O que é o Rock in Rio? A pergunta parece inusitada, estamos afinal perante um festival com mais de duas décadas. Puramente em termos de números, é o maior evento do género em Portugal, algo que a edição deste ano confirma: apesar das críticas ao preço dos bilhetes e a um alinhamento de nomes porventura menos convincente face a anos anteriores, de acordo com a organização, a edição de 2026 atraiu mais gente do que nunca — mais de 300 mil pessoas, à boleia também de um aumento da capacidade do Parque Tejo.
No entanto, a questão permanece. Sem a capacidade de outros tempos para atrair os maiores nomes da cena internacional e sem um ADN musical bem definido, funciona como um “festival guarda-chuva” que procura apelar ao máximo de quadrantes possível. Este ano, a delineação temática dos dias foi clara: o dia da pop, da rock, da nostalgia e, por fim, do hip-hop e da dita música “urbana”.
Ora, não é por acaso que se costuma apregoar a dificuldade em tentar agradar a gregos e a troianos. Numa edição que o consenso parece afirmar ter sido sem brilho, o dia de fecho confirmou a tendência com concertos pouco memoráveis da maioria dos principais nomes no menu; apropriadamente, a apoteose (no mau sentido) deu-se com o cabeça de cartaz. 21 Savage protagonizou um autêntico ato de desaparecimento: não só se atrasou em meia hora face ao horário previsto e ainda conseguiu terminar antes do tempo como não temos a certeza se chegou a estar em palco, mesmo depois de o termos visto. O rapper, apresentou-se desinspirado, desinteressado e mesmo nos melhores momentos foi “tramado” por inaceitáveis falhas técnicas, numa atuação francamente má e que figura entre os piores cabeças de cartaz que já se apresentaram no festival.
21 Savage, mestre da ilusão
Não deixa de ser curioso que seja o rapper nascido no Reino Unido e criado em Atlanta, EUA, a protagonizar este momento. Há meia dúzia de anos apontado como um dos herdeiros aparentes da coroa do hip-hop norte-americano, 21 Savage é hoje um artista à procura de rumo, num beco criativo e comercial que tem marcado os últimos anos da carreira. Ao famoso caso da deportação durante a primeira administração Trump, seguiram-se anos para ver regularizado o estatuto de imigrante, um par de álbuns que não conseguiram fazer ondas à parte de uma ou outra canção, e uma colaboração contínua com o canadiano Drake numa altura em que o próprio viu a sua credibilidade beliscada pela derrota no mediático beef contra Kendrick Lamar.

