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(A) :: Urge erguer um museu do mar em Portugal

Urge erguer um museu do mar em Portugal

É inconcebível, quase anacrónico, que um país com a nossa história permaneça de costas voltadas para um oceano que lhe pertence.

Paulo Jorge Real
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Reconheço o mérito de locais e instituições que abordam o mar, a biologia marinha e a nossa armada. Não obstante, julgo que o país e o seu património histórico são merecedores de um projeto holístico de maior dimensão, que reflita a importância da nossa localização geográfica, a epopeia dos “descobrimentos” e a relevância do ecossistema atlântico.

Nas últimas semanas, entreguei-me à leitura de algumas obras, como A Rota das Especiarias, de Roger Crowley e A Rota da Seda, de Peter Frankopan.

Esta sinergia de leituras, para além de me permitir compreender de forma mais eloquente a aventura ultramarina da nossa nação, inquietou-me significativamente face à ausência de um edificado que cumpra o dever de transmitir o essencial desta miríade de páginas e desperte os meus concidadãos, adultos, jovens e crianças, para a magnitude do nosso domínio marítimo e para a importância do seu envolvimento em dinâmicas que promovam a economia azul e o aproveitamento exemplar daquela que é a 3ª maior zona económica exclusiva da Europa, correspondente a 97% do nosso território nacional.

Este projeto deve materializar-se com base em três diretrizes centrais: a recuperação de um acervo de bens fundamentais para o enriquecimento da nossa cultura interna, nomeadamente o Atlas Miller, obra concebida propositadamente como estratégia de desinformação geopolítica por parte do rei D. Manuel I, ou, não menos importante, o mapa-múndi de Domingos Teixeira, um planisfério náutico pintado à mão em pergaminho. Este último ilustra a divisão do mundo estabelecida pelo Tratado de Tordesilhas; o desenvolvimento de um inventário íntegro da biodiversidade local, assente no escrutínio das valências e fragilidades de cada um dos elementos estudados, bem como a sua imprescritibilidade para a preservação da região; e a implementação de salas direcionadas para o conhecimento das práticas piscatórias em toda a costa portuguesa, assim como das comunidades envolvidas nessa atividade e a sua relevância na economia local e nacional.

Este projeto deve funcionar como um catalisador do investimento privado e público, contribuindo igualmente para estreitar a ligação das populações das periferias dos grandes centros urbanos e do interior do país ao oceano.

Em estreita colaboração com as organizações certas, nomeadamente o Ministério da Educação, Ciência e Inovação, esta proposta pode revelar-se a pedra angular de um plano mais abrangente que dignifique também a importância dos rios e da respetiva preservação das suas nascentes, cursos e vida aquática em diversas regiões, seja na materialização de polos de observação e estudo, ou na implementação de programas letivos que retirem os nossos jovens do novo mundo digital e os reaproxime da natureza e dos seus benefícios.