Foi onde tudo começou e o primeiro passo que levou à invasão total em 2022. Em fevereiro de 2014, as tropas russas entraram na Crimeia e ocuparam-na. Nunca mais de lá saíram. A Rússia anexou de facto a região e controla-a desde essa altura. É tida como a “joia da coroa” dos objetivos expansionistas de Vladimir Putin, que nunca escondeu que sempre viu a região como russa. A Ucrânia nunca desistiu de recuperar o território que vê como seu e que ganhou um especial simbolismo — e os esforços parecem agora estar a dar resultado.
Os últimos dias têm sido caóticos na Crimeia. Através de ataques sucessivos com drones, a Ucrânia tem criado vários constrangimentos no quotidiano de vários habitantes da península. Há relatos de falta de combustível, água e eletricidade. Como resultado, as autoridades pró-russas acionaram o estado de emergência e milhares de pessoas estão a abandonar o território. O objetivo é claro: como é uma península, as tropas ucranianas querem isolá-la da Rússia. Aproveitando o bom momento na linha da frente e no moral, Kiev tem conseguido fazer isso. E os alarmes começaram a soar no Kremlin.
Este domingo, numa entrevista, o Presidente russo admitiu que a Crimeia atravessa uma situação de escassez de combustível, existindo “reservas limitadas” para “poucos dias”. Vladimir Putin garantiu que as “necessidades” da península serão tidas em consideração: “Aumentaremos o abastecimento tanto por terra como por mar”. No entanto, o chefe de Estado nunca disse como o ia fazer. É que não é só a Crimeia que está nesta situação: grandes partes da Rússia enfrentam o mesmo problema, fruto dos ataques ucranianos às refinarias petrolíferas russas.

A Ucrânia não vai desistir e está mesmo a intensificar os ataques à Crimeia. Ainda esta segunda-feira, segundo a agência de notícias RIA, os alertas de drones estiveram ativos durante mais de onze horas. No domingo, as tropas ucranianas atacaram uma ponte na região. O ministro da Defesa ucraniano, Mykhailo Fedorov, tem um objetivo em mente: “Isolar com drones” a Crimeia e até transformá-la “numa ilha”. Um objetivo ambicioso, mas que seria um golpe para Vladimir Putin.
Tornar a Crimeia uma “ilha”. O que pretende a Ucrânia?
Os ataques na Crimeia intensificaram-se há algumas semanas. Aliás, desde a invasão em larga escala, as tropas ucranianas têm tentado atacar a região — às vezes com sucesso, outras vezes falhando. Em outubro de 2022, num momento em que atravessava uma boa fase no campo de batalha, a Ucrânia foi bem-sucedida em atacar a ponte de Kerch — a mais longa da Europa. Noutras fases da guerra, a península foi deixada em segundo plano, mas nunca deixou de ser um objetivo central.
Numa iniciativa da presidência de Volodymyr Zelensky, a Ucrânia organiza anualmente uma cimeira, a 23 de agosto, para recordar a importância da península para o país, convidando frequentemente líderes estrangeiros. Para os ucranianos, mesmo que já tenham passado mais de dez anos desde a anexação, a Crimeia ainda é tida como parte inalienável do seu território, recusando totalmente a soberania russa.

Na memória coletiva dos ucranianos, existe também algum ressentimento pela forma como a comunidade internacional lidou com o assunto em 2014. Apesar de terem condenado a Rússia, a maioria dos dirigentes europeus e norte-americanos continuou a interagir e a fazer negócios com o Kremlin. O facto de o Ocidente ter fechado os olhos deu força à convicção de Vladimir Putin de que poderia continuar a guerra no Donbass e desencadear a invasão em larga escala em 2022. A anexação da Crimeia foi tida como uma humilhação para os ucranianos, que continuam a ter esperança de que vão recuperar a península.
Este apaziguamento falhado do Ocidente deixou uma ferida aberta no orgulho nacional dos ucranianos e explica a convicção de que não se pode confiar na Rússia e que há que a combater. Durante as negociações mediadas pela segunda administração Trump, surgiu a possibilidade de os Estados Unidos reconhecerem de jure a anexação da Crimeia — algo que chocou a opinião pública na Ucrânia e que seria visto como uma recompensa ao expansionismo de Vladimir Putin.