Em abono da verdade dir-se-á também que a culpa não é só do artista. O momento cultural que produziu uma das maiores figuras do trap de Atlanta mudou, e com ele a sonoridade em voga; no limite, poderá afirmar-se que a relação do hip-hop com a indústria mudou, depois de dominar as tabelas de vendas durante os anos 2010 e de perder essa hegemonia na última meia década, face ao domínio latino, as novas vagas da pop, da música country e até de alguns modestos estertores do rock tradicional (talvez este contexto também ajude a explicar o porquê de o último dia do Rock in Rio ter sido de longe o menos concorrido, com estimativas que apontavam para 40 a 50 mil pessoas, praticamente metade da lotação máxima, num recinto tão grande, o efeito nota-se).
Por todas estas razões, a que se juntava a promessa adiada por um cancelamento de última hora em 2024 no Super Bock Super Rock, a expectativa era muita para ver como Savage se sairia na estreia em solo nacional.
23h15, área do Palco Mundo cheia a aguardar o mestre de cerimónias. Eis que surge Marc B, DJ e hype man do rapper. “Façam barulho ou o 21 não aparece” começou por dizer, os presentes longe de imaginar que a afirmação era mais verdadeira do que parecia. O que se seguiu foi um bizarro exercício de “aquecimento” que se prolongou por mais de 20 minutos – muito para lá da hora em que se tornou óbvio para todos que o cabeça de cartaz estava atrasado. A banda sonora foi de Future a Drake a Travis Scott (nomes óbvios neste tipo de coisa), a Bad Bunny e Lady Gaga (relativas surpresas) a Katy Perry (já a vimos), a Justin Bieber e Backstreet Boys (aqui já estávamos em modo “playlist de discoteca às 02h00), a um hino viral gerado por IA de apoio à Seleção Nacional (dizer o quê).
“Estamos num 7, tem de estar num 10 para ele aparecer”, disse às 23h40 DJ Marc B, uma ou outra vaia a começar a ecoar na zona onde nos encontrávamos. A festa acabou por ser interrompida por uma pessoa que teve de ser assistida, com o constrangido DJ a parar a música e a abandonar o palco. “Mas onde é que ele está?” questionava uma festivaleira a distância audível. “Vai sair da Lua; de uma nave espacial; da Ponte Vasco da Gama” humorizavam de volta outros, a piada traindo a frustração sentida.
Pelas 23h45, sem grandes artifícios e com um público visivelmente desconfiado, 21 Savage apareceu finalmente entoando alguns versos de “No Heart”, que abriu o alinhamento. O que se seguiu foram largos minutos sem intensidade nem esforço por parte do rapper para reconquistar a confiança perdida. Sem pausas e com poucas interações para lá do vago “façam barulho”, foi avançando pela setlist ao som de temas como On BS (dueto com Drake), Peaches & Eggplants ou EA (músicas de Yung Nuddy com versos de Savage), ou Bank Account. O facto de a maior parte da plateia estar cansada da espera e parecer não reconhecer os temas que ecoavam no Palco Mundo não ajudou, com uma jovem a resumir o sentimento: “Nem parece ele”.

Convém dizer que o estilo de 21 Savage não é exatamente enérgico; pelo contrário, como figura de proa do mumble rap (algo como “rap murmurado”), o registo de entrega monocórdico faz parte do conceito. O problema é que, no Parque Tejo, não se via a falta de emoção de um homem enrijecido pelas ruas e que viu demasiadas coisas para sentir o que quer que seja; era a falta de emoção de um rapper aborrecido, ou pelo menos sem demonstrar capacidade para se conectar com o público. “Achei que iam estar mais em cima… mas ainda vos adoro, Portugal”, confessou, na parte final.
Como de costume, os momentos em que os cerca de 50 mil festivaleiros mais se manifestaram foi aquando dos principais êxitos. Rockstar, dueto de 2017 com Post Malone, provocou um coro em uníssono a cantar a letra, bem como Rich Flex, do álbum a dois com Drake Her Loss, de 2022. E acima destas, A Lot, o grande sucesso a solo de 2019 e uma letra que ainda hoje evidencia o melhor 21 Savage – o estoicismo aprendido nas ruas, nos traumas de família e pela violência sofrida e cometida. Contudo, nem aqui foi possível desfrutar dos laivos de ligação entre público e artista, uma vez que este mal se fazia ouvir, o seu microfone praticamente inaudível nas colunas do palco, deixando a cargo dos fãs preencher o vazio da sua voz.
Pelas 00h40, 21 Savage deu por concluída a noite finda a atuação de Redrum, o seu mais recente êxito a solo (já tem dois anos e meio), com sample da Serenata do Adeus de Elza Laranjeira. O público junto ao rio, esse, nem direito a uma quadra estival teve, com o rapper a despedir-se apressadamente com um “espero que se tenham divertido”. Ali ao lado, três jovens aguardavam que o palco vazio pudesse ainda dar lugar a uma encore, reconhecendo a derrota quando as luzes se acenderam e o logótipo do Rock in Rio preencheu o ecrã gigante. “Ainda faltavam cinco minutos”, repreendeu uma delas. Ao nível apresentado, talvez tenha sido melhor assim.
Central Cee, o príncipe do drill, e a lição de história de Valete
Se 21 Savage pareceu apostado em convencer que os melhores dias da carreira já lá vão, outros dos protagonistas da geração atual do hip-hop anglófono saiu-se ligeiramente melhor. Central Cee, 28 anos e um dos expoentes máximos do drill, modalidade que se tem afirmado como o principal produto do rap britânico e tem vindo a espalhar-se além-fronteiras na última década. Cench, outro dos seus apelidos, subiu ao palco ao som de Doja, um dos seus grandes êxitos (a punchline do refrão, “how can I be homophobic? My b*tch is gay [Como é que posso ser homofóbico? A minha gaja é gay]” é bastante sofrível).

