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Chegou a vez de MAR: "Nunca ouviram uma rapper de Monte Gordo? A verdade sente-se logo"

A cantora e produtora estreou-se com “Cuíca”, um álbum entre o R&B, o rap e a pop, sem medo de expor fragilidades, numa ponte entre Portugal e Espanha. Vai estar no palco do Sumol Summer Fest.

Ricardo Farinha
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De raízes espanholas, criada em Monte Gordo, MAR assume-se orgulhosamente como Cuíca no álbum de estreia que lançou em março. Autora de uma música íntima que percorre a fronteira entre o R&B e o rap — com muitas nuances pelo meio, entre os códigos do trap e uma sensibilidade pop — esta é a história da menina que cresceu cedo, obrigada a enfrentar uma série de adversidades, e que ousou experimentar e falhar para aos 27 anos estar segura de si mesma, convicta da identidade artística vincada há relativamente pouco tempo, quando nos últimos três anos descobriu a importância de escrever em português e como poderia ser a sua própria compositora e produtora.

MAR é uma das vozes frescas da música contemporânea portuguesa, mas também uma das produtoras que têm feito a diferença nos bastidores da indústria. Compôs e produziu, por exemplo, oito faixas do mais recente álbum de Carolina Deslandes, Chorar no Club, editado em 2025. Este ano, a artista é um dos destaques no cartaz do Sumol Summer Fest, que se realiza a 3 e 4 de julho no parque de campismo da Costa da Caparica.

Dos primeiros passos em Monte Gordo à ida para Lisboa em busca do sonho

Filha de pais espanhóis, Mar Sazatornil Gonzalez cresceu em Monte Gordo, a vila algarvia que define muito da sua personalidade e da vida que tem hoje. Apesar do sangue espanhol, a ligação familiar à terra é antiga. Quando Monte Gordo era um sítio de cabanas de pescadores, dunas e pouco mais, a sua bisavó abriu a Pensão Espanhola, anos antes da inauguração do primeiro hotel e de a vila se tornar um destino turístico de verão. A vivência entre os dois lados da fronteira era comum, tendo em conta a proximidade geográfica — Monte Gordo e Ayamonte, a terra espanhola mais próxima, estão a 20 minutos de carro.

Os habitantes de Monte Gordo são popularmente conhecidos como “cuícos”. Acredita-se que a palavra tenha origem na maneira como os vizinhos espanhóis chamavam os pescadores portugueses que zarpavam nas embarcações designadas de caíques. “Os cuícos são uma mistura de muitas coisas: alentejanos, espanhóis e ciganos”, sublinha MAR.

Apresentar-se como Cuíca no título do seu álbum de estreia não estava nos planos, mas uma conversa com o seu companheiro — o também músico Kasha, dos D.A.M.A, que participa no disco, na faixa Livro Aberto — acabou por resultar numa certa revelação. “O Kasha estava a perguntar-me como se chamavam as pessoas de Monte Gordo e achou que Cuíca era uma grande palavra, um grande nome para o projeto. Eu disse que não, não era nada. Aquilo causou-me uma certa rejeição e percebi, logo a seguir, que essa era a razão pela qual tinha de se chamar Cuíca. Porque a palavra tem um certo toque pejorativo. Apesar de o cuíco ser muito orgulhoso, há ali um julgamento, sempre carregámos isso, era utilizado de forma pejorativa pelas pessoas das vilas ao lado.”

https://open.spotify.com/intl-pt/album/0B7EYB8MIEUEKYeUHfkcSz?si=MB-JOPT9SgSirr1v55w1wA

MAR apercebeu-se de que precisava de ressignificar o termo, de lhe retirar quaisquer contornos depreciativos, e assumir-se plenamente como aquilo que é (e sempre foi): uma cuíca de Monte Gordo. A artista descreve uma terra de gente “rija” que leva uma vida “dura”. “Estamos ali a trabalhar o verão todo, para pouco, para nada. A pescar de madrugada… São pessoas que têm mesmo de trabalhar e há ali uma dureza lixada. É um sítio muito pequeno, meio perdido, ali num canto. Até as coisas se terem desenvolvido, estamos a falar mesmo de um sítio meio selvagem, havia muita pancada. Aquilo deu-me outra visão sobre a vida.”

Começou a ajudar no restaurante da família ainda em criança, aos 12 anos estava a servir às mesas durante um verão inteiro. “Não há folgas, é todos os dias de manhã à noite, e o que se faz tem de durar o inverno”, aponta, destacando a sazonalidade típica da região, que provoca uma série de precariedades socioeconómicas. “Só íamos às compras de roupa uma ou duas vezes por ano, porque tínhamos de ir até Faro, era uma verdadeira excursão. A minha mãe também não tinha carro, como muitas outras famílias. Por isso é que continuo a usar os ténis até abrir a sola”, brinca.

