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Organização processa abrigo após descoberta de 117 restos mortais de cães. Há 731 por localizar

Rocket Dog Rescue acusa santuário, que dizia não abater animais, de fraude e crueldade, após descoberta de 117 restos mortais, muitos com marcas de tiros. Paradeiro de 731 cães está por esclarecer.

Cláudia Nobre
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Um mês depois de as autoridades terem encontrado os restos mortais de pelo menos 117 cães, centenas de ossos, mais de 600 coleiras e vários microchips na propriedade do Miranda’s Rescue Animal Sanctuary, no norte da Califórnia, começam a surgir as primeiras ações legais contra o fundador do abrigo.

A Rocket Dog Rescue apresentou esta semana um processo civil contra Shannon Miranda, fundador do santuário localizado no condado de Humboldt, em Fortuna, nos Estados Unidos da América (EUA). A organização norte-americana de resgate de animais acusa-o de fraude, crueldade contra animais, deturpação intencional e apropriação ilícita. A associação alega que dezenas de “cães confiados ao abrigo para serem treinados e colocados para adoção” foram, afinal, abatidos e enterrados na propriedade.

O Miranda’s Rescue apresentava-se como um santuário especializado em cães com dificuldades de adoção e declarava receitas anuais na ordem das centenas de milhares de dólares. Segundo as declarações fiscais da organização, arrecadou cerca de 471 mil dólares (414 mil euros) em 2024, depois de quase 788 mil em 2023 (692 mil euros), através de donativos, campanhas de angariação de fundos, lojas solidárias e outras atividades.

Na ação judicial, a que o jornal local Local Coast Outpost teve acesso, a Rocket Dog Rescue diz que entregou os cães ao Miranda’s Rescue mediante o pagamento de uma taxa de transferência, depois de Shannon Miranda garantir que, caso “a eutanásia de algum animal se tornasse necessária, seria previamente contactada para decidir se pretendia resgatá-lo”.

Essas garantias, acusa a organização, eram falsas. A Rocket Dog alega que alguns dos cães já tinham sido abatidos quando continuava a receber informações de que permaneciam ao cuidado do abrigo ou aguardavam adoção. Entre os animais identificados na ação judicial encontram-se Paddington, Scooby e Paulie, cujos restos mortais terão sido encontrados durante a investigação conduzida pelo xerife do condado de Humboldt.

De acordo com as autoridades, o Miranda’s Rescue recebeu mais de 900 cães provenientes de abrigos e organizações de resgate de vários estados norte-americanos entre janeiro de 2025 e maio de 2026. Até ao momento, os investigadores conseguiram confirmar a adoção de apenas 116 animais, permanecendo por esclarecer o destino dos restantes, disse o xerife numa conferência de imprensa a 29 de junho.

No processo, a associação defende a transferência para o abrigo dizendo que Shannon Miranda descreveu a sua operação como “uma instalação de resgate e treino num ambiente rural, particularmente adequada para cães com dificuldades num ambiente urbano”.

As suspeitas de uma vizinha deram origem à investigação

A investigação das autoridades no caso da morte de diversos cães teve início em abril, depois de Jennifer Raymond e Jenna Moore, duas ativistas, denunciarem às autoridades a existência de alegados enterramentos clandestinos na propriedade do abrigo.

Jennifer Raymond suspeitava há vários anos da atividade do Miranda’s Rescue. Depois de consultar registos públicos sobre o elevado número de cães que passavam pelo santuário sem que fosse conhecido o seu destino, decidiu comprar uma propriedade vizinha para acompanhar mais de perto o que ali acontecia.

Começou então a ouvir disparos frequentes de arma de fogo e a observar movimentações invulgares, incluindo a abertura e o fecho de valas e o transporte de grandes quantidades de terra, conta o Los Angeles Times. Com a ajuda de Jenna Moore, instalou câmaras de vigilância que registaram imagens posteriormente entregues às autoridades.

As buscas realizadas em junho recorreram a radar de penetração no solo e permitiram localizar pelo menos 117 restos mortais de cães em diferentes estados de decomposição, 21 crânios caninos, centenas de ossos, mais de 600 coleiras e vários microchips, informou o gabinete do xerife.

https://twitter.com/MccloskeyA8276/status/2070014226727592331

Veterinários do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e especialistas forenses examinaram, através de raios-X, 70 dos animais recuperados e concluíram preliminarmente que muitos morreram devido a ferimentos provocados por arma de fogo. Os investigadores acreditam ainda que uma área de um celeiro na propriedade, onde foram encontradas as 600 coleiras dos cães, terá sido utilizada para abater os animais.

As autoridades continuam a analisar os microchips encontrados para identificar os animais recuperados e contactar os respetivos proprietários ou organizações de resgate.

https://twitter.com/CBSNews/status/2071402680220537260

O xerife William Honsal afirmou que a investigação “está apenas a começar” e que ainda existe “um elevado volume de provas, testemunhos e elementos forenses por analisar” antes de serem tomadas decisões sobre eventuais acusações criminais.

Miranda rejeita acusações e fecha lojas

A Rocket Dog Rescue é apenas uma das várias entidades que decidiram agir na sequência da investigação. O Sacramento County Animal Services iniciou procedimentos judiciais para recuperar cães anteriormente transferidos para o Miranda’s Rescue. Já a Friends of Oakland Animal Services anunciou que está a avaliar a apresentação de uma ação civil. E vários municípios e organizações de proteção animal suspenderam igualmente o envio de animais para o santuário enquanto decorre a investigação.

Mas Shannon Miranda nega qualquer irregularidade. Numa declaração publicada a 18 de julho no site do Miranda’s Rescue, afirmou que a cobertura mediática do caso apresenta “um retrato incompleto e, em alguns casos, impreciso” do trabalho desenvolvido pelo abrigo.

O fundador garante que o Miranda’s Rescue sempre funcionou como uma organização no-kill e que a eutanásia apenas era utilizada em circunstâncias excecionais, quando os animais apresentavam doenças terminais ou comportamentos considerados perigosos e irrecuperáveis. Acrescenta que essas decisões eram tomadas de forma humanitária e comunicadas às autoridades competentes.

Miranda afirma ainda ter dedicado mais de três décadas ao resgate de animais e apelou para que o público aguarde pelas conclusões da investigação antes de formar um juízo definitivo sobre o caso.

Para já, as consequências da investigação já começaram também a afetar a atividade do santuário. Miranda anunciou o encerramento de pelo menos uma das lojas solidárias que ajudavam a financiar o abrigo, alegando que a quebra de donativos e o impacto da cobertura mediática tornaram a operação financeiramente insustentável.

Texto editado por Dulce Neto