A ritmo rápido, seguiram-se temas como Wagwan, Loading, 6 for 6 ou Commitment Issues – este último revelador de uma das facetas que distingue Central Cee entre os seus contemporâneos: uma certa vulnerabilidade assumida nas letras, num género em que o bravado machista é quase imbuído no seu ADN. As influências musicais do artista também apontam nesse sentido, com samples pouco comuns de êxitos dos anos 2000 e 2010, como é o caso de So Sick, de Ne-yo, interpolada em There’s Truth In The Lies, ou Let Go, que reaproveita o refrão do tema de 2012 dos Passenger.
Assim a hora de concerto se foi desenrolando, de forma segura e sem surpresas, mas recebida calorosamente pelo público. Há uma arte em conseguir ocupar um espaço com as dimensões do Palco Mundo, sozinho, sem banda, apenas com a linguagem corporal e um certo carisma natural, sem tornar a coisa excessivamente aborrecida. Central Cee deu conta do recado mesmo sem ser demasiado interventivo. Chegados à dupla de duetos com Dave, UK Rap e Sprinter (este último o maior êxito do rap britânico nas tabelas domésticas), o londrino virou costas e despediu-se, sem mais, como é seu apanágio, numa estreia na capital lisboeta (antes atuou em Portugal em 2022, no Rolling Loud de Portimão) globalmente positiva.
A abertura do Palco Mundo ficou a cargo de outro rapper, este em língua de Camões. O brasileiro Matuê, que com Pedro Sampaio no primeiro fim-de-semana, foi o representante da língua portuguesa no palco principal do Rock in Rio, abrindo as hostilidades deste domingo com “’um espetáculo especial’ com novos figurinos, uma cenografia inédita e um alinhamento renovado”, assim foi prometido. Na prática, tal traduziu-se num décor de obeliscos prateados que ocupavam boa parte do palco, em projeções de vídeo supérfluas e num concerto que desenfatizou as backing tracks, oferecendo maior destaque aos elementos da banda que acompanharam o artista do Ceará.

A intenção não terá sido má, mas sentiu-se alguma falta de imaginação na forma de integrar a cenografia no espetáculo (apenas por uma vez Matuê subiu a um dos pódios prateados, e apenas por uma canção). De resto, cantou os êxitos que o público que ocorreu cedo ao Parque Tejo quis ouvir, casos de Conexões de Máfia, Kenny G, Quer Voar e Máquina do Tempo. As duas metades do concerto dividiram-se entre temas mais intensos, na primeira, e os mais melódico-românticos na segunda, tendo o público acompanhado a viagem a tempo inteiro, apesar de uma sensação de piloto-automático do artista.
Situação diametralmente oposta à que se verificou logo a seguir, no Palco Super Bock, onde Valete se apresentou com uma banda de jazz como acompanhamento (ele e os brasileiros Jazz Swingers deverão lançar um single em setembro). Em 2026, o rapper português surge como um anacronismo – um artista de molde liricista, na veia lyrical miracle dos anos 90, preocupado em encher os seus complexos versos com referências históricas e politicamente comprometidas com ideias como o comunismo e a luta de classes. Logo em Anti-Herói, um dos temas de sempre, que abriu o concerto, declara-se “filho de Marx e Pepetela” enquanto imagens de Martin Luther King, Amílcar Cabral e Fidel Castro desfilam atrás de si – tudo isto perante uma plateia de festival impávida e mais preocupada em gerir o Sol do final da tarde.

