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(A) :: O verão aumentou e está mais perigoso: há uma nova estação do ano, a "estação do perigo", de maio a outubro?

O verão aumentou e está mais perigoso: há uma nova estação do ano, a "estação do perigo", de maio a outubro?

A oitava onda de calor do ano começa esta quinta-feira. Deve ser a mais quente, porque é a terceira consecutiva, pode levar a incêndios e a secas. São os eventos compostos de uma "danger season".

Filomena Martins
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Durante décadas, o verão significou apenas dias mais quentes e mais longos. E férias e praia, claro. Mas para um número crescente de cientistas norte-americanos, significa agora uma outra coisa: calor extremo, incêndios, secas, tempestades e furacões, uma série de fenómenos que se acumulam uns sobre os outros e transformam vários meses, antes e depois do verão, numa espécie de nova estação do ano, a “estação do perigo”.

O conceito, Danger Season, foi criado pela Union of Concerned Scientists (UCS) para descrever o período, entre maio e outubro, em que os Estados Unidos concentram a maior parte destes fenómenos meteorológicos extremos e os impactos que causam, humanos, naturais e económicos. Mas a ideia está a evoluir e já não se trata apenas de identificar a época em que há mais incêndios ou mais ondas de calor. Tenta-se perceber que há vários riscos ao mesmo tempo que se reforçam mutuamente: o calor favorece a seca, a seca aumenta o risco de incêndio, os incêndios agravam a poluição do ar, o calor e o fumo aumentam os problemas de saúde, a falta de chuva reduz as reservas de água e aumenta a pressão sobre a agricultura e a produção de energia. É um ciclo contínuo, os “riscos compostos”.

Ricardo Trigo, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, climatólogo e investigador do Instituto Dom Luiz, não conhece bem o conceito de Danger Season. Mas estuda os compound extrem events. Não são um conceito totalmente novo para a ciência climática. “Há uma forma relativamente recente de olhar para os extremos climáticos chamada ‘compound extreme events'”, explica. “No verão, temos com muita frequência estes eventos compostos: secas, ondas de calor e incêndios florestais. Isso é um evento composto típico.”

A pergunta começa agora a colocar-se também, e cada vez mais, na Europa. E a Península Ibérica é a primeira a sofrer com o cúmulo destes fenómenos. Portugal começa esta quarta-feira a enfrentar uma nova onda de calor, a oitava do ano: na sexta-feira, todo o país estará sob alerta laranja para o calor, nenhum distrito ficará sem noites tropicais, acima dos 20ºC, nem sem dias de torrar, acima dos 30ºC. Certas zonas chegarão aos 42ºC/43ºC.

Aliás, o nosso país passou todos os anos a enfrentar ondas de calor, incêndios rurais, secas prolongadas e até tempestades inéditas: estará também a entrar na sua própria “estação do perigo”, em que o verão abarca o fim da primavera e o início do outono? Os verões estão a tornar-se mais longos, mais quentes e mais perigosos?

https://www.youtube.com/watch?v=2LwHQS_qeLY

Portugal já vive a sua própria “estação do perigo”?

“Cada ano traz novos níveis de perigo”, escreveu Erika Spanger-Siegfried, diretora de Análise Estratégica Climática da UCS, no artigo Danger Season Is Here Again, with Triple the Danger for 2026. A organização vai ainda mais longe: “Já não estamos à beira da crise climática. Estamos totalmente dentro dela.”

Até segunda-feira, 29 de junho deste ano, Portugal já tinha registado sete ondas de calor, tantas como em todo o ano de 2020 e de 2023 e mais do que em 2025 (seis), e prepara-se para o início da oitava a partir desta quinta-feira. E essas ondas de calor já não se limitam ao verão. Desde 2019, o país registou episódios em janeiro, fevereiro, março, abril, maio, setembro, outubro e até dezembro. Em 2026, a primeira onda de calor ocorreu precisamente em fevereiro, depois das tempestades.

A ideia é simples: o verão continua a significar calor, dias longos, férias e praia, mas cada vez mais significa também ondas de calor tórrido, incêndios, secas, problemas de saúde, escassez de água e fenómenos extremos que parecem começar mais cedo e terminar mais tarde. Edward Maibach, diretor do Center for Climate Change Communication da Universidade George Mason, considera que o conceito é útil precisamente porque ajuda a perceber que os riscos estão a deixar de ser excecionais e a tornar-se recorrentes: “Saber que as ‘estações do perigo’ estão a tornar-se mais longas poderá ajudar pessoas, empresas e governos a reconhecerem a necessidade de agir agora para proteger aquilo de que dependem.”

