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Salman Rushdie no Coliseu do Porto: horas de espera para uma lição sobre a vida, a escrita e o "preferia que não" da morte

Ponto alto do Babell, Rushdie arrastou uma multidão, com longas e demoradas filas e segurança máxima. Falou do esfaqueamento, do pai e da escrita. Sobre a morte, citou Melville: "Preferia que não”.

Joana Moreira
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João Porfírio
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Nos dias que antecederam a subida ao palco, Salman Rushdie foi uma presença discreta no festival Babell. Sentado nas primeiras filas, ao lado da mulher, a poeta e escritora Rachel Eliza Griffiths, ouviu Margaret Atwood e Julian Barnes como um espectador entre espectadores. Havia quem o reconhecesse à passagem e cochichasse o seu nome, mas muitos poderiam cruzar-se com ele sem reparar. Apenas dois seguranças, sempre por perto, denunciavam que não se tratava de um visitante qualquer.

A postura recatada desfez-se por completo este domingo à noite, quando a escala do evento e a multidão ditaram um cenário bem diferente. O escritor britânico de origem indiana arrastou para o Coliseu do Porto três mil pessoas, filas que serpenteavam pelas ruas do centro da cidade e um dispositivo de segurança sem paralelo no festival literário da Fundação Livraria Lello, com coprodução da Câmara Municipal do Porto.

Um forte aparato policial cortava a Rua Passos Manuel, onde se situa o Coliseu do Porto. A organização recomendava a chegada com uma antecedência de “90 a 120 minutos”, pois os procedimentos de segurança incluíam revistas detalhadas e passagem por pórticos detetores de metais. Mas o processo minucioso acabou por revelar-se moroso e atrasou o fluxo de entradas, gerando impaciência de quem abdicava do jantar na esperança de ficar mais perto do autor de Os Versículos Satânicos (1988).

Se nas sessões regulares dos últimos dias já havia quem esperasse mais de uma hora, o interesse em torno do autor de 79 anos elevou a fasquia e três horas antes já se formava fila para a sessão marcada para as 21h30. A antecedência recomendada acabaria por não ser suficiente para escoar a tempo as três mil pessoas que esgotaram a sala e, à hora prevista para começar, apenas algumas centenas ocupavam os seus lugares. Às 22h15, quando o ator António Durães subiu ao palco para ler o primeiro excerto da obra de Rushdie, a fila de espera para entrar no edifício ainda se estendia até à Praça dos Poveiros, prosseguindo pela Rua de Santo Ildefonso, sem fim à vista.

O feitiço do cinema e a desconfiança dos adultos

Três quartos de hora depois do previsto, dois cálices de vinho do Porto eram finalmente colocados sobre a mesa no palco. De seguida, Alberto Manguel, o mestre de cerimónias, aproveitava para saudar o “maravilhoso festival que está a nascer”. “Acho que daqui a uns anos vai ser o mais importante da Europa”, profetizava.

Por fim, Salman Rushdie. Entrou no palco sob uma ovação de largos segundos, acompanhada pelos acordes de Over the Rainbow. A voz de Judy Garland não foi acidental e acabaria por ditar o mote de grande parte da conversa. Manguel quis explorar a influência do filme O Feiticeiro de Oz (1939) na vida de Rushdie, que confirmou o impacto da obra que o inspirou a escrever a sua primeira história. Era um conto “sobre um rapaz como eu, numa cidade como a minha, que estava a passear e vai ao início do arco-íris, não ao fim”, recordou, evocando o seu crescimento numa Bombaim obcecada pela sétima arte. “É mais divertida do que qualquer outra cidade na Índia por causa da indústria do cinema. Toda a gente compra o jornal e as primeiras quatro páginas são sobre notícias internacionais”, relatou. Sobre a grande lição de O Feiticeiro de Oz, simplificou: “O ponto da história é que os adultos não são de confiar. Há uma criança com o seu cão, o cão é ameaçado por aquela senhora horrorosa e nem os tios, ninguém a consegue proteger. O Feiticeiro é uma fraude. E, claro, a Bruxa é má. Todos os adultos no filme são maus”.

O tom da conversa tornou-se mais intimista quando Alberto Manguel guiou o autor em direção às suas memórias de família. Questionado sobre a figura paterna, Rushdie foi sincero: “O meu pai… não quero falar muito dele, mas teve um problema com o álcool que tornou difícil estar perto dele”. Ainda assim, “era um excelente pai de crianças. Quando éramos pequenos, para as minhas irmãs e para mim, ele era divertido. Quando crescemos, desenvolvemos as nossas próprias cabeças…”. O autor admitiu que, no passado, talvez tenha sido “demasiado hostil” nas declarações sobre o pai. “Às vezes ele vem visitar-me em sonhos. E é muito mais simpático nos meus sonhos do que era na vida real”, confessou. Lembrou como o pai lhe contava versões simplificadas de histórias: “As Mil e Uma Noites estão cheias de sexo e violência. É como um filme de Tarantino”, comparou, provocando o riso do público. “O meu pai tirou o sexo e a violência e deixou o tapete voador. Aliás, ele inventou o tapete voador, porque n’ As Mil e Uma Noites originais não há tapete voador”, gracejou.

