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Drag queens, stand-up e português açucarado: o que é o Gongada Drag, que chega a Portugal em julho?

Com tanta maquilhagem como improviso, esta é uma festa de "deboche" e humor e é uma celebração LGBT. Do Brasil chega a Lisboa e ao Porto e vai ter convidados portugueses em palco.

Mariana Carvalho
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“Não tem espetáculo de duas horas mais engraçado do que o nosso”, afirma Bruno Motta, criador, diretor e MC (mestre de cerimónias) do grupo que chega pela primeira vez a Portugal, após o sucesso estrondoso atingido no Brasil, o país de origem. São seis datas em Lisboa e no Porto que, entre 13 e 17 de julho prometem “comédia, arte drag e muitas alfinetadas”, segundo a descrição do evento. O objetivo é “gongar” (que aqui significa zombar ou fazer roast) das divas em cima do palco, do público e de um grupo de “convidadas, convidados e convidades especiais”, entre os quais humoristas e drag queens portugueses ou sediados em Portugal, como Joana Gama, Diogo Faro e Sincera Mente.

Bruno Motta é um dos pioneiros da comédia stand-up no Brasil, onde nasceu, no estado de Minas Gerais. Toda a vida fez teatro e improviso e pertenceu à primeira geração de cómicos que, no início do milénio, se dedicaram ao género humorístico muito popular nos Estados Unidos.

“Interessei-me pela linguagem do stand-up, por esse movimento”, confessa ao Observador, recordando as primeiras manifestações do fenómeno em Portugal, no programa da SIC, Levanta-te e Ri. Na altura, “trabalhei com alguns comediantes portugueses, fiz uns quantos shows em Portugal, com o Hugo Sousa ou o Miguel 7 Estacas, uma geração que depois ficou grande”, afirma.

Abertamente homossexual, aproximou-se do universo drag por influência do marido e trabalhou com a atriz de novelas e drag queen, Nany People, “muito conhecida hoje no Brasil”. “Sempre tive uma vivência LGBT nas boates e o trabalho com drags sempre me interessou”, reconhece, destacando a ligação a uma “arte drag e comédia drag muito ‘debochada’”.

Decidiu juntar duas linguagens, o humor de roast LGBT e o humor da comunidade drag, num espectáculo inédito e que, apesar da curta existência, rapidamente virou fenómeno. O Gongada Drag nasceu em São Paulo, em 2023, mas já percorreu o Brasil de este a oeste e conquista novos públicos na Europa: até à publicação do artigo, dois dos seis espectáculos em Portugal esgotaram (a última data em Lisboa, dia 16, e a segunda no Porto, dia 17 às 21h).

O improviso é o grande trunfo da performance, que permite que nenhuma sessão ao vivo seja igual à anterior. “O show é organizado, tem um modelo, mas não é escrito, garante Motta. “Então, a partir daí, é tudo improvisado”, o que implica alguma interação com o público, que define o ritmo dos artistas em palco. “Num show comum você vai ter risadinha, risada e aplauso. Numa gongada você tem risadinha, risada, aplauso, urro, grito, comemoração e celebração.”

“A comunidade LGBT estava carente de um espetáculo de grande produção e a indústria da comédia também”, recorda o criador. “Então, tornámos-nos rapidamente um fenómeno, tanto nos palcos ao vivo, quanto nas redes [sociais], com os nossos conteúdos.”

Orgulho LGBTQA+ transatlântico

O projeto junta duas drags e um humorista residentes, para além do MC, que introduz os respetivos números artísticos e recusa trasvestir-se, como as colegas. “Admiro muito, mas orgulhosamente não faço”, afirma Motta, “elas às vezes convidam, ‘você não se quer montar?’ E eu digo, ‘gente, isso seria apropriação cultural’, porque eu não sou, não me sinto assim. Isso seria apropriar-me de uma linguagem, então prefiro admirar à distância.”

As companheiras de palco surgem dos quatro cantos do Brasil. De São Paulo, a professora e fã da estética vintage inspirada nos anos 50, Rita von Hunty — nome que, aliás, faz homenagem à diva de Hollywood, Rita Hayworth. Karoline Absinto é carioca e tem um perfil de drag que se enquadra no estilo das caricatas do Rio de Janeiro, cuja performance é centrada no humor e no “deboche” (sinónimo de troça, em português do Brasil).

A terceira cabeça de cartaz, não sendo drag, é um membro ativo da comunidade LGBTQIA+ e também um comediante reconhecido. Natural de Pernambuco, na região Nordeste do país, Júnior Chicó participou no júri do programa Drag Race Brasil, uma adaptação do formato original popularizado por RuPaul, e também foi uma das caras do reality show para comediantes, Se Rir, Já Era (Last One Laughing na versão inglesa, apresentada por Jimmy Carr).

A estes nomes, para já desconhecidos da maioria do público português, juntam-se outros mais familiares — figuras públicas nacionais que intercetam a Gongada Drag pela via do humor e/ou relação com as comunidades drag e queer. Convidar artistas locais é uma praxis habitual do grupo fundado por Bruno Motta, que visa aumentar a cumplicidade entre os humoristas e o público, enquanto promove a “variedade” em cima do palco.