Em 2026, a Ucrânia está a virar a corrente da guerra a seu favor. Após anos complicados na linha da frente, em que a Rússia fazia avanços sem grande resposta do outro lado, os ucranianos têm conseguido atacar alvos estratégicos dentro de território russo. Vladimir Putin está a ser criticado publicamente e há já falta de combustível em várias regiões da Rússia. Neste contexto, o Ministério da Defesa da Ucrânia viu na Crimeia o ponto estratégico ideal para continuar a enfraquecer a posição do Kremlin.

Afinal de contas, Kiev pode facilmente gerar o caos na Crimeia. Como é uma península, a região está fortemente dependente da Rússia. Ao cortar as cadeias de abastecimento entre os dois lados, as forças ucranianas sabem que podem criar sérios problemas logísticos, militares e de abastecimento à população. Ao mesmo tempo, a região está geograficamente mais próxima do restante território ucraniano, o que torna os ataques mais precisos e fáceis de executar.
Numa entrevista em meados de junho, o ministro da Defesa ucraniano desvendou um pouco da estratégia — e deu a entender que já está a ser planeada há alguns meses. Mykhailo Fedorov lembrou que, durante os primeiros meses de 2026, a Ucrânia comprou uma grande quantidade de drones (mais do que em todo o ano de 2025) que atacam alvos a média distância — os utilizados para atacar agora a Crimeia.
“O que fizemos está agora a produzir resultados. Anunciámos que ia ser posto em marcha um bloqueio logístico. Isto significa que estão a ser canalizados fundos diretos adicionais para unidades que usam drones de médio alcance. Ao mesmo tempo que compramos centenas de milhares destes drones, estamos a providenciar fundos a unidades que sabem usá-los e também sabem como adquiri-los rapidamente”, explicou Mykhailo Fedorov.
O ministro da Defesa aclarou também que, com estes drones, a Crimeia está a ser “isolada” de qualquer cadeia de abastecimento da Rússia. “Parece que a Crimeia vai tornar-se uma ilha”, atirou Mykhailo Fedorov, antevendo que o “inferno está a começar para os russos”. “Temos esta janela de oportunidade. As rotas logísticas estão a ser cortadas e a Crimeia está a ser isolada. E isso está a ter um impacto no leste. Existe uma correlação direta entre a intensidade dos nossos ataques logísticos e o número de operações que ocorrem na linha da frente.”
A lógica do ministro é clara. Ao atacar a Crimeia, a Ucrânia está a criar uma enorme pressão na linha da frente, obrigando, em última instância, o Kremlin a desviar atenções e recursos para esta região — em vez de dar tanta atenção aos combates ainda em curso na região do Donbass. Em simultâneo, as tropas russas que permanecem no sul da Ucrânia (em redor da província de Kherson) arriscam-se a ficar sem o apoio logístico vital assegurado pela península.
Aliás, a Crimeia desempenhou um papel central no início da invasão total russa, tendo servido como uma das principais plataformas para a ofensiva das forças de Moscovo a sul do território ucraniano. Atualmente, a península funciona quase como um forte militar, albergando numerosas bases russas e constituindo um importante centro estratégico no Mar Negro.

De uma perspetiva mais militar, Alina Frolova, membro do think tank Center for Defense Strategies, descreve o que está a ocorrer no terreno ao Wall Street Journal como “uma operação clássica de isolamento”. “Costuma ser o tipo de operação que precede algum tipo de ação ofensiva. E, considerando que as defesas aéreas da Crimeia foram dizimadas e que as capacidades navais russas que ali existiam desapareceram, as coisas estão a avançar rapidamente”, diz a especialista, declarando: “Já estamos num ponto de isolamento sério, quase completo”.
Pela importância simbólica que a península tem para os ucranianos, o assunto galvaniza o moral das tropas. No Governo da Ucrânia, existe essa perceção, que coexiste com outra: a de que este cenário será um duro golpe para o Kremlin. “Será muito difícil de lidar” e pode “levar a certas consequências inesperadas” para os russos, avisa Mykhailo Fedorov. Com a Crimeia totalmente isolada e no cenário em que caia nas mãos dos ucranianos, a superioridade russa no campo de batalha — que já é posta em causa — pode mesmo cair por terra, levando muitos russos a refletirem se a guerra na Ucrânia vale verdadeiramente a pena.
Putin reconhece situação difícil na Crimeia e é acionado estado de emergência
Tal como para os ucranianos, a Rússia vê a Crimeia como parte fundamental da sua estratégia. Foi o início do expansionismo russo na Ucrânia — e uma iniciativa que correu relativamente bem para Moscovo. Houve críticas do Ocidente, mas o Kremlin continuou a fazer negócios com as capitais europeias. O argumento de que a população desejava juntar-se à Federação Russa, mesmo que violando o Direito Internacional, colou entre muitos ocidentais.