Já com vinte minutos de conversa, o público ainda entrava para as galerias mais altas do Coliseu, provocando algum ruído. Alheio a isso, Rushdie discorria sobre o seu método de trabalho, demonstrando um profundo respeito pelo ofício da escrita. A propósito de William Shakespeare, destacou a “velocidade a que escrevia peças que as pessoas dariam todos os dentes para conseguir escrever”. Saberia o dramaturgo inglês o tamanho do seu talento?, questionou Manguel. “Acho que não se pode ser tão bom e não saber”, considerou. “Quando estamos no nosso quarto secreto, sabemos quando somos bons e quando não somos tão bons”, acredita. Até porque “se não sabes quando é bom, não sabes quando é mau.”

Ainda assim, o autor, que tem sido apontado repetidamente como um dos favoritos ao Prémio Nobel da Literatura, fez questão de notar que esse autoconhecimento não se acumula como uma fórmula. Aliás, ao escrever um livro, aprende-se “quase nada” que sirva de experiência para o próximo, dado que cada obra é um desafio inteiramente novo. “Quando escrevemos um livro, o que aprendemos é como escrever aquele livro. Depois de sair das nossas mãos, já não nos pertence.” Criticou a tentação de rever o passado, exemplificando com um poema famoso cujo autor alterou o verso “temos de nos amar uns aos outros ou morrer” para “temos de nos amar uns aos outros e morrer”, classificando a mudança como “um comentário muito banal”. O seu conselho é claro: “resistir à tentação” de visitar obras já publicadas.

Num discurso bem-humorado, descreveu a sua relação com os tradutores. “Os tradutores apanham repetições como ninguém”, notou, recordando um episódio em que um tradutor dinamarquês lhe escreveu, “muito educadamente”, a apontar como em duas páginas de romances distintos uma personagem “completamente diferente” dizia “exatamente a mesma coisa”. Perguntava-lhe qual era a intenção. “Tive de fingir que fiz de propósito”, gracejou, arrancando gargalhadas à plateia.

Nesses largos minutos dedicados ao ofício da escrita, Rushdie partilhou também como lida com os bloqueios criativos: “Estamos sempre a errar, ficamos emperrados, as engrenagens param e não conseguimos ver para a frente. O que aprendi é que o erro não é ali, é em algo que aconteceu antes. Um passo em falso, algures, que uma página depois ou 50 páginas depois emperra a história. É preciso ir atrás e encontrar. Descobrindo, tudo flui de novo.” E assumiu o seu desapego comercial: “A ideia de que ia vender milhões de exemplares nunca me passou pela cabeça.”

O confronto ficcionado com o homem que o tentou matar

Foi já perto do final da sessão que surgiu, inevitavelmente, o tema Os Versículos Satânicos. Não o livro em si, mas o esfaqueamento de que Rushdie foi alvo em agosto de 2022, durante um evento na Chautauqua Institution, em Nova Iorque. O ataque, perpetrado pelo libano-americano Hadi Matar, resgatou uma perseguição antiga: a fatwa decretada a 14 de fevereiro de 1989 pelo então líder supremo do Irão, o ayatollah Khomeini, depois de ter interpretado a obra como uma blasfémia contra o Alcorão e Maomé. Na altura, a sentença de morte ordenava aos muçulmanos de todo o mundo a execução do escritor e oferecia uma recompensa de cerca de três milhões de dólares a quem a cumprisse. Três décadas depois, a ameaça radical materializava-se no ataque que quase lhe tirou a vida e lhe deixou lesões profundas.

No livro onde reflete sobre o ataque de que foi alvo em 2022, Rushdie optou por inventar um diálogo com o seu próprio atacante: “Sou um romancista, porque não invento? Quero imaginar-me na sua pele e usar o talento que tenho para o fazer. Deixa-me ver como é que um tipo de 24 anos que, pela sua própria confissão, não leu nada do que eu fiz, não tem qualquer registo criminal, vai do zero ao assassinato, para tentar matar alguém que não conhece"

Alberto Manguel recordou essa “coisa terrível”, que assombra cada presença pública de Rushdie, e que derivou no livro Faca (editado em Portugal pela Dom Quixote em 2024), onde o escritor reflete sobre essa experiência de quase morte, optando por ficcionar um confronto com o seu agressor. Um “diálogo brilhante”, como definiu Manguel, que convidou o escritor britânico a desvendar a decisão de incluir o atacante na narrativa através de uma conversa inventada.