A pergunta começa agora a colocar-se na Europa. Portugal, que todos os anos tem tido mais ondas de calor e mais fenómenos extremos, com impactos na saúde pública, estará também a entrar na sua própria “estação do perigo”? A nova onda de calor que começa esta quarta-feira, a oitava de 2026, é mais um indício disso mesmo?

Os números do IPMA parecem apontar nessa direção. Até segunda-feira, 29 de junho deste ano, Portugal já tinha registado sete ondas de calor, tantas como em todo o ano de 2020 e de 2023 e mais do que em 2025 (seis), e prepara-se para o início da oitava a partir desta quinta-feira. E essas ondas de calor já não se limitam ao verão. Desde 2019, o país registou episódios em janeiro, fevereiro, março, abril, maio, setembro, outubro e até dezembro. Em 2026, a primeira onda de calor ocorreu precisamente em fevereiro, depois das tempestades.

Ricardo Trigo admite que o conceito americano não pode ser simplesmente importado: “Eles têm um conjunto de particularidades que nós não temos e há o risco de misturar alhos com bugalhos.” Mas acrescenta que, no caso português, faz sentido olhar para os riscos em conjunto e não separadamente. “Do ponto de vista dos eventos compostos, devemos olhar para eles de forma conjunta.”

Portugal encaixa na definição de uma Danger Season?

À primeira vista, a resposta deveria ou poderia ser não. Portugal não enfrenta furacões como os Estados Unidos, nem tornados devastadores, nem as gigantescas épocas de incêndios da Califórnia. Mas basta olhar para os últimos anos para perceber que a realidade é mais complexa: Portugal tem ondas de calor cada vez mais frequentes e mais cedo (maio), secas prolongadas, incêndios de grande dimensão (2025 é o ano com mais área ardida), temperaturas noturnas altíssimas (vão estar 27ºC em Lisboa na madrugada de sexta-feira), pressão crescente sobre os recursos hídricos, excesso de mortalidade associada ao calor (1.300 mortes contabilizadas na onda de calor de agosto do ano passado) e, cada vez mais, fenómenos extremos que deixam de acontecer isoladamente.

"Há dez ou quinze anos, quando falávamos destas coisas, não queríamos assustar as pessoas. Queríamos que compreendessem a ciência. Agora, estamos assustados. Estamos aterrorizados com aquilo que já desencadeámos no mundo."
Rachel Cleetus, diretora de políticas da Union of Concerned Scientists

“Nesse contexto, é verdade a afirmação de que temos de alargar a uma época de maior perigo”, considera Ricardo Trigo, o professor e climatólogo do Instituto D. Luiz, exemplificando: “Depois dos incêndios de 2017, acabou-se a ideia de uma época de incêndios restrita a julho, agosto e setembro.”

É precisamente esta acumulação de riscos que está no centro do conceito de Danger Season. A climatóloga Kristy Dahl, da Union of Concerned Scientists, resume a mudança: “As alterações climáticas empurraram muitos destes fenómenos para um novo patamar, muito mais perigoso”. A própria Organização Meteorológica Mundial começou já a usar uma linguagem semelhante. Durante a atual onda de calor europeia (sim, ela ainda continua, agora nos Bálticos, e já outra se aproxima), a porta-voz da organização, Clare Nullis, alertou para os “grandes impactos na saúde humana, nos ecossistemas, na agricultura e na produtividade do trabalho”, sublinhando que, em alguns países, o calor está a ser acompanhado pelo agravamento da seca e pelo aumento do risco de incêndios florestais. Por esta altura, por onde o calor já passou, ficaram trovoadas monstruosas.

Exatamente o tipo de riscos sobrepostos que definem a “estação do perigo”. A diretora de políticas da Union of Concerned Scientists, Rachel Cleetus, admite mesmo que a forma de comunicar as alterações climáticas mudou profundamente: “Há dez ou quinze anos, quando falávamos destas coisas, não queríamos assustar as pessoas. Queríamos que compreendessem a ciência. Agora estamos assustados. Estamos aterrorizados com aquilo que já desencadeámos no mundo.”

A pergunta, por isso, já não é se Portugal tem os mesmos riscos dos Estados Unidos. É se estaremos a assistir ao aparecimento de uma versão mediterrânica da Danger Season.

O nosso verão está a tornar-se mais longo e mais perigoso?

