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(A) :: João Moreira da Silva, um woke ao espelho

João Moreira da Silva, um woke ao espelho

Muitas vezes as pessoas woke, postas frente a um espelho, acabam por iludir-se a si próprias e por se embaraçar nas suas próprias ideias. João Moreira da Silva acabou, sem querer, de nos mostrar como

João Pedro Marques
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No último Domingo, no Público, João Moreira da Silva, um senhor woke que faz um doutoramento em Inglaterra e que às vezes escreve nos jornais, criticou o enunciado dos exames das disciplinas de História A e de História da Cultura e das Artes, e designou-os por “exames coloniais”.

Criticou-os em primeiro lugar porque o enunciado do exame de História A pretendia que os alunos tomassem como correcta a afirmação de que os portugueses estiveram na origem “da intensificação dos contactos entre povos e culturas, suscitando uma primeira globalização”, e o exame de História da Cultura e das Artes apresentava Portugal como “a primeira nação globalizadora”. Ora, e ainda que reconhecendo que os Descobrimentos dos portugueses contribuíram “para a ligação mais sistemática entre diferentes continentes”, Moreira da Silva, julgando estar a dar-nos grandes novidades, apressou-se a sublinhar que, para além das navegações espanholas terem sido contemporâneas das portuguesas, também “já existiam anteriormente vastas redes de circulação de pessoas, mercadorias e conhecimentos, como a Rota da Seda, o mundo islâmico, o Império Mongol ou as expedições chinesas da dinastia Ming que percorreram o Índico até África no princípio do século XV”. Por isso, contestou a ideia de “primeira globalização” atribuível aos homens que iam nas caravelas e naus portuguesas, e concluiu que “a criação de um mundo em que se realizam trocas e contactos entre pontos geográficos distantes não pertence aos portugueses, mas a muitos outros povos do mundo”.

Em segundo lugar, João Moreira da Silva criticou o facto de a ideia de “intensificação dos contactos entre povos e culturas” promovida pelos portugueses, ter sido suscitada, na pergunta dos exames, sem uma correspondente referência às violências que esses mesmos portugueses praticaram. Moreira da Silva considerou que os que elaboraram os enunciados desses exames, “silencia(ram), engenhosamente, o envolvimento de Portugal na inauguração do tráfico transatlântico, na ocupação de terras de povos indígenas e de inúmeros outros actos de subjugação que ocorreram no contexto do colonialismo”. E concluiu essa sua critica afirmando que ambos os enunciados decorriam de uma “leitura nacionalista (da História)” que “celebra(va) a história da expansão imperial como um movimento benigno e de mero avanço tecnológico”. Moreira da Silva escreveu, ainda, que “a questão da violência colonial” foi “deliberadamente” (sic) omitida em ambos os enunciados. Ou seja, considerou que a falta de referência a certos factos constitui prova de uma vontade de os esconder, de deturpar processos históricos e de tornar benigno o que, na verdade, foi brutal.

É provável que muitos leitores, irritados ou divertidos com a ingenuidade e o pendor para o disparate dos raciocínios de João Moreira da Silva não reparem naquilo que é essencial, isto é, que, na sua sanha anti-portuguesa, anti-patriota e masoquista, o referido Moreira da Silva faz, e em muito maior escala, aquilo que critica aos autores dos enunciados dois exames.

