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(A) :: Estamos todos convocados

Estamos todos convocados

Durante um Mundial, Portugal lembra-se de que pode ganhar à França. No resto do ano, convence-se de que nunca conseguirá competir com a Irlanda

Rodrigo Saraiva
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“O importante era passar.” Durante um Mundial, esta frase faz sentido. Num país, nunca pode ser uma ambição. Num Mundial, Portugal lembra-se de que pode ganhar à França. No resto do ano, convence-se de que nunca conseguirá competir com a Irlanda. Os Mundiais e os Europeus têm algo de especial. Durante um mês, Portugal transforma-se no país que eu gostava que fosse durante os outros onze.

Ninguém olha para a nossa dimensão geográfica, faz contas ao PIB ou diz que somos um país demasiado pequeno para sonhar. Quando a bola começa a rolar, ninguém pede à Selecção que faça boa figura. Pedimos que ganhe à França, à Argentina, ao Brasil ou a quem aparecer pela frente. No futebol somos naturalmente ambiciosos. Noutras dimensões da vida passamos demasiado tempo a explicar porque é que não conseguimos ser mais. Curioso, não é?

É quase como se existissem dois Portugais. Um que acredita que pode discutir um Mundial com qualquer selecção do planeta. E outro que se convenceu de que nunca conseguirá competir com a Irlanda, com os Países Baixos, com a Suíça ou com a Dinamarca. Como se para existir ambição fosse necessário uma bola a rolar.

No futebol aceitamos o risco de atacar. Na economia preferimos manter a posse de bola. No futebol queremos marcar mais um. Na política parece que nos basta sofrer menos um. Na saúde celebramos quando a fila encolhe. Quando devíamos celebrar quem é tratado a tempo. Na educação discutimos demasiado o sistema. Quando devíamos preocupar-nos muito mais com o sucesso de cada aluno.

Portugal habituou-se a celebrar mínimos. Crescer um bocadinho. Exportar um bocadinho. Simplificar alguma burocracia. É sempre “um bocadinho”. Nunca “vamos ganhar”. E enquanto discutimos a táctica, o cronómetro continua a contar.

As equipas que fazem história não entram em campo para gerir o empate. Entram para procurar o golo seguinte. Portugal passa demasiado tempo em aquecimento.

Aquecemos para a reforma do Estado. Aquecemos para a reforma da Justiça. Aquecemos para simplificar licenciamentos. Aquecemos para melhorar o SNS. Aquecemos para modernizar a escola. Aquecemos tanto que, às vezes, parece que confundimos o aquecimento com o próprio jogo.

No futebol percebemos uma coisa que esquecemos na política: o talento não é suficiente se jogarmos presos ao medo. Temos empresários capazes de competir em qualquer mercado. Temos investigadores reconhecidos em qualquer universidade. Temos trabalhadores disputados em todo o mundo. Temos jovens extraordinários. E, no entanto, há milhões de portugueses que continuam a jogar por Portugal, mas já não jogam em Portugal.

No futebol exportar talento é um sinal de qualidade. Num país, começa a ser um problema quando os melhores sentem que só conseguem ser titulares mudando de campeonato. Não perdemos apenas jogadores. Perdemos ideias, empresas, famílias e futuro.

O problema nunca foi falta de talento. Foi o relvado onde insistimos em obrigá-lo a jogar. Quando um jogador marca um golo, ninguém lhe pede desculpa por ter sido ambicioso. Quando um empresário cria riqueza, ainda há quem olhe para ele como se tivesse cometido uma falta. Quando alguém quer crescer, inovar ou investir, o país responde demasiadas vezes com mais um formulário, mais uma licença, mais uma autorização, mais uma taxa. É como jogar sempre com um defesa agarrado à camisola.

Há uma velha máxima do futebol que diz que quem joga para não perder acaba muitas vezes por sofrer golos. Também serve para os países. Os que vivem obcecados em distribuir o pouco que têm acabam por produzir pouco para distribuir. Os países que castigam quem cria acabam por exportar precisamente aqueles de quem mais precisam.

Num grande jogo de futebol, o melhor árbitro é quase sempre aquele de quem menos nos lembramos. Está lá, faz cumprir as regras, protege quem joga, pune quem faz falta. E deixa o jogo fluir. Talvez devêssemos pedir o mesmo ao Estado.

A Selecção lembra-nos ainda outra coisa: quando entram em campo, ninguém pergunta de que clube vem cada jogador. É o mérito que veste a camisola. Devia ser assim em muito mais aspectos da nossa vida comum.

Portugal já passou por muitas crises: pela bancarrota, pandemia e inflação. Mas um país não pode viver eternamente satisfeito por ter passado mais uma fase. O mundo não espera por quem continua em aquecimento. Também as nações acabam por ser eliminadas quando confundem prudência com resignação. E estabilidade com estagnação.

Portugal já mostrou muitas vezes que consegue jogar olhos nos olhos com os melhores. Está na altura de fazer o mesmo fora do relvado. Este Mundial acabará daqui a umas semanas, mas o jogo mais importante começa no dia seguinte ao apito final. E para esse, estamos todos convocados.