1 Yesteryear
De acordo com Caro Claire Burke, Yesteryear tem como objetivo fazer uma crítica ao papel desempenhado pela religião no movimento das tradwives, e que é habitualmente considerado como fundamentalista. Optou até por não identificar a variante específica de Cristianismo de Natalie, a protagonista do livro:
“Fiquei obcecada com a ideia de que o fundamentalismo é bastante consistente para as mulheres, não só em todas as vertentes do Cristianismo, mas em todas as religiões. Há muito mais pontos em comum entre os fundamentalistas do que aquilo que os separa.”
O propósito de Burke não é, porém, conseguido. Natalie não tem uma relação pensada e profunda com a religião e relaciona-se com ela, sobretudo, em termos transacionais. Quase tudo o que faz ao longo do livro não decorre do facto de ter uma convicção religiosa profunda (ou fundamentalista), mas do facto de ser uma pessoa incrivelmente competitiva e desagradável.
Ainda assim, percebemos, no final do livro, a que tipo de fundamentalismo Caro Burke se queria referir. É que a autora não se inspirou apenas em Hannah Neeleman. Burke tinha igualmente em vista Ruby Franke, uma mãe influencer que foi condenada por maus-tratos dos filhos mais novos em 2024 e que já motivou múltiplos documentários. Tanto Ruby como Hannah são membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e parece ser este o fundamentalismo que Burke quer visar: é que, apesar de representarem apenas 2% da população dos Estados Unidos, os mórmons têm um peso desproporcional no algoritmo das redes sociais. E a razão é o proselitismo.
2 Proselitismo via internet
Os mórmons são reconhecidos pelo cumprimento fiel da obrigação de proselitismo, com os seus jovens membros a realizar missões por todo o mundo. Mas a revolução digital permitiu reenquadrar esta obrigação religiosa e foi rapidamente apropriada como estratégia de missionação: seria possível usar as redes sociais para divulgar, de forma eficaz, a palavra de Cristo e a missão da Igreja.
Foi com este objetivo que várias mulheres mórmons se tornaram influencers na última década, criando canais para divulgar a vida doméstica e a dedicação à família e inspirar outras mulheres para uma vida perfeita e mais próxima de Cristo. Foi isto que Ruby Franke fez quando criou uma conta no Youtube em 2015, onde partilhou, ao longo dos anos seguintes, a sua vida familiar. Com milhões de visualizações, o canal tornou-se uma enorme fonte de rendimento, mas o marido diz que nunca foi o dinheiro a motivar Ruby: foi sempre a vontade de mostrar que era capaz de ser uma mãe perfeita e, simultaneamente, inspirar religiosamente a sua audiência. A popularidade de Ruby Franke continuou a crescer e talvez tenha sido a pressão provocada pela vida digital que conduziu ao descarrilamento da sua saúde mental.
De facto, saber se é a internet que deixa as pessoas malucas ou se é o fundamentalismo que abre essa porta não é fácil de responder. A verdade é que Franke acabou por se aproximar de Jodi Hildebrandt, que acreditava ter sido escolhida por Deus para desempenhar uma missão especial no fim dos tempos que estavam próximos (estávamos na pandemia) e as coisas descarrilaram muito rapidamente para algo próximo do que habitualmente se designa como fundamentalismo religioso.
3 Outros fundamentalismos
A questão do fundamentalismo religioso é sempre levantada a propósito das tradwives e das influencers que são tradwives, em particular pela dedicação ao marido, o que colocaria, supostamente, as mulheres numa posição de submissão. A polémica em torno de Hannah Neeleman começou precisamente depois de uma entrevista ao The Sunday Times, com a jornalista a sugerir essa subjugação feminina e a falta de liberdade de Hannah. (Curiosamente, o exemplo de Rudy Franke revela o contrário, pois aqui o fundamentalismo era usado por Jodi Hildebrandt para que as mulheres exercessem o seu poder sobre os homens.)
Para muitos, o fundamentalismo torna-se, assim, alvo de crítica por ser entendido como a razão que leva as mulheres a subjugarem-se a regras que realmente não desejam. No entanto, se aceitarmos esse entendimento, vemo-nos obrigados a abandonar a obsessão com as tradwives e a estar atentos a outros tipos de fundamentalismo que têm animado o espaço público nos últimos anos.
Pensemos no exemplo da cantora inglesa Lilly Allen, que esteve casada com o ator David Harbour durante 5 anos e, a pedido dele, aceitou uma relação não-monogâmica. No magnífico álbum que lançou após o fim da relação, Lilly reconhece não desejava estar com outras pessoas, mas não queria que ele a abandonasse e, como diz em “Nonmonogamummy”, convenceu-se a “estar aberta”. As músicas de West End Girl contam a história do fim do seu casamento: Lilly Allen descobriu que, apesar de o acordo ser bastante favorável a David, ainda assim ele não o cumpriu e Lilly pediu o divórcio.
Também a escritora feminista Lindy West foi convencida pelo marido a aceitar uma relação não-monogâmica. Conhecida por defender o movimento “Body positivity” (que promove uma visão positiva de todos os corpos, independentemente do tamanho, da forma, da cor da pele, do género e das capacidades físicas), West escreve, de forma divertida, sobre ser uma pessoa gorda e orgulhava-se de como, ainda assim, conseguiu casar com um homem bem-parecido. Mas no seu livro mais recente, publicado em março deste ano (mas ainda sem tradução entre nós), conta como o marido, apesar de a ter forçado a um acordo que lhe era bastante favorável, ainda assim não o cumpriu. Apaixonou-se por outra pessoa e Lindy West, ao contrário de Lilly Allen, foi de novo convencida, desta vez, a tornar o seu casamento numa relação poliamorosa.
É, assim, curioso que haja tanta preocupação com o fundamentalismo das tradwives que romantizam o passado. Pela minha parte, penso em Bonnie Blue, a estrela da OnlyFans que agora está grávida e decidiu organizar uma baby shower sexual. Assustadores são os fundamentalismos que romantizam o presente.