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(A) :: Entre movimentos de bases e os "suspeitos do costume", críticas internas a Sánchez sobem de tom — mas não quebram "clube de fãs"

Entre movimentos de bases e os "suspeitos do costume", críticas internas a Sánchez sobem de tom — mas não quebram "clube de fãs"

Vozes de peso, mas isoladas, e movimentos de militantes exigem a Sánchez uma transição de poder dentro do PSOE. Desorganizadas e sem líderes, não desafiam o apoio das estruturas internas do partido.

Madalena Moreira
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A reunião estava marcada para quarta-feira, dia 3 de junho, num hotel da Avenida de América em Madrid. Contudo, chegado o dia, a adesão superior ao esperado obrigou a que o encontro se realizasse na sede da UGT, alguns edifícios ao lado. No local, reuniram-se cerca de uma centena de militantes e antigos dirigentes do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), com algo mais em comum além da filiação socialista: todos consideram que o Governo de Pedro Sánchez se tornou insustentável e que é necessária, por isso, uma “transição de poder ordeira”.

Em causa está o comboio de acusações e condenações contra vários membros da esfera próxima do primeiro-ministro espanhol: a mulher, Begoña Gómez, o irmão, David Sánchez, e o antigo primeiro-ministro e mentor, José Luis Zapatero, são alvo de investigações e o seu ex-ministro, José Luis Ábalos, e o seu assessor Koldo Garcia foram, na semana passada, condenados a 24 e 19 anos de prisão, respetivamente, por corrupção em contratos públicos na compra de máscaras na pandemia.

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Apesar de o número de casos já ter ultrapassado a dezena e da pressão que se faz sentir para abdicar do cargo, Sánchez continua a recusar ceder e joga ao ataque. “Eles estão a tentar criar uma ideia de corrupção generalizada, que não existe”, defendeu o chefe do Executivo na passada quarta-feira, perante o Parlamento, em que acusou a oposição conservadora de uma “campanha de perseguição e destruição”.

O tema continuou a dominar os dias seguintes — no sábado, o Comité Federal do partido reuniu-se, mas recusou avançar com as exigidas eleições internas antecipadas. O silêncio do órgão máximo do partido entre congressos motivou críticas quer à direita, quer à esquerda. “O rei vai nu e parece que muito poucas pessoas dentro do PSOE estão dispostas a a dizê-lo”, criticou o porta-voz do Podemos, Pablo Fernández. As vozes dissidentes, tal como aponta Fernández, são “poucas”, mas as suas limitações são ainda maiores: desorganizados e sem uma liderança, os opositores não se apresentam como uma alternativa clara.

"Não se trata de negar os sucessos ou apagar esta era. Trata-se de reconhecer que o seu ciclo político chegou ao fim e que o PSOE não pode entrar em eleições transformado numa defesa pessoal de um líder. Um partido histórico não pode ser reduzido à sobrevivência de um único líder. Sánchez pode prestar um último serviço importante ao PSOE: facilitar uma transição ordeira.”
Carta enviada pelo movimento ReActiva aos militantes

ReActiva. O “movimento de bases” que atraiu dezenas de dirigentes socialistas

“Não se trata de negar os sucessos ou apagar esta era. Trata-se de reconhecer que o seu ciclo político chegou ao fim e que o PSOE não pode entrar em eleições transformado numa defesa pessoal de um líder. Um partido histórico não pode ser reduzido à sobrevivência de um único líder. Sánchez pode prestar um último serviço importante ao PSOE: facilitar uma transição ordeira”. Estas palavras são o resultado do encontro do dia 3 de junho, em Madrid, e ficaram plasmadas numa carta enviada aos militantes socialistas, citada pelo El Mundo.

Nas últimas semanas, o movimento ganhou um nome: ReActiva. “Somos um movimento de bases; a maior parte de nós não é dirigente partidário nem trabalha na política, e isso dá-nos a liberdade de não sermos obrigados a ouvir a opinião dos líderes do partido: a situação é insustentável”, argumentou uma das porta-voz e fundadoras do movimento, a bióloga Laura López Mendizábal, ao El País. O verdadeiro peso do movimento está, contudo, nas dezenas de dirigentes do PSOE que se dirigiram à sede da UGT em Madrid ou assistiram à reunião por videochamada a partir de outras regiões — cerca de uma centena de pessoas, segundo fontes citadas pela imprensa espanhola, que preferiram manter o anonimato.