Segundo o IPMA, as ondas de calor podem ocorrer em qualquer altura do ano. Mas o instituto acrescenta um dado relevante: junho é o mês de verão em que as ondas de calor ocorrem com maior frequência em Portugal continental (a que continua a alastrar pela Europa é precisamente de junho, embora nos tenha tocado mais de raspão, só no interior). E é a partir da década de 1990 que se regista uma maior frequência desta realidade.

Em 2025, Portugal registou seis ondas de calor. Este ano de 2026, antes mesmo de julho começar, o país já contabilizava sete. No ano passado foram registadas três das ondas de calor mais marcantes no verão: entre 15 e 20 de junho, de 10 dias; entre 26 de junho e 9 de julho, de 14 dias; e entre 29 de julho e 17 de agosto, de 16 dias.

As grandes ondas de calor portuguesas ajudam a perceber bem a evolução. Mais do que o número de episódios, também a sua duração parece estar a aumentar. Neste ano de 2026, a onda de calor mais longa foi a de abril, teve 14 dias de duração, enquanto os episódios de maio e junho prolongaram-se durante 13 dias. O IPMA destaca ainda os episódios de junho de 1981, julho de 1991, julho e agosto de 2003 e as duas ondas de calor em 2005, uma das quais começou ainda em maio, tal como a deste ano.

Os últimos anos parecem reforçar uma tendência: a de cada vez mais calor e mais episódios extremos. O número de dias em onda de calor também tem vindo a aumentar. Até 23 de junho deste ano, Portugal continental já tinha acumulado 59 dias em onda de calor. O recorde pertence a 2017, com 83 dias, seguido de 2023, com 80 dias, e de 2025, com 74. O verão de 2025 foi o mais quente desde que há registos nacionais, em 1931: a temperatura média atingiu os 23,51ºC, mais 1,55ºC do que o valor normal; a temperatura máxima média chegou aos 30,78ºC, um desvio de +2,09ºC e o valor mais elevado de toda a série de quase um século; a temperatura mínima média atingiu os 16,25ºC, a quarta mais elevada desde 1931.

Em 2025, Portugal registou seis ondas de calor. Este ano de 2026, antes mesmo de julho começar, o país já contabilizava sete. No ano passado foram registadas três das ondas de calor mais marcantes no verão: entre 15 e 20 de junho, de 10 dias; entre 26 de junho e 9 de julho, de 14 dias; e entre 29 de julho e 17 de agosto, de 16 dias, sobretudo no interior norte e centro. Foram ainda registados 33 novos extremos de temperatura máxima e 10 novos extremos de temperatura mínima: a temperatura mais elevada do verão foi observada em Mora, a 29 de junho, com 46,6ºC, um novo extremo absoluto nacional para o mês de junho. No extremo oposto, a temperatura mínima mais baixa do verão foi registada em Carrazeda de Ansiães, a 21 de julho, com 4,7ºC.

O verão de 2025 tornou-se também o mais seco desde 1931: caíram apenas 10,9 milímetros de chuva, 24% do valor normal. Esta evolução observada em Portugal encaixa numa tendência mais ampla: segundo o relatório European State of the Climate 2024, elaborado pelo Copernicus e pela Organização Meteorológica Mundial, a Europa aquece aproximadamente duas vezes mais depressa do que a média global desde a década de 1980. O continente encontra-se atualmente cerca de 2,4ºC acima dos níveis pré-industriais, enquanto o aquecimento médio global ronda os 1,3ºC.

No sudeste da Europa, 43 dos 97 dias compreendidos entre junho e setembro de 2024 foram classificados como dias de onda de calor, a mais longa sequência de calor extremo alguma vez observada naquela região. Ao mesmo tempo, várias zonas do continente registaram números excecionais de noites tropicais (20ºC): algumas áreas da Grécia tiveram mais 55 noites tropicais do que o habitual e partes de Itália mais 50.

Talvez seja por isso que Edward Maibach, diretor do Center for Climate Change Communication da Universidade George Mason, tenha deixado um aviso:”As estações do perigo estão a tornar-se mais longas”. E o verão português de risco também está a alargar-se? “Estamos, claramente”, diz Ricardo Trigo.  “Começamos a ter com muita frequência situações que, há algumas décadas, seriam consideradas excecionais. A semana dos incêndios de Pedrógão foi a semana mais quente de sempre em junho e comparável às semanas mais quentes de julho e agosto dos 70 anos anteriores.”