Cresceu numa casa onde se falava castelhano, onde se ouvia música espanhola, embora tivesse outras paixões musicais — das divas pop como Britney Spears ao metalcore e screamo, passou por diferentes fases até dar os primeiros passos como cantora. Tinha apenas 11 ou 12 anos quando começou a gravar covers que publicava online — a primeira foi uma versão de um tema de Katy Perry. Pela mesma altura, apaixonou-se pelo universo R&B e hip hop da viragem dos anos 90 para os 2000, com as produções pulsantes de Timbaland, Missy Elliott ou Pharrell Williams. Acabou por se juntar, espontaneamente, a um núcleo local de jovens artistas mais ligados ao hip hop, vários dos quais agrupados numa editora independente. O ilustrador hoje conhecido como Another Angelo — que assinou os grafismos de Cuíca — foi o principal catalisador nesse momento tão seminal.

"Era nova, tomei más decisões em relações, aceitei coisas que não eram boas para mim, repeti padrões que tinha visto em casa. Houve situações em que não tive a maturidade ou a oportunidade de perceber, porque estava em espaços que me confinavam como pessoa, que eram tóxicos. Não tinha como respirar ou crescer. O momento em que me libertei disso foi muito importante.”

“Ele foi a primeira pessoa que chegou ao pé de mim e disse: ‘se queres fazer isto da vida, tens de começar a escrever originais, porque fazer covers não te vai levar a lado nenhum. E tens de sair daqui, tens de ir para Lisboa’. Aquilo mudou a minha vida. Comecei a escrever e nunca mais parei.”

A ideia de ir para Lisboa atrás do sonho da música foi-se intensificando. Monte Gordo era a sua casa e o seu sítio favorito no mundo, um local que sempre romantizou, mas ao mesmo tempo sentia que não se encaixava numa vila tão pequena, que não se identificava com “a mentalidade” que observava à sua volta. “Achava que era uma rapariga da cidade”, conta, contextualizando a sua mudança para Lisboa aos 17 anos. “Caguei nos estudos, a minha mãe ficou branca. Era para ir estudar, à última hora disse que ia fazer um gap year. E continuo a fazê-lo, 10 anos depois. A minha mãe disse-me que, se não ia estudar, não me podia ajudar. Trabalhei, juntei 800 euros e vim para Lisboa. Ninguém me dava trabalho. Ninguém me alugava um quarto. Não tinha idade.” Acabou por regressar a Monte Gordo até completar os 18 anos, momento em que voltou à capital para nunca mais sair, pelo menos por enquanto.

Cantava em inglês, ocasionalmente em castelhano, nas faixas que começou a gravar e a lançar a partir de 2018, uma pop urbana que ia beber ao R&B e ao hip hop. Assinou um contrato com a editora Sony Music e trabalhava com uma produtora, mas as coisas acabaram por não correr da melhor forma. “Assinei um contrato muito cedo. Tinha 19 anos, o que é que eu sabia? Mas aprendi logo o que é que funcionava, o que é que não funcionava, fiquei logo desiludida sobre como é que as coisas eram.”

https://www.youtube.com/watch?v=21jwIrQGpdo

A rapariga de Monte Gordo tinha chegado à capital, mas de repente Lisboa não era suficiente. Passou a ambicionar o mundo, daí escrever e cantar sobretudo em inglês. “Estava-me a conhecer. Também estive muito tempo a fugir de muita coisa. Era nova, tomei más decisões em relações, aceitei coisas que não eram boas para mim, repeti padrões que tinha visto em casa. Houve situações em que não tive a maturidade ou a oportunidade de perceber, porque estava em espaços que me confinavam como pessoa, que eram tóxicos. Não tinha como respirar ou crescer. O momento em que me libertei disso foi muito importante.”

A emancipação artística e a importância do português como língua visceral

2023 foi o ano em que tudo mudou, o ponto de viragem que MAR precisava. Após uma mão cheia de anos a trabalhar com uma produtora e de ter ficado sem um único tema dos que havia gravado para um álbum que nunca chegou a sair, no mesmo momento em que ficou sem a casa onde vivia, um amigo músico amparou-a na sua morada em Porto Brandão, do outro lado do Tejo. Montou um computador com um software onde MAR poderia começar a compor, o que se revelou decisivo para a sua trajetória. “O que me aconteceu foi a prova máxima de que não podia deixar as coisas em mãos alheias. Deixa-me lá tirar a faca das costas, limpá-la e usá-la quando eu precisar, porque não vou andar por aí com ela espetada. Também comprei uma guitarra e comecei a tocar. O meu pai tocava muito e isso também me aproximou dele, pude ir compondo.”

