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O sobrevivencialista apaixonado por Ciência e o emigrante que sonhava com um exército. Quem eram os líderes do MAL

Testemunhos e interrogatórios do processo revelam como pensavam o agente da PSP e o soldador emigrado na Suíça responsáveis pelo Movimento Armilar Lusitano. Ambos foram acusados de terrorismo.

Leonor Riso
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Inês Correia
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Um dia depois de ter recebido em casa uma impressora 3D, Bruno Gonçalves falhou: uma das peças daquela que seria a sua primeira arma soltou-se. Nem um ano tinha passado desde que este chefe da PSP ao serviço da Polícia Municipal de Lisboa se juntara ao grupo neonazi Movimento Armilar Lusitano (MAL), mas queria mostrar trabalho. Recebeu a impressora em casa a 24 de novembro de 2021 e nesse mesmo dia começou a experimentar o equipamento. No processo em que investigou o grupo, e que o Observador consultou, o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) enumera vários dos trabalhos que Bruno Gonçalves produziu com a impressora: além de munições e peças para armas, também chegou a fazer bonecos para a filha.

Quem os viu foi António (nome fictício), um amigo de Bruno Gonçalves questionado durante a investigação e seu conhecido do Exército. Bruno Gonçalves foi alferes e tenente entre 2003 e 2006 e entrou na PSP em 2008. Segundo Tiago (nome fictício), outro amigo que vivia na Polónia e que também foi investigado — mas que não foi acusado por se concluir que não conhecia os objetivos do MAL —, foi quando se tornou polícia que o braço direito do líder do MAL, atualmente com 47 anos, começou a demonstrar de forma mais clara um posicionamento racista.

No passado dia 17 de junho, o Ministério Público acusou nove pessoas ligadas ao Movimento Armilar Lusitano de 29 crimes. A cinco delas, são imputados crimes de terrorismo. Os seus membros trocaram ideias sobre ataques a Luís Montenegro e a Marcelo Rebelo de Sousa, mas também a outros políticos, associações e pessoas que assumissem posições contrárias aos seus princípios.

https://observador.pt/especiais/grupo-neonazi-tinha-lista-de-indesejaveis-com-montenegro-e-marcelo-e-discutiu-enterro-de-bidoes/

Um apaixonado por Ciências que levava uma pistola para jantar…

Tiago contou como, antes de vir para Portugal, a família do seu amigo polícia passou primeiro por Angola e depois pela África do Sul, países onde perderam tudo. Ao longo dos dois anos em que Tiago viveu em casa de Bruno, notou-lhe dificuldades na organização do dia a dia, mas elogiou-lhe a inteligência e a dedicação à Ciência. Apesar de não ter acabado o curso de Engenharia em Coimbra, Bruno Gonçalves fazia experiências com químicos e armas artesanais, relatou.

Quando iam jantar fora, o polícia levava uma pistola carregada, mais carregadores e gás pimenta. O amigo chegou a comentar que não iam para a guerra e reparou como, depois de entrar para a PSP, Bruno Gonçalves — que se identificava como patriota e nacionalista — gastava muito dinheiro nos seus projetos caseiros. Tiago, que trabalhava num armeiro, recebia vídeos das armas 3D fabricadas por Bruno, que no Exército, trabalhou com explosivos; e, na PSP, passou pelo Departamento de Armas e Explosivos.

"Em 2021, Bruno Carrilho considerava que estava na hora de formarem um exército do Movimento Armilar Lusitano"
Acusação do Ministério Público

Um prepper, ou sobrevivencialista, é uma pessoa que se prepara para possíveis crises ou catástrofes de forma a ser autossuficiente nesses contextos. E tanto Tiago como António, ouvidos durante o inquérito, encaixaram Bruno nesse perfil. Em 2022 e 2023, o agente da PSP e outros membros do MAL enterraram dois bidões cheios de feijão, feijoada, chispalhada e dobrada, entre outros alimentos. E também bebidas alcoólicas como aguardente e bourbon. Os bidões foram enterrados numa zona de terreno da Serra da Arrábida e no Parque Florestal de Monsanto. Quando foram desenterrados pela PJ, em abril deste ano, ambos os recipientes tinham alimentos já fora de prazo, como um pacote de massa fusilli tricolor.

https://observador.pt/2020/03/17/os-preppers-nao-acambarcam-mas-ha-muito-que-se-preparam-para-uma-quarentena-o-que-podemos-aprender/

Aos investigadores, Tiago mencionou, sem grandes detalhes, como Bruno Gonçalves tinha a ideia de viver numa comunidade fechada e autossuficiente, e gastava dinheiro em coletes, capacetes e máscaras. Essa ideia teve até direito a um nome: Projeto Castro.

https://observador.pt/2026/06/20/ameaca-terrorista-ministro-da-administracao-interna-admite-falha-por-primeiro-ministro-nao-ter-sido-avisado/

… e o emigrante que reconheceu excessos contra imigrantes

Também a Bruno Carrilho, que o Ministério Público descreve como o líder do MAL, agradavam as ideias de “uma comunidade de apoio mútuo armado e equipado”, e do sobrevivencialismo. De acordo com o despacho da acusação, foi ele quem fundou o MAL, um “grupo/movimento de extrema-direita, nacionalista, neonazi, fascista, supremacista branco, anti-sistema, aceleracionista, conspiracionista, negacionista, auto-proclamado defensor da soberania nacional, da Pátria-Mãe, da identidade cultural e histórica portuguesa, da língua portuguesa e das Forças de Defesa e Segurança”.

