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(A) :: Quem segura a câmara em Artemis III? 

Quem segura a câmara em Artemis III? 

Os protagonistas aparecem na fotografia. Quem decide o futuro da exploração espacial raramente aparece nela.

Mariana Teixeira
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Quando vemos um filme, tendemos a fixar-nos nos protagonistas. Discutimos quem aparece no ecrã. Celebramos ou criticamos as escolhas de elenco. Mas raramente pensamos em quem escreveu o argumento. Em quem financiou a produção. Em quem aprovou o projeto. Ou simplesmente em quem decidiu que aquela história merecia ser contada.

Com a exploração espacial, fazemos exatamente a mesma coisa.

Há exatamente quatro semanas, foram anunciados os protagonistas da missão Artemis III: Randy Bresnik, Luca Parmitano, Frank Rubio e Andre Douglas.

O elenco estava fechado. Quatro homens.

Prevista para 2027, a missão integra o programa Artemis, com o qual a NASA pretende preparar o regresso da humanidade à Lua.

Naturalmente, as críticas foram imediatas. E as manchetes não tardaram a multiplicar-se: “Sem mulheres na Artemis III.” “NASA enfrenta críticas por anunciar uma tripulação exclusivamente masculina.” “Desilusão.” “Indignação.” “Ultraje.”

Era difícil que assim não fosse. Porque essa expectativa não surgiu do nada. Foi a própria NASA que a alimentou durante anos.

Disseram-nos que a Artemis seria diferente. Não só porque marcava o regresso da humanidade à Lua, mas porque prometia que a próxima pegada deixada na sua superfície seria também a de uma mulher. O próprio nome do programa parecia carregar essa promessa: Artemis, a contraparte feminina de Apolo, em homenagem à deusa grega da Lua e protetora das jovens mulheres.

Era muito mais do que uma missão. Era um símbolo.

Para muitas mulheres, essa promessa representava uma mudança. E, para aquelas que cresceram apaixonadas pelo espaço, significava ainda mais. Era a possibilidade de acreditar que, finalmente, a exploração espacial começava a abrir espaço para uma nova geração de protagonistas.

Também senti essa desilusão. Mas o que mais me incomodou foi a narrativa que começou a ganhar força nos dias seguintes.

Como se a ausência de mulheres na Artemis III fosse consequência da falta de mulheres qualificadas. Como se simplesmente ainda não existissem. Como se os dados não dissessem exatamente o contrário.

Dos 37 astronautas atualmente elegíveis para missões da NASA, cerca de 15 são mulheres, aproximadamente 40% do corpo ativo de astronautas.6 E mais: a mais recente classe de astronautas da NASA foi a primeira da história com maioria feminina, com seis mulheres e quatro homens.

Nunca foi uma questão de talento. Nem de competência. E, muito menos, de falta de mulheres.

Foi aí que percebi que a minha frustração vinha de outro lado. Nunca tinha sido apenas sobre aqueles quatro homens.

Isto não significa que a representação deixe de importar. Muito pelo contrário.

Importa porque cria referências. Porque alarga horizontes. Porque permite que uma rapariga olhe para um fato espacial e se imagine dentro dele.

Só que, enquanto discutíamos o elenco, a pergunta mais importante ficava por fazer: quem escrevia o argumento?

Quem está, afinal, por trás da câmara?

A ausência de mulheres na Artemis III não surgiu num vazio. Surgiu num contexto político e institucional em que a diversidade deixou de ter o lugar que durante anos ocupou no discurso da NASA.

Em março de 2025, na sequência de alterações na política federal norte-americana em matéria de diversidade, equidade e inclusão (DEI), a NASA removeu do seu website a referência à promessa de fazer aterrar a primeira mulher na Lua. A agência justificou a alteração afirmando que estava apenas a atualizar a linguagem para refletir a missão central da campanha Artemis: “levar o ser humano de volta à Lua.”

À primeira vista, parece apenas uma mudança de linguagem. Mas quando uma instituição deixa de prometer alguma coisa, essa mudança raramente é apenas de linguagem.

Enquanto os olhos do mundo estavam voltados para a fotografia da próxima missão, discutiam-se, quase sem atenção mediática, as regras que irão moldar a presença humana no espaço nas próximas décadas.

Em Viena decorria a 69.ª sessão do Comité das Nações Unidas para os Usos Pacíficos do Espaço Exterior (COPUOS). Foi nessa sessão que a delegação dos Estados Unidos contestou a inclusão de referências à Agenda 2030 e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável nos relatórios do Comité, argumentando que estas promoviam uma forma de “governação global suave” incompatível com a soberania nacional.

Os protagonistas aparecem na fotografia. Quem decide o futuro da exploração espacial raramente aparece nela.

A pergunta mais importante talvez já não seja se haverá uma mulher na próxima missão à Lua.

É outra: haverá mulheres entre aqueles que decidirão como viveremos, trabalharemos e cooperaremos quando lá chegarmos?

Quem participa nestas negociações? Quem escreve estes documentos? Quem tem lugar à mesa? E, talvez mais importante, quem continua de fora?

As fotografias fazem história. Mas o futuro, esse, começa muito antes de alguém aparecer nelas.

Observador associa-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.