Acabou por se juntar à agência e editora Maktub Art Group, onde arranjou um estúdio próprio e pôde continuar a explorar a sua composição e produção, até hoje. “Em 2023, já estava a tocar todos os dias, numa obsessão. Estava ali sozinha, a sentir coisas e podia simplesmente fazê-las. Foi a maior liberdade que ganhei, mudou a minha vida.”

"Aquilo que torna o que fazemos especial é mesmo só ser verdade — seja qual for a tua. No hip hop encontro muito isso: conta-me lá exatamente aquilo que tu vives, sem merdas. Qual é a tua realidade, ou do teu bairro, ou da tua grande vida? Este álbum tem muito disso. Falei para o meu pai como nunca tinha falado. Abri essa ferida e curei-a. Agora uso a minha música para isso. Se não tiver nada para dizer, nem me obrigo. Isto não é um negócio, é uma necessidade. Se quiser fazer guita, faço outras coisas.”

Auto-didata, particularmente inspirada por Timbaland — também MAR usa o beatbox, que praticava em miúda, para acrescentar camadas e sons de percussão aos instrumentais que produz —, começou a erguer uma obra a partir daquele estúdio, ao mesmo tempo que absorvia cada vez mais música portuguesa, tendo em conta os artistas que a rodeavam, que acabaram por a virar para a língua lusa. “Isso deu-me um propósito, foi a melhor coisa que me aconteceu. Comecei a descobrir coisas mesmo boas que me inspiraram. Ao início estava receosa, não sabia se conseguia usar bem o português, porque é preciso trabalhá-lo para que fique mesmo bonito.”

Como o nome que é seu e que levou para a música, como o Atlântico com que cresceu no Algarve, a voz de MAR é como uma onda que flui em cima do beat, driblando entre rimas com as melodias suaves que lhe saem espontaneamente no microfone. Mais importante do que a forma, porém, é o conteúdo: a letra passou a ter um papel primordial a partir do momento em que começou a escrever em português. “O poema é o mais importante para mim”, assume. Foi essa ligação a uma língua visceral, por oposição ao inglês, que também lhe permitiu construir Cuíca como disco íntimo, onde abre o jogo para expor as suas fragilidades, abordar traumas familiares, cantar amores (e desamores), rimar sobre perseverança ou manifestar a egotrip da “baddie romântica”, como se proclama.

“Após o meu pai falecer/A nossa casa ficou fria/Ficámos nós as duas/Mas sozinha eu me sentia/A minha mãe não tinha condições/É que ela nem sabia/Como curar-se a si, quanto mais à sua cria/Passado um par de anos/Entrou um homem cá em casa/Ela encontrou alguém que preenchesse a nossa sala/Quem diria naquele momento que viria a maltratá-la/Com o passar do tempo e a/Cada garrafa virada/Ele virou tudo do avesso/O ar tão espesso que nem respirava/O primeiro problema era eu/Depois passámos a ser as duas/Apesar da casa ser nossa/Nós é que tínhamos de ir p’a rua”, canta em Menina, um tema particularmente vulnerável em colaboração com Carolina Deslandes, que também relata a sua própria história ao lidar com a separação dos pais num contexto de toxicodependência.

“Se nunca tivesse começado a escrever em português, nunca teria tido a oportunidade de ir até aí”, reflete MAR. “Olho para trás e penso sobre as coisas que escrevia em inglês: eu nem chegava à superfície da verdade. Estava só a fazer algo de que gostava. Queria ser fixe. E depois percebi que aquilo que torna o que fazemos especial é mesmo só ser verdade — seja qual for a tua. No hip hop encontro muito isso: conta-me lá exatamente aquilo que tu vives, sem merdas. Qual é a tua realidade, ou do teu bairro, ou da tua grande vida? Nunca ouviram uma rapper de Monte Gordo? A verdade sente-se logo. Serviu-me muito a nível terapêutico e definitivamente este álbum tem muito disso. Falei para o meu pai como nunca tinha falado. Abri essa ferida e curei-a. Agora uso a minha música para isso. Se não tiver nada para dizer, nem me obrigo. Isto não é um negócio, é uma necessidade. Se quiser fazer guita, faço outras coisas.”

