Há poemas maiores do que os livros que os contêm. O Rámáyana, atribuído ao sábio Válmíki e composto algures entre o século V e o século II antes de Cristo, é um deles. Vinte e quatro mil versos em sete cantos: a história do príncipe Ráma, exilado do seu reino por intrigas palacianas, privado da esposa Sitá pelo demónio Rávana, e finalmente redimido, depois de uma guerra épica travada numa ilha que a tradição identifica com o actual Sri Lanka, graças à força conjugada da virtude, da lealdade e de um exército de símios liderado pelo extraordinário Hanumán. É uma história de amor, de dever, de traição e de redenção. É também, para mais de mil milhões de pessoas, muito mais do que isso: é um mapa moral do mundo.
Não espantará, pois, que o Rámáyana seja hoje um dos textos mais lidos, encenados e debatidos do planeta. Na Índia contemporânea, Ráma não é apenas uma figura religiosa, é um símbolo mobilizador de identidade nacional. A inauguração, em 2024, do grande templo de Ayodhyá no local onde a tradição situa o nascimento de Ráma foi um evento de enorme carga política e espiritual, celebrado por uns como restauração histórica e criticado por outros como instrumentalização religiosa. Esta tensão entre o Rámáyana como património espiritual e o Rámáyana como arma cultural é uma das questões mais urgentes da geopolítica asiática contemporânea. Ignorá-la, em Lisboa ou em Bruxelas, é cada vez menos uma opção.
Mas há uma leitura mais serena, e igualmente necessária. Numa época em que o Ocidente redescobre, com alguma ansiedade, que não detém o monopólio da sabedoria literária nem da reflexão ética, o épico de Válmíki oferece uma perspectiva radicalmente diferente sobre conceitos como justiça, sacrifício, exílio e pertença. A figura de Sitá, que alguns lêem como modelo de submissão e outros como símbolo de dignidade inquebrantável, tem gerado uma das conversas feministas mais ricas e menos conhecidas no Ocidente: a da reinterpretação interna, por escritoras indianas, de um texto que sempre foi também seu.
Foi em Coimbra que este diálogo começou, mas foi já no espaço público de Lisboa que se expôs, se confrontou e acabou por se interromper. O que torna isto particularmente relevante para Portugal é que já estivemos nesta conversa, e saímos dela por razões que nos dizem ainda muito sobre nós. Em Coimbra, nas décadas de 1860 e 1870, duas figuras absolutamente distintas e, como se descobriria, irreconciliáveis tentaram fazer exactamente o que a Europa hoje precisa de aprender a fazer, mas sem o conseguirem: levar a sério a literatura do outro.
A primeira foi Guilherme de Vasconcelos Abreu. Nascido em Coimbra em 1842, iniciara o curso de Matemática na universidade da sua cidade quando travou amizade com Francisco Adolfo Coelho e se apaixonou, de forma autodidacta, pelo sânscrito, uma das línguas sagradas da Índia antiga. Em 1869, publicou “Om! — Adoração a Ganeça”, um episódio do Rámáyana que traduziu directamente do sânscrito: um dos primeiros textos traduzidos do sânscrito para o português na história da nossa língua. Era um acto de erudição genuína, quase solitário, numa Europa em que a sanscritologia vivia o seu apogeu. Anos depois, Max Müller editava os Sacred Books of the East, e Paris e Berlim formavam gerações de filólogos orientais. Vasconcelos Abreu seria, mais tarde, o primeiro professor de sânscrito numa instituição de ensino superior em Portugal, eleito para a Academia das Ciências de Lisboa em 1887.
A segunda figura foi Cândido de Figueiredo. Futuro lexicógrafo e um dos maiores filólogos portugueses do seu tempo, era ainda estudante de Direito em Coimbra quando, em 1873, publicou em verso “Morte de Yaginadatta: Episodio do poema epico — O Ramayana”, o primeiro número de uma colecção ambiciosamente intitulada Litteratura da India. O episódio, em que o rei Daxaratha, pai de Ráma, mata acidentalmente o filho de um eremita enquanto caça e tem de enfrentar o lamento dos pais cegos, é de uma beleza austera que o próprio Cândido de Figueiredo soube reconhecer: “Não conhecemos na litteratura indiana, nem talvez em litteratura alguma, episodio mais sentido e mais sublime…” A tradução foi feita em decassílabos portugueses, com evidente cuidado poético, mas a partir do francês, guiada pela versão de Hippolyte Fauche.
E foi exactamente aí que a polémica rebentou.
No final de 1873, Vasconcelos Abreu publicou no Jornal do Commercio uma nota crítica cortante: chamou a Cândido de Figueiredo “dilettante”, acusou-o de “erros palmares” na transcrição de termos indianos e, sobretudo, de “pouca sinceridade” por não identificar o texto de partida — isto é, por não admitir que traduzira do francês e não directamente do sânscrito. A colecção Litteratura da India nunca passou do primeiro número. Ninguém sabe ao certo se foi pela polémica, pela indiferença do público ou por ambas as razões. O que se sabe é que a chama se apagou.
Esta história importa porque mostra como um diálogo cultural pode interromper-se: não por falta de interesse, mas pela soma de temperamentos inconciliáveis, de ambições que se anulam e de colecções que morrem no primeiro volume. O rigor de Vasconcelos Abreu era legítimo; o entusiasmo de Cândido de Figueiredo também o era. O que não era legítimo, e é aqui que reside a lição, foi deixar que a polémica entre os dois valesse mais do que o projecto que partilhavam.
A Europa de hoje está a tentar, com dificuldade crescente, falar com um mundo que já não a aceita como centro. Com a Índia que se afirma potência global, com o Sudeste Asiático que reivindica as suas tradições, com um Sul global que olha para o Ocidente numa mistura de respeito e impaciência. Nesse esforço, o primeiro instrumento não é diplomático nem económico: é cultural. É a capacidade de ler o que o outro escreve — e de o levar suficientemente a sério para o traduzir, comentar, debater.
Cândido de Figueiredo aproxima este episódio de grandes cenas trágicas da literatura ocidental, evocando Príamo diante de Aquiles, Dido na Eneida e Inês perante Afonso no poema de Camões. Tinha razão. Há uma conversa que os grandes épicos do mundo travam entre si. Portugal entrou nessa conversa em 1869 e saiu dela em 1873, por força de uma nota crítica no Jornal do Commercio.
Sair foi mais fácil do que parece. Voltar a entrar é mais urgente do que parece. E é preciso, agora, retomar o fio há muito perdido.