Entre 26 e 28 de maio, 25 estações meteorológicas bateram ou igualaram os seus anteriores extremos de temperatura máxima para esse mês: só no dia 27 foram 21 estações. Nesse dia, Mora atingiu 40,3ºC, estabelecendo um novo recorde absoluto nacional de temperatura máxima para maio — o anterior máximo, de 40,0ºC, tinha sido registado no Pinhão, em 30 de maio de 1953.

As ondas de calor estão a começar mais cedo e a acabar mais tarde?

A “estação do perigo” americana começa em maio. Em Portugal, maio ainda pertence ao imaginário da primavera. Mas maio de 2026 fez essa fronteira parecer muito mais difusa. O mês até começou frio, e entre 1 e 19 de maio as temperaturas estiveram abaixo do normal. Mas, a partir de dia 20, tudo mudou: segundo o IPMA, uma onda de calor começou no Alentejo e no vale do Tejo e alargou-se depois ao interior norte e centro. Acabou por se tornar o segundo episódio de maio mais longo desde que existem registos comparáveis, com uma duração média de 9,5 dias, apenas atrás de 1964, e o segundo mais intenso, com uma magnitude de 77,3ºC. Em Castelo Branco e Mértola, a duração máxima atingiu 13 dias.

Mas os números tornam-se ainda mais impressionantes quando se olha para os recordes. Entre 26 e 28 de maio, 25 estações meteorológicas bateram ou igualaram os seus anteriores extremos de temperatura máxima para esse mês: só no dia 27 foram 21 estações. Nesse dia, Mora atingiu 40,3ºC, estabelecendo um novo recorde absoluto nacional de temperatura máxima para maio — o anterior máximo, de 40,0ºC, tinha sido registado no Pinhão, em 30 de maio de 1953. Alvega também ultrapassou esse valor, ao atingir 40,1ºC. No interior alentejano, 21 estações registaram 12 dias consecutivos com temperaturas máximas iguais ou superiores a 30ºC. Na Amareleja e em Reguengos houve sete dias consecutivos acima dos 35ºC.

E o calor não se limitou às máximas. Alguns concelhos de Castelo Branco, Portalegre e Faro registaram entre duas e seis noites tropicais ainda antes de começar o verão climatológico. No dia 27 de maio, 16% das estações meteorológicas portuguesas registaram temperaturas mínimas iguais ou superiores a 20ºC.

Nos grandes incêndios de 15 de outubro de 2017, a passagem do furacão Ophelia favoreceu ventos quentes e secos de sul e sudoeste, acelerando a propagação do fogo e contribuindo para a formação de fenómenos de piroconvecção, incluindo nuvens PyroCu. Ou seja, os incêndios não foram apenas um problema de combustível disponível ou de ignições. Foram também consequência de uma combinação rara de condições meteorológicas e atmosféricas.

Tudo isto aconteceu em maio. Já não se questiona se Portugal tem calor fora de época, isso é um facto, a pergunta é saber quando começa agora este “verão de risco” ou a “estação de risco”.

Porque é que o calor, a seca e os incêndios parecem acontecer cada vez mais ao mesmo tempo?

Durante muito tempo, os fenómenos extremos foram estudados e geridos separadamente. Havia os incêndios, havia as secas, havia as ondas de calor. Agora, cada vez mais estudos falam em “riscos compostos” (compound events): situações em que vários fenómenos extremos acontecem em simultâneo, reforçando-se uns aos outros e multiplicando os seus impactos. “Alguns destes fenómenos são amplificados pelos mesmos mecanismos”, explica Ricardo Trigo: “Se há uma onda de calor na primavera, isso ajuda a secar os solos. E quando aparece uma nova onda de calor em junho, as temperaturas podem tornar-se ainda mais elevadas porque já não há água para evaporar. A seguir vem uma super onda de calor, em grande medida porque antes já tinha havido outra que secou os solos.”

A climatóloga Kristy Dahl, da Union of Concerned Scientists, é assumidamente alarmista: “As alterações climáticas empurraram muitos destes fenómenos para um novo patamar, muito mais perigoso.” Uma onda de calor agrava a seca, a seca reduz a humidade dos solos, favorece a propagação dos incêndios e aumenta o stress sobre a vegetação. Depois, os incêndios degradam a qualidade do ar, afetam a saúde e podem até alterar a própria atmosfera. E o calor extremo aumenta simultaneamente o consumo de água e de eletricidade. Nenhum dos fenómenos atua sozinho e juntos são um enorme problema. “Tanto os mecanismos que os provocam, como algumas das consequências aparecem em cascata, de forma amplificada”, diz Ricardo Trigo.

