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O presidente da FIFA, Gianni Infantino, terá percorrido mais de 50 mil quilómetros no seu jato privado durante as primeiras duas semanas do Campeonato do Mundo de futebol 2026. A análise, realizada pela BBC e baseada em dados de sites que acompanham em tempo real os voos, concluiu que a aeronave realizou dezenas de voos que acumularam uma pegada carbónica equivalente às emissões anuais médias de cerca de 78 pessoas.
Esta investigação surge numa altura em que a FIFA mantém o compromisso de reduzir para metade as suas emissões até 2030 e de atingir a neutralidade carbónica até 2040.
Mais de duas dezenas de jogos em 17 dias
Desde o arranque oficial da competição, a 11 de junho, Infantino marcou presença em 24 jogos da fase de grupos, distribuídos por várias cidades dos Estados Unidos, México e Canadá. Ao contrário da edição de 2022, no Qatar, onde os oito estádios se encontravam a uma distância máxima de cerca de uma hora por estrada, o Mundial de 2026 decorre num território muito mais vasto: três países, 16 cidades anfitriãs e um número recorde de encontros, consequência do alargamento do torneio para 48 seleções.
Segundo a BBC, o presidente da FIFA assistiu, por diversas ocasiões, a dois jogos no mesmo dia, separados por milhares de quilómetros. Em alguns casos, realizou três voos por dia entre compromissos oficiais, deslocações para jogos e entrevistas.
Embora a FIFA não tenha confirmado à BBC em que jato Infantino viajou nestas duas semanas, a investigação cruzou dados de sites que acompanham em tempo real os voos com fotografias e registos da presença do presidente da entidade nos estádios. Foram registados 27 voos entre o início do Mundial e o dia 27 de junho. Ao longo deste período, a aeronave terá percorrido pelo menos 50.122 quilómetros e permanecido mais de 66 horas no ar.
A 13 de junho, depois de assistir ao encontro entre Austrália e Turquia, em Vancouver, o presidente da FIFA viajou para Miami, num percurso de cerca de 4.507 quilómetros, o mais longo registado durante as primeiras semanas da competição.
Dois dias depois, a 15 de junho, realizou aquele que terá sido o dia mais intenso em termos de deslocações. A investigação indica que Infantino voou de Miami para Seattle, atravessando praticamente todo o território continental dos Estados Unidos, para assistir ao encontro entre Bélgica e Egito. Ainda nesse dia, voltou a embarcar rumo a Los Angeles, onde esteve presente no jogo entre Irão e Nova Zelândia.
Outro exemplo é o de 26 de junho. O avião descolou de Miami, fez uma curta escala em Dallas e prosseguiu para Seattle, onde Infantino foi fotografado no jogo entre Egito e Irão. Cerca de cinco horas depois de aterrar, a aeronave iniciou o regresso a Miami, numa viagem de aproximadamente 4.345 quilómetros, chegando já durante a madrugada seguinte. No dia seguinte, o presidente da FIFA assistiu ao seu 24.º jogo da fase de grupos, em Miami, no encontro entre Portugal e Colômbia.
Porém, nem todas as deslocações foram de longa distância. No dia 22 de junho, por exemplo, o jato voou apenas cerca de 148 quilómetros entre Filadélfia e o aeroporto de Teterboro, em Nova Jérsia. Embora Infantino não tenha assistido a qualquer jogo neste local, participou numa entrevista nos estúdios da Fox News, em Nova Iorque, antes de seguir viagem para Boston e, posteriormente, Toronto, onde voltou a marcar presença em jogos do Mundial.
Emissões estimadas correspondem à pegada carbónica anual de 78 pessoas
Segundo a BBC, o jato em que Infantino viaja (tratar-se-á do Gulfstream G650ER) consome, em média, cerca de 1.817 litros de combustível por hora de voo. Estima-se que as viagens realizadas durante a fase de grupos tenham produzido aproximadamente 516 toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2e). Este indicador inclui não apenas o dióxido de carbono libertado diretamente pela combustão do combustível, mas também outros gases com efeito de estufa.
De acordo com os dados da União Europeia citados pela BBC, as emissões anuais médias de uma pessoa situam-se nas 6,56 toneladas de CO2 equivalente. Com base nesta referência, as deslocações efetuadas pelo jato privado durante pouco mais de duas semanas corresponderiam às emissões produzidas, em média, por cerca de 78 pessoas ao longo de um ano inteiro.
Num comunicado enviado ao jornal britânico, um porta-voz da FIFA explicou que as deslocações são efetuadas “por vezes em voos comerciais, incluindo companhias de baixo custo, e por vezes em voos privados fretados, dependendo da solução considerada mais eficiente e economicamente vantajosa em cada circunstância”.
Na estratégia de sustentabilidade e direitos humanos apresentada antes do Mundial de 2026, Gianni Infantino garantiu que a FIFA pretendia “desempenhar um papel ativo na resposta a desafios globais”, como as alterações climáticas, os direitos humanos, a saúde pública e a inclusão. Entre as medidas anunciadas para reduzir o impacto ambiental da competição encontram-se a utilização de estádios já existentes, o incentivo ao recurso aos transportes públicos, a promoção de veículos elétricos e uma distribuição geográfica das seleções que procura limitar as viagens de longa distância durante a fase inicial da prova.
Apesar destes compromissos, várias organizações levantaram dúvidas sobre a possibilidade de reduzir significativamente as emissões de um torneio disputado à escala de um continente.
https://observador.pt/2026/06/11/mundial-2026-associacao-zero-alerta-para-impacto-ambiental-de-maior-torneio-de-sempre/
Um relatório divulgado em 2025 pela organização Scientists for Global Responsibility estimou que a pegada carbónica total do Mundial deste ano poderá atingir cerca de nove milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, praticamente o dobro da média registada nas quatro edições anteriores do Campeonato do Mundo.