A cerca de 30 mil pés de altitude, algures sobre o Mar das Caraíbas, os jogadores da seleção canadiana ajoelham-se nos bancos do avião e inclinam-se sobre os encostos de cabeça, enquanto olham para Joel Waterman. Naquele momento, Joel não é um defesa-central, mas sim o narrador de um jogo de cartas que se tornou a cola da seleção. Mas o “Máfia” não se joga apenas nas nuvens: invadiu por completo os bastidores da equipa.
Como explicou o avançado Theo Bair, o impacto do jogo é total: “Toda a gente na seleção nacional já jogou pelo menos uma vez”, citou o The Athletic. Para este grupo, o descanso é importante, mas fortalecer os laços é prioritário, como admitiu Waterman. “É algo que adoramos fazer para nos aproximar”. Curiosamente, este passatempo não é exclusivo dos canadianos: na seleção portuguesa, os jogadores também partilham o hábito de jogar uma versão idêntica nas horas vagas, conhecida como a “Aldeia” ou o “Lobo” — que por vezes leva a discussões intensas. “Nós ficamos [chateados uns com os outros], mas o objetivo do lobo é discutir. É mentir”, explicou Gonçalo Ramos no podcast Watch.tm.
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Os ingleses também optam pela mesma versão dos portugueses. “Jogamos ao ‘Lobo’ um bocado. A coisa aquece”, confessou o jogador Dan Burn ao Telegraph.
A dinâmica do jogo é simples, mas intensa. O narrador distribui cartas secretas. Quem receber um determinado naipe assume o papel de “máfia” e trabalha em segredo para eliminar os “civis” (os restantes jogadores). No baralho há também um rei e uma dama, que funcionam como o “médico” (que pode salvar alguém) e o “detetive” (que tenta adivinhar quem são os mafiosos).
Quando o narrador dá a ordem para “dormir”, todos fecham os olhos. A máfia acorda em silêncio e escolhe uma vítima para “matar”. De seguida, o detetive tenta identificar um suspeito e o médico escolhe alguém para proteger. Na fase seguinte, todos abrem os olhos e começa a discussão sobre a identidade da máfia.
O guarda-redes canadiano Dayne St. Clair explicou que o objetivo é sempre ganhar, mesmo sem saber em que equipa estão. “Quando jogas o suficiente, os rapazes começam a votar para expulsar os próprios amigos. É um jogo de convencer toda a gente, na verdade”.
Este jogo foi introduzido na seleção pelo defesa Kyle Hiebert e pelo extremo Liam Millar durante a Copa América de 2024, numa altura em que as noites livres em Kansas City deixavam muitas horas mortas após o jantar. No início, as partidas juntavam no máximo oito atletas, mas o barulho das discussões e as gargalhadas começaram a ecoar pelos corredores do hotel, atraindo o resto do grupo. Como recorda Jonathan David: “Não éramos tantos como agora. (…) Fomos crescendo”.
Desde a chegada do selecionador Jesse Marsch, o jogo passou a ser uma tradição obrigatória. Richie Laryea ilustrou bem a obsessão da equipa: “Jogamos depois do jantar e nas noites em que não temos jogo no dia seguinte. Olhas para o telemóvel e é quase meia-noite e ainda estamos a jogar“. Para além de servir como entretenimento, o “Máfia” acabou com os habituais subgrupos no balneário, permitindo que os jovens recém-chegados se integrem rapidamente. Jonathan Osorio destacou o lado terapêutico da atividade: “Estás a jogar Máfia, (…) estás a viver o momento”.
Jonathan David, avançado da Juventus, é um dos jogadores mais temidos na mesa devido à sua postura fria e imperturbável. “Máfia é um jogo que pode correr a teu favor ou contra ti”, analisou o avançado. “Às vezes as pessoas querem eliminar-me só porque sim. Porque é melhor tirar-me dali. É difícil ler-me, por isso é difícil confiarem em mim e tiram-me do jogo, mesmo que eu seja apenas um civil”. Liam Millar confirma a fama do colega: “Ele é eliminado logo no início, por aí percebe-se que é um dos melhores jogadores”.

Outro dos grandes destaques é Richie Laryea, conhecido pela sua capacidade quase infalível como detetive. A sua eficácia é tão alta que Millar chegou a brincar: “Já ouvi algumas acusações de batota. Simplesmente não é possível ser assim tão bom.” Laryea, com humor, defende-se: “Eles não gostam de perder. Eu sou melhor civil do que máfia. Sou morto sempre que sou máfia. Quando minto, deixo transparecer uma vibração. Sou um gajo honesto, presumo”. Já Dayne St. Clair tenta controlar os seus próprios tiques faciais para não ser descoberto: “Tento jogar de forma diferente porque as pessoas diziam: ‘Ah, tu costumas sorrir quando jogas Máfia'”.

Por vezes, Liam Millar assume o papel de narrador principal, criando dinâmicas teatrais, como contou Theo Bair. “Agora o Liam cria uma história entre as rondas, do género ‘isto aconteceu em Brampton’, e torna-se muito interativo. Estás a rir-te antes de abrires os olhos”. Esta responsabilidade ajudou Millar a perder a timidez e a ganhar voz dentro do grupo.

No final do dia, como resume Laryea, o segredo do sucesso do Canadá no relvado passa por aqui: “Jogos como o Máfia tornam o que fazemos em campo mais fácil porque crias uma ligação”. Esta união refletiu-se na maneira como se juntaram em torno uns dos outros após a lesão na perna de Ismaël Koné contra o Qatar.
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