Foi precisamente isso que Portugal viu em outubro de 2017. Num estudo publicado em 2024, os investigadores Cátia Campos, Flávio Tiago Couto, Jean-Baptiste Filippi, Roberta Baggio e Rui Salgado analisaram os grandes incêndios de 15 de outubro de 2017 e mostraram como a passagem do furacão Ophelia favoreceu ventos quentes e secos de sul e sudoeste, acelerando a propagação do fogo e contribuindo para a formação de fenómenos de piroconvecção, incluindo nuvens PyroCu. Ou seja, os incêndios não foram apenas um problema de combustível disponível ou de ignições. Foram também consequência de uma combinação rara de condições meteorológicas e atmosféricas. Os autores concluem que a interação entre fogo e atmosfera pode gerar fenómenos convectivos violentos e tornar os incêndios mais extremos.

Também neste maio de 2026, embora Portugal não estivesse ainda em situação de seca meteorológica, o IPMA registou uma diminuição generalizada da água no solo, sobretudo no interior centro e sul, Alentejo e Algarve. Por causa da precipitação insuficiente, da evapotranspiração elevada devido ao calor por causa das temperaturas muito acima do normal. Porque tudo aconteceu ao mesmo tempo. É precisamente a esta sobreposição de riscos que os cientistas norte-americanos começaram a chamar Danger Season.

Estamos a entrar numa era de secas mais longas e mais severas?

Se há um fenómeno que liga praticamente todas as peças desta “estação do perigo” é a seca. Menos água nos solos significa menos evaporação (não há o que evaporar) e menos capacidade de arrefecimento da superfície. Depois é tudo uma bola de neve (neste caso, de fogo). Os solos aquecem mais depressa, as temperaturas sobem, a vegetação seca, o risco de incêndio aumenta e os recursos hídricos ficam sob pressão. E o ciclo recomeça. “Há aqui um ciclo vicioso”, resume Ricardo Trigo.

"O Mediterrâneo não baixa a temperatura, não volta a valores normais e isso contribui para a ocorrência de fenómenos extremos. Há vários anos que a temperatura do Mediterrâneo está dois ou três graus acima do normal. Antigamente, as ondas de calor marinhas vinham e depois desapareciam. Agora, não. Ficam sempre mais altas."
Ricardo Trigo, professor e climatólogo do Instituto Dom Luiz, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

As projeções para a Península Ibérica são pouco animadoras. Num estudo publicado em 2024, os investigadores M. García-Valdecasas Ojeda, S.R. Gámiz-Fortis, J.J. Rosa-Cánovas, E. Romero-Jiménez, P. Yeste, Y. Castro-Díez e M.J. Esteban-Parra concluíram que a Península Ibérica deverá enfrentar “eventos de seca mais longos e mais severos”. Os autores identificam aumentos substanciais na duração, frequência e severidade das secas em grande parte da Península. E deixam um aviso preocupante”: os resultados sugerem um risco significativo de eventos de megasseca, com duração superior a 15 anos, em muitas áreas da Península Ibérica até ao final do século, no cenário de maiores emissões.”

Há poucas décadas, a palavra megasseca parecia pertencer aos desertos da Austrália ou ao oeste norte-americano. Hoje aparece nestes estudos sobre a Península Ibérica. Ao mesmo tempo, o Mediterrâneo está a transformar-se num dos principais pontos quentes das alterações climáticas. Segundo o relatório European State of the Climate 2024, elaborado pelo Copernicus e pela Organização Meteorológica Mundial, a temperatura média da superfície do Mediterrâneo aumentou cerca de 1,3ºC desde os anos 80, mais do que o dobro da subida média observada nos oceanos globais, de cerca de 0,6ºC.

E lá voltamos nós: águas mais quentes fornecem mais energia à atmosfera, dificultam o arrefecimento noturno, aumentam a humidade disponível e favorecem fenómenos extremos. A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, é definitiva: “As consequências das alterações climáticas são cada vez mais evidentes na Europa.”

“O Mediterrâneo não baixa a temperatura, não volta a valores normais e isso contribui para a ocorrência de fenómenos extremos”, acrescenta Ricardo Trigo. “Há vários anos que a temperatura do Mediterrâneo está dois ou três graus acima do normal”, diz: “Antigamente, as ondas de calor marinhas vinham e depois desapareciam. Agora, não. Ficam sempre mais altas.”