Eu passo a explicar. Neste seu artigo no Público, que é muito mais extenso e detalhado do que o enunciado de duas perguntas de exame — e permitiria, portanto, outros voos, referências e explicações — Moreira da Silva mencionou as trocas humanas, mercantis e culturais possibilitadas pela expansão muçulmana, pelo Império Mongol, pela Rota da Seda, mas nunca referiu a brutalidade e mortandade que acompanhou tudo isso — ou seja, omitiu-as. Fará Moreira da Silva uma pálida ideia do nível de violência inerente ao estabelecimento do Império Mongol? Sonhará com o número de mortos causados pela expansão muçulmana e com a manutenção da Rota da Seda? Imaginará, por acaso, que, ao invés do que os portugueses fizeram em África, os conquistadores asiáticos não se apropriavam das melhores terras que conquistavam? Saberá que os mongóis de Gengis-Khan, como vários outros povos das estepes, convertiam certas áreas urbanas em pastagens e que chegaram a desviar o curso de rios para inundar e conquistar cidades? Estará a par de que para escalar as muralhas das cidades chinesas, esses mongóis, que, inicialmente, não dispunham de catapultas e de outros engenhos de cerco, arregimentavam multidões de camponeses das imediações, obrigavam-nos a encabeçar o ataque às fortificações e, depois, trepavam pelas pilhas de cadáveres para chegar às ameias e galgá-las? Saberá que o estabelecimento e a continuidade da Rota da Seda implicou várias guerras e que essa rota foi diversas vezes interrompida devido a invasões e conflitos armados? Terá conhecimento de que só as campanhas militares de Tamerlão, por exemplo — Tamerlão que, de certa forma, concentra na sua pessoa as tradições e culturas muçulmana e turco-mongol —, terão causado 16 milhões de mortos? E de que na época em que as caravelas portuguesas desembarcaram em Lagos 235 africanos escravizados, conforme se narra na Crónica de Guiné, de Zurara — desembarque que tanto mortifica o wokismo de Moreira da Silva e seus compagnons de route —, já os traficantes muçulmanos tinham extraído da África subsariana qualquer coisa como 5,7 milhões — repito: 5,7 milhões — de escravos negros? Saberá que a esse número há que acrescentar o dos outros muitos milhões que o mundo islâmico tinha ido buscar à Europa, à Ásia Central e a outras partes do Oriente, perfazendo um total que viria a crescer nos séculos seguintes e que é muitíssimo superior aos 4,5 milhões de escravos que foram, como Moreira da Silva reconhece, transportados em navios portugueses “na era do tráfico transatlântico”?

Todavia, se esses 4,5 milhões de pessoas transportadas, como escravos, em navios portugueses deixam Moreira da Silva e os outros woke transidos e embasbacados de horror, o número de escravos traficados para o mundo muçulmano (30 ou 40 milhões?) não lhes causa a mínima ruga nas camisas. Se as brutalidades que muitos portugueses fizeram em Angola os fazem arrepanhar-se de indignação e dor, os milhões de mortos causados pelas expansões árabes ou mongóis são-lhes indiferentes e, pior, nem sequer chegam aos seus radares.

Se eu tivesse os preconceitos e o espartilho mental de João Moreira da Silva, se raciocinasse e avaliasse as coisas no mesmo comprimento de onda, então diria que essa falta de registo nos radares, essas omissões, eram propositadas e que o facto de não haver, nesse texto, qualquer alusão às brutais e enormes violências que acompanharam o estabelecimento das redes comerciais e culturais no seio do Império Mongol e do mundo islâmico provaria, sem margem para dúvidas, que Moreira da Silva estava a manipular “engenhosamentes” e “deliberadamente” os factos e a História, suprimindo a violência dos outros povos para fazer sobressair, descontextualizada, a dos europeus, e, no caso vertente, a dos portugueses. Porém, eu sei que essas omissões nem sempre são malévolas e deliberadas. Muitas vezes resultam da tóxica combinação de um alto teor de ignorância atrevida, da vontade auto-punitiva de flagelar o Ocidente e de um desejo semi-consciente de pintar os mundos não-ocidentais como belos oásis de cordialidade e doçura. É aí, na combinação tóxica desses três vectores, que reside o vício, o veneno, o mecanismo essencial — e também, felizmente, a fragilidade —, do pensamento woke. Isso é a tal ponto compulsivo, a tal ponto venenoso, que muitas vezes as pessoas woke, postas frente a um espelho, acabam por iludir-se a si próprias e por se embaraçar nas suas próprias ideias. João Moreira da Silva acabou, sem querer, de nos mostrar como isso se faz.