Historicamente, muitos governantes na Rússia também sempre viram a permanência da Crimeia na Ucrânia, após a queda da União Soviética, como um erro histórico que convinha reparar. O antigo líder soviético, Nikita Khrushchev, transferiu a península para o controlo da República Socialista Soviética Ucraniana em 1954, algo cuja lógica muitos nunca entenderam. Para provar a grandeza da Rússia, Vladimir Putin voltou a controlar o território, daí ser a sua “joia da coroa”.
Ao longo dos últimos anos, o território transformou-se numa estância balnear a que muitos russos vão passar férias no verão, como acontecia nos tempos da União Soviética. Para a população da Rússia, a Crimeia integra a Federação Russa: é parte indissociável do seu território desde 2014, mesmo que, à luz do Direito Internacional, a situação esteja longe de estar reconhecida. Até a oposição russa no exílio — incluindo o principal dissidente do regime russo, Alexei Navalny — foi criticada por ver a península como sendo russa.
Por tudo isto, um eventual isolamento da Crimeia não é algo que os russos vão aceitar de bom grado. Desde 2014, o Kremlin tem alimentado uma gigante máquina de propaganda em redor da anexação da região, convertendo-a num símbolo de orgulho e do nacionalismo da Rússia. A Ucrânia sabe perfeitamente a forma como a região é vista pelo Kremlin — e quer agora explorar um eventual cerco para gerar ondas de choque na sociedade russa.

Além disso, a situação interna russa já não é fácil. A Ucrânia está a levar a guerra para dentro do território vizinho, atacando principalmente refinarias de petróleo em cidades como Moscovo ou São Petersburgo. Isto causa não apenas a escassez do combustível disponível, como também representa um rombo nas finanças do Kremlin. Muitos cidadãos começam a queixar-se dos impactos da guerra e estas reclamações geraram uma onda de críticas inéditas a Vladimir Putin, mesmo com a censura e o cerco à dissidência impostos no país.
Apesar de manter a convicção de que a Rússia vai controlar o Donbass pela força e não ceder na posição maximalista em eventuais negociações, Vladimir Putin já começou a reconhecer que a situação na Crimeia é preocupante. Questionado sobre os ataques com drones contra a península na semana passada, o Presidente russo afirmou que “a tarefa de eliminar essas ameaças recai sobre o Ministério da Defesa e outras agências de segurança”. “O Governo da Federação Russa também deve tomar medidas adicionais para minimizar, ou reduzir para zero, as consequências de tais ações.”
A situação no terreno é complicada. Partes da península ficaram sem água, luz e gás. Na imprensa internacional, fala-se numa situação anormal. Ao Wall Street Journal, Maksim Tikhomirov contou que não há eletricidade há dias. “Em Sevastopol, especificamente, a situação é muito difícil. Muitas lojas não estão abertas. É impossível levantar dinheiro. Os transportes públicos estão a funcionar mal e em número limitado.”
O principal foco é também o turismo — a grande fonte de receitas na Crimeia, principalmente nesta altura, que marca o início da época balnear. À CNN Internacional, o dono de uma pousada na cidade costeira de Noviy Svet descreveu o ambiente como “cauteloso, mas longe de haver pânico”. “Falando sobre nós pessoalmente, não vejo qualquer impacto crítico no trabalho da pousada neste momento. Os hóspedes continuam a vir; as praias, os cafés e as infraestruturas turísticas estão a funcionar. Mas existe incerteza e as pessoas estão mais atentas às notícias”, conta.
Em todo o caso, as autoridades pró-russas da Crimeia declararam o estado de emergência na região. Numa mensagem no Telegram publicada na passada sexta-feira, o governador Sergei Aksyonov justificou a decisão com a escassez energética. “O quadro legal do estado de emergência permite a rápida resolução de questões relacionadas com a manutenção do funcionamento de todos os setores essenciais”, afirmou.
Ao mesmo tempo, Sergei Aksyonov admitia que não sabia “quanto tempo ia vigorar” este estado de emergência. “Não posso divulgar um plano específico de ação, mas estamos a agir”, garantiu, concedendo que “infelizmente” os sistemas de defesa aéreos da Crimeia “não estão a ser perfeitos em termos de segurança e eficácia”. Para já, o governador assegurou que não havia “quaisquer restrições na liberdade de circulação” e não existe qualquer recolher obrigatório.