O calor está a tornar-se o fenómeno meteorológico mais perigoso?

Durante décadas, as ondas de calor foram tratadas como um fenómeno meteorológico desagradável, mas secundário. Agora, a Organização Mundial da Saúde fala delas de outra forma: “O calor deixou de ser apenas uma história sobre o tempo. É uma emergência de saúde”. A mudança de linguagem não é um exagero. Segundo a OMS, o calor provocou mais de 200 mil mortes na Europa apenas nos últimos quatro anos. A organização calcula ainda que a mortalidade associada ao calor tenha aumentado cerca de 30% nas últimas duas décadas.

Ana Paula Martins anunciou que todos os hospitais ativaram o nível mais baixo dos planos de contingência e que estão preparados para fazer face ao calor, mas admitiu dificuldades devido à falta de recursos humanos. Enfatizando que o país precisava de ter “o dobro dos profissionais” para constituir as equipas, a governante salientou que “quando o calor aumenta, as descompensações também potencialmente aumentam e as afluências à urgência também aumentam”.

Só desde o início da atual onda de calor europeia que nos apanhou apenas de raspão, a 21 de junho, terão ocorrido mais de 1.300 mortes adicionais relacionadas com as temperaturas extremas. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, deixou um aviso: “Neste momento, 150 milhões de pessoas vivem sob calor extremo, centenas de pessoas morreram, as escolas estão fechadas e as redes elétricas estão a ser postas à prova.” O responsável acrescentou ainda que este tipo de fenómeno ocorria antigamente “uma vez por geração” e agora surge quase todos os anos.

Também os dias de calor extremo se multiplicam. Em 2025 registaram-se 39 dias em que pelo menos uma estação meteorológica observou temperaturas máximas iguais ou superiores a 40ºC. Em 2022 tinham sido 37. Este ano, antes de julho começar, já tinham sido contabilizados cinco dias acima deste limiar.

Segundo dados compilados pela AFP, cerca de 150 milhões de europeus enfrentaram temperaturas superiores a 35ºC e mais de 420 milhões viveram sob temperaturas acima dos 30ºC. Os hospitais franceses começaram a atingir a capacidade máxima, as escolas fecharam nos Países Baixos, eventos culturais e desportivos foram cancelados, na Alemanha derreteram semáforos e o alcatrão das estradas e a Noruega banhou-se em gelo com o ar a chegar aos 38,5ºC.

Em Paris, o chefe do serviço de urgência do Hospital Georges Pompidou, Philippe Juvin, descreveu uma situação “extremamente grave”, com corredores cheios de doentes e pessoas a chegar com temperaturas corporais de 42ºC.

Em Portugal, a preocupação também já chegou ao Governo, com esta nova onda de calor que chega quarta-feira. Em declarações à agência Lusa, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, admitiu que o sistema ÍCARO, do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, aponta para a possibilidade de um impacto na mortalidade. “Quando existem ondas de calor com esta magnitude, naturalmente que o nosso indicador, o ÍCARO, acusa aqui a possibilidade de um impacto na mortalidade.” Por isso, a governante classificou esta nova vaga de calor como “muito, muito preocupante.”

Na manhã desta terça-feira, Ana Paula Martins anunciou que todos os hospitais ativaram o nível mais baixo dos planos de contingência e que estão preparados para fazer face ao calor, mas admitiu dificuldades devido à falta de recursos humanos. Enfatizando que o país precisava de ter “o dobro dos profissionais” para constituir as equipas, a governante salientou que “quando o calor aumenta, as descompensações também potencialmente aumentam e as afluências à urgência também aumentam”.

Estaremos preparados para viver num continente onde o fenómeno meteorológico mais perigoso é também aquele que menos se vê? Esta nova onda de calor que vai afetar Portugal e dará origem a uma onda de calor que se prolongará por oito a 10 dias pode ser um teste.

Porque é que as noites quentes preocupam mais os especialistas do que os 40ºC?

Quando se fala de ondas de calor, a atenção concentra-se quase sempre nos 40ºC diários. Mas os especialistas em saúde olham cada vez mais para outro número: os 20ºC noturnos. É o limiar de uma noite tropical — uma noite em que a temperatura mínima não desce abaixo dos 20ºC. Não é um detalhe meteorológico. “As tais noites tropicais são muito importantes porque não permitem arrefecimento”, explica Miguel Telo de Arriaga, diretor dos Serviços de Prevenção da Doença e Promoção da Saúde da Direção-Geral da Saúde.