O desdobramento de temas e hinos de intervenção continuou, de Colete Amarelo a Rap Consciente a Poder, sempre com a sensação de um público não muito interessado. De facto, mesmo para quem o admira (e há muito para admirar), é difícil não ouvir as letras do rapper em 2026 com um misto de nostalgia e algum confrangimento pela ingenuidade e simplismo que as suas ideias às vezes exibem.
O autoproclamado “representante do real hip hop”, contudo, mostra ter essa noção, e mantém a crença de que a música pode ajudar a mudar o mundo, por mais quixotesca que a noção nos pareça por estes dias. “Sei que sentem que vivemos numa era de gente passiva, de ativistas e músicas de redes sociais”, afirmou a certa altura, antes de oferecer uma mensagem ao futuro. “Quero dizer-vos que a história é um pêndulo, e que depois de uma geração de conformados, vem a geração dos sonhadores. É sempre assim”.
Uma “Rema Party” à temperatura ambiente e o karaoke de CeeLo Green
Uma mensagem meritória e que alguns dos presentes poderão ter ouvido. A maior parte, contudo, apressava-se para o Palco Mundo para garantir o lugar para Rema, nigeriano que trouxe ao Rock in Rio um gosto de afrobeat. “Quando eu estou em palco já não é um festival, nem sequer é um concerto; é uma festa Rema”, anunciou cheio de energia na abertura da atuação. Ainda assim foi difícil convencer os festivaleiros presentes, a maioria dos quais parecia não estar familiarizados com o repertório do cantor. “Esta deve ser a única que conheço”, afirmava a certa altura uma espectadora a propósito de Secondhand, dueto com Don Tolliver.

Não era verdade, uma vez que a maior parte do público se mostrou familiarizada com Calm Down, sucesso maior do cantor impulsionado nas rádios por uma versão participação de Selena Gomez. “Estão tímidos?”, questionou Rema, sem obter grande resposta. Pelas 20h00, com o espetáculo de aviação criado na edição deste ano a aproximar-se, o cantor foi mesmo informado pela organização de que o seu tempo se esgotara. Assim sendo, jogou a última cartada – Ozeba, ritmo dançável e hiperativo, que finalmente interpelou os milhares de espectadores presentes (depois disto, ainda se ouviram em vão protestos para que a “festa” continuasse).
Tarefa inglória teve ainda a espanhola Lola Índigo, colocada no palco secundário em plena hora de jantar e a dividir atenções com outro ilustre do rap nacional, Carlão no Palco Music Valley. Pese embora as dificuldades (a que se juntou os disparos de fogo de artifício a meio da atuação – o festival deveria repensar esta questão por respeito aos artistas), a cantora e bailarina de Granada deu boa réplica, convencendo os poucos que a viam a entrar no espírito da música e da dança. “Sempre foi o meu sonho atuar no Rock in Rio”, disse a intérprete de Ya No Quiero Ná orelhudo tema funk. Mereceu uma oportunidade futura, se não necessariamente num palco maior, pelo menos num horário mais decente.


Antes do debacle de 21 Savage, o ritmo da festa culminou também no Palco Super Bock com CeeLo Green, intérprete conhecido como a voz de Gnarls Barkley, o timbre no cruzamento do funk, soul, R&B e gospel americanos. Green, que bem vistas as coisas não tem um repertório a solo particularmente notável, surpreendeu ao optar por transformar o Rock in Rio no maior karaoke a céu aberto de Lisboa, um verdadeiro compêndio de hinos da rock e da pop clássica, com covers de tudo e um par de botas: Michael Jackson, Blur, Nirvana, Bon Jovi, Pussycat Dolls, The Sugarhill Gang, Paul McCartney, Usher – até Motorhead teve direito a uma versão de Ace of Spades.
A cereja no topo do bolo: os dois êxitos incontornáveis da carreira de Green – Fuck You ode revivalista e bem humorada a todos os corações partidos, e Crazy, tema de assinatura de Gnarls Barkley, que ainda hoje soa a um corpo estranho, à parte da pop mainstream de agora como de há 20 anos.
Festa feita, soltou-se o fogo de artifício, com o Rock in Rio a marcar o regresso já em 2028. Resta saber que festival será.