios, receios e prudências.

Outra característica recorrente da política contemporânea é a obsessão de dividir a sociedade entre vítimas e opressores. A realidade social, que é quase sempre complexa, passa a ser lida através de uma dicotomia rígida: de um lado, a minoria oprimida; do outro, a maioria opressora. A partir daí, promove-se legislação abundante destinada a consagrar novos direitos, muitas vezes apresentados como evidências morais, sem a ponderação necessária sobre os seus efeitos noutras liberdades, noutras instituições e noutros bens sociais.

Claro que as minorias devem ser protegidas contra abusos, discriminações injustas e violência. Essa proteção é uma exigência de qualquer comunidade civilizada. Mas proteger pessoas concretas não implica aceitar todas as formulações ideológicas feitas em seu nome. A compaixão não dispensa a verdade. A justiça não exige a abolição das diferenças. E a igualdade não consiste em tratar como idêntico aquilo que, pela sua natureza, não o é.

Muitos jovens são hoje expostos a discursos que os incentivam a fazer escolhas guiadas pelos desejos, pelas emoções e pelos impulsos do momento, com a promessa de uma libertação plena. Daqui emerge todo um conjunto de ideologias radicais que se opõem à realidade, à base antropológica da família, à estabilidade, defendendo uma nova construção social como sinal de avanço. Mas nem toda a mudança é progresso. Há mudanças que libertam e mudanças que desorientam.

Uma sociedade que altera constantemente os seus critérios morais em nome do progresso corre o risco de já não saber para onde progride. Chesterton formulou este problema com notável lucidez: “o progresso devia significar passarmos a vida a modificar o mundo para o adequar ao nosso ideal; mas o que o progresso significa hoje em dia é estarmos constantemente a alterar esse ideal”.

Por isso, precisamos de fomentar o espírito crítico perante as causas políticas do nosso tempo. Devemos desconfiar das palavras demasiado perfeitas, das expressões que parecem moralmente incontestáveis, dos conceitos que impedem perguntas, dos slogans que substituem argumentos e impõem o silêncio. Devemos perguntar sempre: que realidade está esta palavra a nomear? Que realidade está a esconder? Que custo humano, social ou moral está a ser omitido?

Uma sociedade livre não fabrica cidadãos bem-pensantes. Forma cidadãos capazes de pensar livremente. E pensar livremente começa, muitas vezes, por recusar a tirania das palavras que nos querem impor.