O grupo foi criado já depois de Bruno Carrilho ter estado envolvido noutros movimentos que seguiam a mesma ideologia. Tudo foi feito à distância: desde 2008 que estava emigrado na Suíça, país que respondeu ao início da pandemia de Covid-19 com medidas menos restritivas que Portugal.

Questionado pelos investigadores, Bruno Carrilho recordou a liberdade que sentia no estrangeiro e que o levou a juntar-se a mais pessoas que, como ele, se revoltavam contra as medidas aplicadas pelo Governo português. Para o Ministério Público, a maioria do conteúdo partilhado em vários grupos e páginas do MAL em redes sociais e aplicações como o Facebook, Telegram, Instagram e Signal pretendia aproveitar “o descontentamento e frustração advindos da repentina crise económico-social que existia em Portugal causada pelas diversas restrições impostas para travar a pandemia”.

Bruno Carrilho pretendia até criar um exército do MAL contra o que chamava de Nova Ordem Mundial, uma teoria conspiracionista que atribuía à Organização das Nações Unidas (ONU) intenções como o fim da soberania nacional ou a inserção de microchips em pessoas para as controlar.

Numa conversa entre Bruno Carrilho e o pai, este último referiu-se às munições como “azeitonas” e às armas como "máquinas de fazer azeite"
Acusação do Ministério Público

Apesar de terem sido recolhidas pelo Ministério Público mensagens de teor racista e xenófobo, Bruno Carrilho não foi além de reconhecer alguns excessos no seu discurso e frisou: até ele era imigrante e não era contra toda a imigração. Garantiu que não fazia armas, ao contrário de Bruno Gonçalves e do que indicam as provas recolhidas pelo Ministério Público. A par do agente da PSP, também ele tinha uma impressora 3D e compravam “frequentemente, carregadores e munições pois vendiam, a terceiros, armas que fabricavam em 3D, num kit composto pela arma, por um carregador, que não conseguiam fabricar, e por munições”, lê-se no despacho de acusação de cerca de 700 páginas apresentado pelo Ministério Público.

Numa conversa entre Bruno Carrilho e o pai — que acabou acusado pelos crimes de tráfico e mediação de armas e, também, detenção de arma proibida e crime cometido com arma —, este último referiu-se às munições como “azeitonas” e às armas como “máquinas de fazer azeite”. Contudo, aos investigadores, Bruno Carrilho desvalorizou o armamento 3D; afinal, nos Estados Unidos até se faziam concursos com estas pistolas, afirmou em interrogatório.

Camuflagem, petardos e panfletos: um piquenique na Fonte da Telha

Carlos (nome fictício) não concordava com as medidas tomadas pelo Governo contra a pandemia de Covid-19. Por isso, em 2021, pesquisou na Internet por grupos que partilhassem a mesma opinião e, em setembro, sentou-se a tomar um café com Bruno Gonçalves. Na primeira conversa, este contou-lhe que era polícia municipal e como fabricava armas de fogo que disparavam munições a sério numa impressora 3D.

O n.º 2 do MAL voltou contente do encontro: no seu telemóvel, foi encontrado um texto em que descrevia Carlos, “mais uma aquisição para a equipa da casa”, que tinha mais de 100 quilos e media 1,89m. “Disposição calma, mas não queria ter que me confrontar com ele.”

Semanas depois, Carlos foi parar a um piquenique na zona de mato por cima da Fonte da Telha, na Costa de Caparica, um momento descrito pelo Ministério Público como de formação para os membros do MAL. Contudo, além de Carlos e de Bruno Gonçalves, que era o responsável do grupo pela formação, só ali apareceram mais quatro homens e uma mulher, que fizera a viagem desde o Alentejo.

"É preciso formar o pessoal em várias medidas diferentes, não só operacionais, mas também em termos de atitude. E isso é um trabalho f*****, demora tempo (...)", disse Bruno Gonçalves
Acusação do Ministério Público

O formador, recordou Carlos aos investigadores, trouxera um petardo que se gabou de ter fabricado — e que rebentou mesmo. No piquenique, foram demonstradas aos participantes algumas técnicas de sobrevivência no mato e de camuflagem, que foram reforçadas por Bruno Gonçalves através de panfletos cheios de desenhos explicativos.

O grupo neonazi queria apostar na formação dos seus membros — em primeiros socorros e defesa pessoal, explosivos e armas — e organizou vários eventos, também de Paintball e Airsoft, nesse sentido, descreve o Ministério Público. Contudo, não era fácil juntar muita gente — e a falta de operacionais motivou mesmo uma queixa de um dos membros do MAL. “É preciso formar o pessoal em várias medidas diferentes, não só operacionais, mas também em termos de atitude. E isso é um trabalho f*****, demora tempo (…)”, respondeu Bruno Gonçalves. “Não é garantidamente numa conversa por mensagens, numa plataforma destas, que eu consigo convencer as pessoas disso (…). Eu quero é criar as condições no terreno para o pessoal se chegar à frente.”

Tanto Bruno Gonçalves como Bruno Carrilho encontram-se em prisão preventiva e foram acusados de crimes de terrorismo. Deduzida a acusação do Ministério Público, decorre agora o prazo para os advogados dos arguidos, se assim o entenderem, tentarem evitar que o caso vá a julgamento.