Por causa da situação, milhares de pessoas abandonaram a Crimeia nos últimos dias. Perante condições cada vez mais precárias, muitos turistas e habitantes da península decidiram regressar à Rússia. Têm sido registadas longas filas na ponte de Kerch, uma infraestrutura que se encontra, contudo, frequentemente encerrada devido aos ataques ucranianos.
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A estratégia de Zelensky de pressão sobre Putin vai funcionar?
O Presidente ucraniano revelou a estratégia publicamente. “A nossa operação, incluindo a que diz respeito à Crimeia, está a ser calculada cuidadosamente. A forma como a operação se está a desenrolar prova-o totalmente: se a Ucrânia receber exatamente o que precisa dos parceiros do G7, vamos criar as condições que vão forçar a Rússia a escolher a paz“, anunciou Volodymyr Zelensky, no discurso noturno da passada quarta-feira. Esta iniciativa faz parte de um plano de 40 dias para obrigar a Rússia a sentar-se à mesa das negociações.
O isolamento da Crimeia visa precisamente isso: obrigar a Rússia a negociar e a recuar nas suas exigências maximalistas. Como analisa o especialista em política russa Mark Galeotti num artigo no The Times, o objetivo não é tomar a península pela força, pelo menos para já. “Algumas vozes mais ambiciosas em Kiev pedem uma tentativa de tomar a península pela força, mas o consenso geral é que seria muito difícil. Está muito bem defendida.”
Na realidade, escreve Mark Galeotti, a Ucrânia quer pressionar Vladimir Putin com a hipótese real de perder a Crimeia, a “joia da coroa” e aquela que vê como a sua “conquista mais valiosa”. Kiev pretende que o Presidente russo aceite “sentar-se à mesa das negociações e que aceite a exigência da Ucrânia para um cessar-fogo imediato”. Paralelamente, ao trazer a guerra para território que a população russa vê como sua, os ucranianos esperam que a sociedade civil reaja.
No entanto, Vladimir Putin não parece disposto a ceder. Mesmo tendo admitido que os ataques às infraestruturas “vão criar problemas” no país, o Presidente russo não dá sinais de recuo. Alegando que a Ucrânia lhe tentou propor uma trégua nos ataques de longo alcance, o chefe de Estado rejeitou-a categoricamente: “É claro o motivo pelo qual esta proposta foi feita: porque os nossos contra-ataques atingem o território ucraniano em profundidade. São muito fortes, têm um maior impacto e são, francamente, mais destrutivos”, atirou.
Para o Presidente russo, o seu país continua numa posição de vantagem no conflito, devido à “escassez catastrófica” de homens na Ucrânia para combater. Qualquer cessar-fogo, defendeu Vladimir Putin numa entrevista este fim de semana, daria apenas tempo aos ucranianos para ganharem forças. “Salvar o regime de Kiev não faz parte dos nossos planos”, garantiu.
Retórica para consumo interno ou plena confiança de que a Rússia continua num bom momento? Ninguém sabe o que vai verdadeiramente na cabeça de Vladimir Putin. No entanto, a população russa sente na pele os impactos reais do conflito. O cerco à Crimeia, assim como os ataques de longo alcance a várias regiões da Rússia, afetam a vida quotidiana da população. E a Ucrânia aguarda que a sociedade civil russa se revolte e quebre a malha de censura que o Kremlin lhe impõe.
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É uma estratégia da Ucrânia que Mark Galeotti adjetiva como sendo de “alto risco”. Se Vladimir Putin temer perder a Crimeia, sentindo que “a incapacidade de a proteger mancha o seu legado ou pode mesmo derrubá-lo”, poderá “optar por negociar”, como quer Volodymyr Zelensky. “Mas também poderá ser tentado a aumentar a pressão” e provocar uma escalada ainda maior do conflito, alerta o especialista.
O isolamento com drones da Crimeia está em curso. No terreno, a estratégia ucraniana está a resultar, criando muitos constrangimentos à população russa e sérias preocupações no Kremlin. O símbolo de uma anexação bem-sucedida da Rússia está sob imensa pressão. Mas, para lá dos efeitos a curto prazo e simbólicos, será a península capaz de obrigar Vladimir Putin a sentar-se à mesa das negociações e aceitar um cessar-fogo? Para já, o líder russo não tem mostrado qualquer abertura para isso.