Apesar de ser o primeiro movimento organizado de oposição interna, o ReActiva é um herdeiro político da plataforma Socialdemocrácia21, criada em janeiro deste ano por Jordi Sevilla, ex-ministo da primeira administração de Zapatero. Sevilla defendia um reposicionamento do PSOE ao centro e o diálogo com o Partido Popular (PP) em detrimento das forças de esquerda, que agora apoiam o Executivo, e procurou apoio junto dos jovens e das vozes mais críticas. Contudo, este movimento acabou diluído no que agora é o ReActiva, numa tentativa de unificar a oposição.

Os porta-vozes do movimento sublinham, uma e outra vez, o facto de o ReActiva procurar ser um movimento “horizontal”, sem uma liderança, mas disseminado por todo o país. Esta definição serve também para escapar às acusações do Governo de que as críticas são sempre protagonizadas pelos “suspeitos dos costume” — antigos dirigentes socialistas muito vocais nas suas críticas a Sánchez. “Isso simplesmente não é verdade. Todos os membros são bem-vindos”, garantiu Aritz Durán, um dos porta-vozes ao programa de rádio La mañana de Andalucía.

Não quer isso dizer que estes dissidentes não sejam igualmente acutilantes nas suas críticas ao presidente do Governo. “Pedro Sánchez está fechado no seu bunker e não vai sair. [Ele e os seus líderes mais próximos] não interagem com a sociedade, não sabem o que as pessoas comuns pensam, nem sequer sabem o que pensa a base”, criticou Paco Castañares, membro da liderança socialista na Extremadura, no programa de rádio Espejo Público.

Foi com esta ideia em mente que, na passada quinta-feira, o grupo assinou uma carta dirigida aos membros do Comité Federal, dois dias antes da reunião. “Enfrentamos uma decisão inevitável: ou agimos decisivamente para restaurar a credibilidade do socialismo democrático, ou o silêncio será interpretado pelo público como cumplicidade política”, lia-se no documento.

Os “suspeitos do costume” contra o “clube de fãs de Pedro Sánchez”

Emiliano García-Page. É este o nome mais sonante dos “suspeitos do costume”. O presidente da região de Castilha-La Mancha é um dos maiores críticos internos de Sánchez e fez questão de vincar a sua oposição durante a reunião do Comité Federal, no passado sábado. “Acho que há uma falta de autocríticas, digo isso há muitos anos”, afirmou García-Page durante o seu discurso, segundo áudios obtidos pelo El País.

“Não culpo ninguém pela corrupção, exceto os próprios corruptos, eles são os únicos responsáveis. Mas acho bastante normal que as pessoas nos responsabilizam, seja por não termos evitado, seja por não termos impedido, ou pelo menos por cumplicidade”, elaborou. Os estudos de opinião confirmam a leitura do líder regional: 32% dos inquiridos que recusa votar novamente no PSOE aponta como causa “a desconfiança relativa às informações em torno do gabinete do primeiro-ministro”.

As críticas de García-Page são antigas. Contudo, desta vez terão sido recebidas com alguma abertura não apenas entre os críticos e opositores, mas entre uma base mais alargada, que vê no acumular de casos uma situação mais “complicada”. “A preocupação preenche as fileiras do PSOE”: “todos no PSOE continuam apreensivos“, escreve o jornal El País. “O Governo está focado na narrativa, na mensagem, e negligenciou o trabalho concreto”, confidenciou por sua vez um líder com conhecimento do funcionamento interno do partido ao El Mundo.

Ainda assim, todas estas reações aconteceram apenas à porta fechada. No final da reunião, o Comité Federal recusou avançar com uma corrida interna e bloquear uma recandidatura de Sánchez, tal como pedido pela oposição e o Governo celebrou. “Esta semana correu bem para nós. No meio do ruído, o público precisava de ouvir o que o primeiro-ministro tinha para dizer”, sintetizou uma fonte oficial do Executivo ao El Mundo, referindo-se às intervenções perante o Congresso na quarta-feira e perante o Partido, no sábado.

Face ao fim anticlimático da reunião, impõe-se uma questão: como pode a oposição argumentar que o “cansaço” e a insatisfação são “generalizados”, mas não conseguir concretizar opções de mudança? Paco Castañares, do ReActiva, argumenta que a justificação está no facto de a liderança socialista ser feita “à imagem do seu líder e ser um clube de fãs de Pedro Sánchez”.