Embora não saiba exatamente como catalogar a música que faz, admite ser “definitivamente urbana”. “É o que me corre nas veias”, afirma. Não houve uma grande intenção em torno do som de Cuíca. MAR deu prioridade à palavra e procurou servir cada tema da melhor maneira, seguindo a intuição. “Nunca me sentei ao computador a pensar: hoje vou fazer um boom bap, um reggae ou um Jersey club. Apenas faço, sinto o que é a verdade, o que é que estou a dizer e isso é que define a minha música. Ao longo dos anos acho que já desenvolvi um som que consigo distinguir… Esta merda é meio estranha, é minha. O meu objetivo sempre foi encontrar a minha linha, mas não sabia que teria de ser eu a criá-la. Hoje, mais crescidinha, posso dizer que já a encontrei e que a vou continuar a desenvolver.” Em Atira-te a Mim, resgata a emblemática Atira’tó Mar, dos Iris, conterrâneos do sotavento algarvio, para uma faixa enamorada de contornos sedutores.

“Estou aqui para servir o teu universo e perceber como é que posso levar o meu para enriquecer o que estamos a fazer. Não quero fazer beats para depois fazeres o que quiseres com aquilo. Para mim isto é muito sagrado: quando falo em colaborar é mesmo colaborar. Para mim é das coisas mais íntimas que se podem fazer. Faço beats por diversão, tenho 300 mil no computador, mas o que amo mesmo é ver algo nascer."

Como forma de ligar ainda mais Cuíca às suas raízes, gravou todos os videoclipes do álbum em Monte Gordo, nas ruas onde cresceu, na bancada do complexo desportivo local ou diante das paredes de azulejos da vila. “Tentei fazer um desenho do que é crescer ali e também queria imortalizar minimamente a terra, porque daqui a uns anos já não estará assim. Muitas das fachadas onde gravei irão desaparecer, tenho a certeza. O que é muito triste, perder essa identidade. Não estou a ver os filhos dos pescadores a continuarem ali: os empreendedores chegam, dão-te dois apartamentos, tu precisas do dinheiro para a tua família, então vendes as casinhas. E depois são só prédios, nada a ver com nada.”

MAR pretendeu também, através deste primeiro disco, reforçar o orgulho local, “levantar a bandeira” e promover a “união”. “Muitas vezes a malta mais ambiciosa de lá quer bazar, mas esquece-se de onde vem e porquê. Acho que é bonito saber porque fazemos o que fazemos, de onde é que viemos e o impacto e a influência que isso tem na nossa vida. Felizmente, tive a oportunidade de voltar a estar consciente disso.”

O sonho da internacionalização e uma fronteira ibérica de 1200 quilómetros por explorar

No final de março, duas semanas após ter lançado o álbum, MAR apresentou-se na célebre Sala Apolo, em Barcelona. Foi convidada para fazer o concerto após os programadores do espaço terem visto uma performance sua no festival MIL, em Lisboa, mas também é revelador do interesse e do potencial da artista, que sempre sonhou trilhar uma carreira internacional.

Hoje, mais do que tudo, ambiciona fazê-lo em português. “Sinto que é possível, estamos mais perto do que alguma vez estivemos. Temos cada vez mais artistas que se podem defender bem em qualquer palco internacional.” Ao mesmo tempo, há uma vontade criativa de explorar o castelhano que tem sido doseada com cuidado. “Tenho algumas músicas guardadas feitas em espanhol e abri o concerto em Barcelona com uma. Musicalmente vai acontecer, porque quero alcançar outras coisas, é um mercado maior, mas o sonho mesmo seria fazê-lo em português. Se os espanhóis conseguem exportar a música deles…”

https://www.youtube.com/watch?v=bIquf9wznOI

MAR aponta para o facto de ser uma artista verdadeiramente ibérica, nascida e criada em Portugal, de sangue e cultura espanhola. “Tenho a vontade de representar isto, que também é de onde venho. Há toda uma costela, toda uma linha na fronteira que une estes dois países, muitas terras em que se vive uma realidade diferente, em que há essa ligação entre um lado e o outro, de Monte Gordo até ao norte. Temos essa vivência comum, há uma troca constante e seria épico explorá-la. Isso apaixona-me.”

Ao mesmo tempo, pretende continuar o seu trabalho enquanto compositora e produtora para outros artistas, estabelecendo colaborações genuínas e envolventes. “Estou aqui para servir o teu universo e perceber como é que posso levar o meu para enriquecer o que estamos a fazer. Não quero fazer beats para depois fazeres o que quiseres com aquilo. Para mim isto é muito sagrado: quando falo em colaborar é mesmo colaborar. Para mim é das coisas mais íntimas que se podem fazer. Faço beats por diversão, tenho 300 mil no computador, mas o que amo mesmo é ver algo nascer. Alguém contar-me uma história real e eu perceber como a posso servir.”