Em todo o ano de 2025, registaram-se 104 noites tropicais, o valor mais elevado da série recente. Em 2023 tinham sido contabilizadas 100 e, até ao final de junho de 2026, já tinham ocorrido 32. Algumas regiões de Castelo Branco, Portalegre e Faro registaram entre duas a seis noites tropicais ainda em maio de 2026. No dia 27 de maio, 16% das estações meteorológicas do país marcaram temperaturas mínimas iguais ou superiores a 20ºC

É durante a noite que o corpo deveria recuperar do esforço térmico acumulado durante o dia. Quando isso não acontece, dorme-se pior, aumenta a frequência cardíaca, agravam-se doenças cardiovasculares e respiratórias e aumenta o risco de mortalidade. “Muitas vezes temos alguma compensação noturna porque as temperaturas diminuem e permitem refrescar. Quando isso não acontece, afeta a saúde mental, a perceção de bem-estar, mas também a dimensão fisiológica”, explica o responsável.

O relatório europeu do Copernicus mostra que 2024 registou um número excecionalmente elevado de noites tropicais. Os dados portugueses mostram a mesma tendência. Em todo o ano de 2025 registaram-se 104 noites tropicais, o valor mais elevado da série recente. Em 2023 tinham sido contabilizadas 100 e, até ao final de junho de 2026, já tinham ocorrido 32. Algumas regiões de Castelo Branco, Portalegre e Faro registaram entre duas a seis noites tropicais ainda em maio de 2026. No dia 27 de maio, 16% das estações meteorológicas do país marcaram temperaturas mínimas iguais ou superiores a 20ºC. Na nova onda de calor que agora está a chegar, há dois dias em que nenhuma capital de distrito baixará desses 20ºC. Lisboa não baixará dos 27ºC (na madrugada de quinta) e muitas outras cidades terão noites tórridas (acima dos 25ºC). E o calor noturno manter-se-á por dias.

Estão assim os países do Mediterrâneo. Serão as noites quentes um dos maiores riscos invisíveis das alterações climáticas?

O que dizem os dados sobre mortalidade?

O calor mata de forma discreta. Ao contrário de uma cheia ou de um tornado, raramente deixa imagens de destruição imediata. Mas os seus impactos acumulam-se ao longo dos dias e das noites e acabam por surgir nos hospitais, nas estatísticas de mortalidade e nos indicadores de saúde pública.

É por isso que a Organização Mundial da Saúde considera o calor extremo um dos maiores riscos climáticos para a saúde humana. Em Portugal, a preocupação não é teórica: entre 27 de julho e 15 de agosto de 2025, o país registou 1.331 mortes acima do esperado, segundo dados do sistema de monitorização da mortalidade. O excesso de mortalidade ocorreu em todas as regiões do país, afetou sobretudo pessoas com mais de 75 anos e aconteceu durante a onda de calor de agosto. “O calor funciona quase como um gatilho para exacerbar algumas doenças de base que as pessoas já têm”, explica Miguel Telo de Arriaga, diretor dos Serviços de Prevenção da Doença e Promoção da Saúde da Direção-Geral da Saúde.

É por isso que os médicos falam frequentemente nas tais “mortes silenciosas”. O calor raramente surge como causa direta da morte, mas pode desencadear enfartes, AVC, insuficiência cardíaca, agravamento de doenças respiratórias, desidratação grave e falência renal.

O relatório europeu do Copernicus concluiu que 2024 registou um dos maiores números de dias de stress térmico desde que existem observações e um número excecionalmente elevado de noites tropicais. Em Portugal, os dados do IPMA mostram igualmente uma tendência de aumento das noites quentes e dos dias de calor extremo.

"Nos últimos 30 ou 40 anos, a prática era prestar assistência às pessoas para as proteger do frio. A situação mudou drasticamente." A frase talvez resuma uma das grandes questões que a Europa enfrenta: os países europeus, que passaram décadas a preparar-se para o frio, estarão agora preparados para um futuro cada vez mais quente?

Há regiões portuguesas mais vulneráveis do que outras?

As alterações climáticas não afetam todo o território da mesma forma. “O risco no sul do país é diferente do risco a norte. O risco no interior é diferente do risco no litoral”, lembra Miguel Telo de Arriaga. Os mapas do IPMA mostram isso de forma cada vez mais evidente: o interior do país, o Alentejo e algumas regiões do Algarve registam mais dias acima dos 35ºC, mais dias acima dos 40ºC, menor disponibilidade de água, maior evapotranspiração e maior número de dias de perigo máximo de incêndio. O próprio IPMA identifica o Nordeste Transmontano e o Alentejo como algumas das regiões que mais têm contribuído para o aumento do número de dias em onda de calor.