Esfera de apoio a Sanchéz mantém-se firme e oposição não tem “alternativa convincente”

“Sánchez devia ter sido mais claro e incisivo e apresentado propostas”, “Sánchez perdeu a oportunidade de explicar as suas medidas anti-corrupção”, “Continuamos a exigir não apenas explicações e ações, mas o cumprimento dos compromissos”, “Somos leais, mas não vamos fingir que não está a acontecer nada”, “O PSOE não está em posição de dar lições quando se tornou um fardo para o Governo progressista”. Foi com esta lista de críticas que os muitos partidos que apoiam o Governo de minoria espanhol — Sumar e os partidos regionais ERC, Junts, EH Bildu, PNV, BNG e Coalición Canaria — reagiram à intervenção de Pedro Sánchez no Parlamento.

Apesar da insatificação, nenhum dos partidos aceita alinhar com o PP e com o Vox numa moção de censura a Sánchez, que faria cair o Governo e forçar eleições antecipadas. O sentimento é semelhante ao que se faz sentir dentro do PSOE: as palavras críticas demoram em transformar-se em ações contundentes contra o Executivo. A justificação para a inação dos parceiros de coligação pode ser explicada com as sondagens, que apontam que eleições antecipadas não provocariam apenas a queda do PSOE, mas dos partidos à esquerda. Ora, se, para os socialistas, isso pode significar perder o controlo da Moncloa, para os partidos mais pequenos, isso pode significar mesmo a saída do Congresso — um risco que não parecem estar dispostos a correr.

Já a justificação para a inação interna está no facto de Sánchez se ter rodeado pelos seus aliados mais próximos, blindado-o a críticas. É o caso de María Jesús Montero, número dois do PSOE e líder regional da Andaluzia, que, durante a reunião do Comité, respondeu diretamente às críticas de Emiliano García-Page, insistindo na narrativa oficial: os socialistas estão a ser alvo de um ataque organizado da “direita, da imprensa da extrema-direita e, às vezes, do poder judicial”.

Terminado o encontro, os limites impostos pela Moncloa fircaram bem claros. E “ninguém [os] quis ultrapassar”, escreve o El País. “Ninguém esperava [outra decisão]. É surpreendente que tenha ficado demonstrado, mais uma vez, a inexistência de um fórum interno onde os socialistas possam abordar diretamente os problemas que enfrentam”, continua a editora de política do jornal espanhol num espaço de análise.

https://observador.pt/2026/06/23/caso-koldo-sanchez-deve-assumir-responsabilidade-politica-e-convocar-eleicoes-defende-felipe-gonzalez/

Existe, ainda assim, outro motivo para a oposição interna não conseguir furar a blindagem do “grupo de fãs” de Sánchez: estas vozes não estão organizadas ou unidas em torno de um único movimento, com uma liderança clara. O jornal da Catalunha Diari ARA, dividia, no início do mês, a oposição a Sánchez em vários “centros de poder”, que não são mais que nomes isolados com alguns apoiantes: Emiliano García-Page, mas também Felipe González, antigo primeiro-ministro e outro dos “suspeitos do costume“, a autarca de Palencia, Mirim Andrés, cuja voz também se fez ouvir na reunião do Comité e o líder socialista em Castilha e Leão, Carlos Martínez.

"Todos os membros são bem-vindos a este movimento, incluindo García Page e Felipe González, mas é verdadeiramente um movimento de base."
Aritz Durán, um dos porta-voz do ReActiva

O jornal salienta ainda o grupo “Hacer Más PSOE” que emergiu na Andaluzia depois das eleições regionais de maio deste ano, onde o PSOE obteve o pior resultado de sempre. A estes juntou-se, nas últimas semanas, o emergente ReActiva. Apesar das limitações na sua ação, os porta-vozes recusam diretamente colocar um dos nomes anteriormente mencionados na dianteira do grupo, insistindo num perfil diferente para o movimento. “Todos os membros são bem-vindos a este movimento, incluindo García Page e Felipe González, mas é verdadeiramente um movimento de base” afirmou o porta-voz Aritz Durán.

Face à emergência de vozes descontentes, dentro e fora do partido, a queda de Pedro Sánchez está, ainda assim, longe de ser iminente, argumenta Natalia Hidalgo Martínez, analista espanhola e colunista do think tank CEPA, num artigo de análise. “A sua margem de erro está a diminuir e outro escândalo de corrupção pode revelar-se fatal. Mas enquanto a pressão aumenta para o primeiro-ministro convocar eleições, a oposição ainda não demonstrou que pode assegurar uma alternativa de governo convincente”, destaca a especialista.