“Entre os comediantes, a gente tem a Joana [Gama], que é uma mulher cis [identifica-se com o sexo biológico e género atribuído à nascença] e bissexual, o Dagú e o Diogo [Faro]”, confirma Motta. “O Pedro Pedroso é panssexual [sente atração por pessoas independente do género ou sexo] — o que é ainda mais confuso. Depois, no campo das drags temos a Sincera Mente, que faz comédia, a Alejandro Beauty e a Excita Lopran, que são brasileiras, mas vivem em Portugal há muito tempo, e a Karvel Kina.”

Joana Gama conversou com o Observador sobre a sua participação no projeto, que, até à data da formalização do convite, desconhecia. A humorista admitiu, em 2023, à revista Activa que “não é heterossexual, mas também não é lésbica” e reconhece a importância de um espetáculo que, apesar de ter “uma missão muito séria”, a veicula de forma humorística e, por isso, adquire “ainda mais força”. Confessa ser “muito ignorante nesta área”, mas próxima do humor extremo que, por vezes, se pratica na comunidade LGBT. “Eu já assisti a concursos de drag em que vi as performers incendiar os fatos umas das outras”, recorda.

“Não acredito que, de bom coração, se diga alguma coisa errada, mas acho que se deve respeitar o tema [e a sensibilidade dos intervenientes] — essa é a graça, gozar de maneira informada. Para isso preciso de ajuda. Quero ser a pior pessoa possível em palco, mas devidamente informada”, admite, referindo-se à prática de roast (ou o tal “deboche”) que é condição necessária nas exibições da Gongada Drag.

Combater o preconceito com humor

Segundo Bruno, o público da Gongada é cada vez mais abrangente, o que, na sua opinião, é um grande marcador de sucesso. “Realmente, é um show feito por pessoas LGBT, mas destina-se a toda a gente”, reconhece o fundador. “E acredito que para os heteros é muito exuberante e apela àquilo a que chamamos de aliados da comunidade. Quanto mais heteros assistirem, melhor.”

Nas palavras de Motta, “todo o mundo é LGBT”, de acordo com a leitura moderna do espetro de sexualidade desenvolvido pelo biólogo e investigador do comportamento sexual Albert Kinsey na década de 1940, afirma. O académico americano estabeleceu uma classificação em seis graus destinada a ordenar as pessoas conforme o seu grau de atração e comportamento sexual face ao mesmo sexo ou ao sexo oposto.

O fenómeno drag desafia as normas e costumes associados à masculinidade e à feminilidade. As performances deste grupo “evidenciam o ridículo” e, através de uma estética exagerada e camp, exploram um sentido de humor aguçado e irreverente. “A gente se diverte muito, muito, morre de rir. Rimos o tempo inteiro”, reconhece Bruno Motta.

Os artistas que vêm agora a Portugal admitem não sentir preconceito e discriminação significativa nas digressões da Gongada. “Por incrível que pareça, nunca observei isso”, reconhece Júnior Chicó. Mas “quando eu levo o meu show a solo a cidades no interior [do Brasil], recebo muitas mensagens de pessoas que não são assumidas e que evitam ir ao teatro, para que a família não desconfie ou alguém do trabalho fique a saber”. O humorista destaca a diferença em relação à realidade de uma cidade grande como São Paulo, onde a liberdade sexual é maior, mas realça que o público da Gongada já é “muito nichado” e que “quem vai desavisado [ao espectáculo] acaba por se surpreender” pela positiva.

Na opinião dos artistas sob a orientação de Bruno Motta, resistir é a única forma de fazer frente à homofobia e, para tal, é necessário incluir eventos como a Gongada Drag nos espaços públicos e acessíveis a toda a gente e não apenas em locais reclusos e, por vezes, estigmatizados, como bares e recintos especificamente LGBT. “Tentamos sempre privilegiar os grandes teatros, os teatros nobres da cidade”, reflete Motta. “Acho que é importante dar visibilidade, acho que a presença e o tamanho da Gongada inspira as pessoas a desenvolver os próprios projetos.”

Em Portugal, os espaços escolhidos foram o Teatro Capitólio, em Lisboa, e o Sá da Bandeira, no Porto — duas das salas mais prestigiadas do catálogo nacional. Apesar disso, os brasileiros de visita não excluem uma passagem pelos bares que exibem performances de drag queens — sendo exemplos disso o Finalmente e o Trumps, na capital, ou o Invictus Café, no Porto.

A promessa da Gongada está lançada: consagrar-se o espectáculo de duas horas mais engraçado de que há memória, ao mesmo tempo que leva a “cultura do Brasil, o lip sync [performance na qual se canta em play-back] e a brincadeira”.

Em contagem decrescente para a estreia na Europa, Karoline Absinto e Júnior Chicó deixam de lado o português açucarado e começam a estudar o homólogo europeu. “A gente chega dia 11, a primeira apresentação é dia 13”, informa Chicó. “Nessa altura, já vou estar fluente no português de Portugal, já vou estar falando diferente.”