Mas as cidades enfrentam outro tipo de problema. As chamadas ilhas de calor urbanas fazem com que as temperaturas noturnas permaneçam elevadas, impedindo o arrefecimento dos edifícios e do próprio corpo humano. É precisamente nas cidades que o stress térmico pode atingir valores particularmente elevados. A World Weather Attribution concluiu esta semana que quase metade das cidades europeias bateu ou esteve perto de bater recordes de stress térmico durante a atual onda de calor. Os investigadores alertam que o perigo não está apenas na temperatura máxima, mas na combinação entre calor, humidade, radiação solar e incapacidade de arrefecimento do organismo. Algumas regiões portuguesas enfrentam ainda um problema adicional: a escassez de água.

Segundo o estudo de García-Valdecasas Ojeda e colegas, a Península Ibérica deverá enfrentar secas mais longas, mais frequentes e mais severas, sendo mesmo identificado o tal risco significativo de eventos de megasseca até ao final do século. Tudo isto aponta para uma realidade cada vez mais desigual em Portugal.

O Serviço Nacional de Saúde e a Proteção Civil estão preparados para um verão de riscos sobrepostos?

As ondas de calor deixaram de ser apenas um problema meteorológico e são também um problema de saúde pública, um problema energético, um problema de gestão da água e um problema de proteção civil. A atual onda de calor europeia mostrou-o: hospitais franceses atingiram a capacidade máxima, alertas vermelhos encerraram a maioria das escolas nos Países Baixos, alerta de calor extremo do serviço meteorológico alemão colocou todo o país sob regras estreitas, sem esquecer os eventos culturais e desportivos cancelados e as restrições ao consumo de álcool em alguns eventos para reduzir o risco de problemas médicos.

Barbara Breuer, responsável por uma instituição de solidariedade em Berlim, resumiu a mudança em curso: “Nos últimos 30 ou 40 anos, a prática era prestar assistência às pessoas para as proteger do frio. A situação mudou drasticamente.” A frase talvez resuma uma das grandes questões que a Europa enfrenta: os países europeus, que passaram décadas a preparar-se para o frio, estarão agora preparados para um futuro cada vez mais quente?

Em Portugal, o problema também preocupa. Aliás, para esta quarta-feira, a secretária de Estado da Saúde, a Direção-Geral de Saúde, a Direção Executiva do SNS, o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) e o INEM vão dar uma conferência de imprensa conjunta sobre o Plano de Saúde para as ondas de calor. Além da preocupação com os dias que aí vêm, parece até um trabalho conjunto para uma Danger Season.

Mas estará o país, até mais habituado ao calor, preparado para um verão em que o calor extremo, os incêndios, a seca e os problemas de saúde acontecem ao mesmo tempo?

Precisamos de começar a olhar para o verão de outra forma?

A Organização Mundial da Saúde fala de uma “emergência de saúde”. A Organização Meteorológica Mundial alerta para os impactos simultâneos na saúde, nos ecossistemas, na agricultura e na produtividade. O diretor-geral da OMS lembra que fenómenos que antigamente aconteciam uma vez por geração estão agora a repetir-se quase todos os anos. “O Mediterrâneo em si mesmo está a tornar-se uma das regiões mais vulneráveis às alterações climáticas”, considera Ricardo Trigo.

As noites tropicais multiplicam-se. As ondas de calor tornam-se mais frequentes, mais longas e começam cada vez mais cedo no calendário. As mortes associadas ao calor continuam a aumentar. Portugal ainda não lhe chama Danger Season. Mas todos os anos junta calor extremo, secas, incêndios, mortalidade, pressão sobre os recursos hídricos e stress sobre os serviços de saúde. Riscos que se reforçam mutuamente.

Por isso, talvez a questão já não seja se Portugal tem ou não uma “estação do perigo”, mas sim há quantos anos entrámos nela sem lhe dar um nome. Porque, como resume Ricardo Trigo, “temos de olhar para estes fenómenos de forma conjunta” e perceber que muitos deles surgem hoje “em cascata, de forma amplificada”. O verão continua a existir. Mas o verão de risco parece estar a começar mais cedo, a acabar mais tarde e a tornar-se cada vez mais perigoso.