“Claramente, uma das personagens importantes na história era o atacante e seria um erro para a história não lhe dar voz. Pensei até ir à prisão e pedir uma reunião com ele. A minha mulher não achou que fosse boa ideia. Mas depois pensei: mesmo que ele concordasse, o que tiraria dali? Ele não ia abrir o coração comigo, pois não? Então o que teria era uma série de clichés que eu conseguia prever. Pensei: na verdade, sou um romancista, porque não invento? Assim pertence-me. Quero imaginar-me na sua pele e usar o talento que tenho para o fazer. Deixa-me ver como é que um tipo de 24 anos que, pela sua própria confissão, não leu nada do que eu fiz, não tem qualquer registo criminal, vai do zero ao assassinato, a tentar matar alguém que não conhece. É intrigante para mim, não é?”

Assim nasceu o único capítulo de ficção do livro de memórias. “Claro que, para ser justo, tenho de lhe dar boas falas. Ele não pode ser estúpido — quer dizer, pode ser um pouco estúpido —, mas temos de fazer com que os pontos de vista pareçam possíveis”, sorriu. O autor comentou ainda a receção da crítica: “É interessante que, quando o livro saiu, houve muitas pessoas que acharam que aquilo era o melhor capítulo do livro. Um ou dois críticos acharam que era o capítulo mais fraco. Isto só prova o problema dos críticos.”

A verdade é que muitos poderiam temer que Rushdie nunca mais regressasse à escrita após o ataque, mas o autor provou o contrário em Faca e com o seu rápido retorno à ficção através de uma coletânea de contos que espelha a sua força literária. Interrogado sobre a escrita de cariz político, clarificou a sua posição: “Não quero escrever ficção polémica ou política, quero escrever ficção que tome em consideração tudo o que faz o ser humano ser o que é.”

Para ilustrar o seu ponto de vista, recorreu à história da literatura: “Se olharmos para trás, para Jane Austen, a sua carreira é contemporânea das guerras napoleónicas e quase não há menção desse facto histórico colossal. A função dos soldados é vestir uniformes e ter bom aspeto em festas. Hoje, a diferença entre vida privada e pública quase desapareceu, a pública colide com a privada quase todos os dias. Essa dimensão tem de ser uma das partes da explicação das personagens, mas não a mais importante. Amor, trabalho, classe, dinheiro, religião, tudo compõe a personagem, e a forma como é impactada por acontecimentos públicos também.”

A fechar a conversa, foi questionado sobre o medo da morte. O escritor admitiu já ter olhado para o assunto e que “não é bom”, rematando com ironia através de uma referência literária: “O Bartleby, de Herman Melville, diz, sempre que lhe pedem para fazer alguma coisa: ‘preferia que não’. Essa é a minha visão da morte. Preferia que não.”

Questionado sobre se tem medo da morte, o autor de "Faca" recorreu à ironia de Herman Melville para desarmar o tema perante um Coliseu esgotado: “Sempre que pedem ao Bartleby para fazer alguma coisa, ele diz: ‘preferia que não’. Essa é a minha visão da morte”.

Pedro Pinto, administrador da Lello: “O nosso projeto para o território não se esgota no Babell”

A sessão durou exatamente 49 minutos. Para muitos soube a pouco, mas para outros a oportunidade de ver o autor ao vivo superou qualquer contratempo. “Fez-se um momento muito especial para a cidade”, considerou Pedro Pinto, administrador da Fundação Livraria Lello, em declarações ao Observador, à saída. Preferindo não revelar qual o seu livro favorito do autor (“Não quero estar a dar títulos por uma razão que não é a razão principal”), destacou a “emoção” vivida no Coliseu.

Confrontado com as longas filas e com o facto de haver pessoas ainda a entrar com o evento a decorrer, desvalorizou o tema. “Nestas coisas é muito fácil falar quando se está de fora. Eu não estou na operação. Acompanho o que se passa, tudo com o meu conhecimento na estratégia, mas no dia a dia… Por exemplo, as pessoas tiraram os cintos, mas tiraram os cintos voluntariamente. Depois, uma senhora tinha uma máquina fotográfica e isso demora logo quatro ou cinco minutos. E as contas depois não encaixam”, justificou. “Nestas coisas é preciso bom senso e acho que toda a equipa de segurança liderada pelas forças policiais esteve extraordinária e correu tudo bem. Também era importante terminar bem.”

Mesmo com tom de fecho, o administrador da Lello, que investiu mais de três milhões de euros no festival, preferiu não assumir um compromisso firme em relação a uma segunda edição: “O nosso projeto para o território não se esgota no Babell nem em mais situações deste género. Temos o caminho da Arte, temos muitas coisas para fazer.”

O festival literário Babell termina esta segunda-feira, com, entre outros eventos, o Colóquio: “Leitura, Cidadania & Bibliotecas”, às 14h, uma conversa entre os escritores Gonçalo M. Tavares e Lídia Jorge, às 16h, e “Aparição”, um monólogo de Luís Osório sobre escritores, às 21h30, na Torre dos Clérigos.