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(A) :: Uma autarca de 35 anos está a dividir o Japão por gozar a licença de maternidade: “Eu não posso tornar-me um homem"

Uma autarca de 35 anos está a dividir o Japão por gozar a licença de maternidade: “Eu não posso tornar-me um homem"

Tem 35 anos, sucedeu a um homem de 71 — e tem deixado outros zangados. A decisão de Shoko Kawata, numa pacata cidade a 450 km de Tóquio, de tirar a licença de maternidade gerou debate no país.

Mariana Furtado
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Já era a autarca japonesa mais nova de sempre e a primeira mulher a assumir a cidade de Yawata. Depois, tornou-se provavelmente a única presidente de uma câmara no país a gozar uma licença de maternidade. A decisão, anunciada em maio, tem mantido o debate vivo até hoje, sobretudo entre os homens — no país que elegeu a primeira primeira-ministra no ano passado.

Shoko Kawata foi eleita em 2023 com promessas de combater o despovoamento com uma agenda focada na expansão dos cuidados médicos infantis e na promoção do turismo. A autarca de 35 anos, economista de formação, espera o seu bebé para meados de setembro — e é por volta dessa altura que irá aproveitar a lei e tirar 16 semanas de licença.

Ao descobrir que estava grávida, a autarca decidiu — após articular com a sua equipa — tirar dois meses de licença antes e dois depois do parto. Durante a sua ausência, as decisões mais importantes continuarão sob a sua tutela, mas a gestão diária de Yawata — cidade a mais de 450 quilómetros de Tóquio — ficará a cargo de um assistente designado pela própria. Segundo a CNN Internacional, a autarca pretende acompanhar os e-mails a partir de casa e prevê regressar ao cargo em dezembro.

O anúncio da decisão, em maio, gerou controvérsia nas redes sociais no Japão. Vários utilizadores criticaram a opção da autarca, defendendo que a ausência prolongada de uma líder eleita numa autarquia constitui má gestão do dinheiro dos contribuintes.

Numa publicação partilhada na sexta-feira no X, a autarca explicou que sentiu necessidade de fundamentar melhor a sua decisão. “Considero que, independentemente da posição ou profissão, e sem distinção de género, devemos aspirar a uma sociedade em que seja possível conciliar os eventos da vida com a carreira, permitindo que todos possam demonstrar as suas capacidades”, escreveu, assumindo que avançou com a divulgação pública com o “intuito de servir de precedente”.

“Dado que se trata de um caso com poucos precedentes a nível nacional, e com o intuito de contribuir para a criação de uma sociedade em que, no futuro, pessoas em situações semelhantes possam conciliar com tranquilidade a maternidade e a educação dos filhos com o trabalho, não tencionamos proceder a qualquer redução da remuneração”, consta ainda na mensagem.

https://twitter.com/shoko_kawata/status/2070501184981639444

Em Yawata, a notícia dividiu os cerca de 70 mil habitantes da cidade no oeste do Japão famosa pelos seus templos, plantações de chá e cerejeiras.

Até ao momento, a autarquia contabilizou o impacto da decisão nos munícipes: recebeu cerca de 90 mensagens de apoio a Kawata, contra 70 manifestações de oposição.

“Os sistemas podem ser mudados, mas as pessoas não”, defendeu Kawata, numa conferência de imprensa convocada de urgência pela autarca para explicar a sua licença de maternidade, logo após a gravidez ter saltado para as manchetes dos media japoneses. “Eu não posso tornar-me um homem”, disse ainda.

Mais tarde, numa entrevista ao The Guardian por videochamada, Kawata admitiu a sua surpresa face ao impacto do anúncio: “Não esperava que fosse tão polémico. Ainda existe a ideia de que, no trabalho, as pessoas devem sacrificar as suas vidas pessoais para se dedicarem à carreira”.

Embora a licença de maternidade esteja prevista para a função pública no Japão, o quadro legal que garanta a sua aplicação a titulares de cargos políticos é dúbio. À CNN Internacional, a professora de sociologia na Universidade de Tóquio, Sawako Shirahase, explica que a lei “não pressupõe que autarcas ou chefes de organismos públicos gozem a licença de maternidade”. Mas, “ao mesmo tempo, ninguém pode proibir alguém de o fazer… por isso, é uma zona muito cinzenta“, refere ainda a especialista.

Nas redes sociais, um dos maiores críticos da decisão foi Toshio Tamogami, general na reforma e político nacionalista. Através do X, manifestou o seu “desconforto” com o facto de “uma titular de um cargo público gozar uma ausência tão longa”. Mais tarde, numa entrevista citada pelo The New York Times, o militar reformado defendeu que as mulheres que planeiam ter filhos deveriam evitar candidatar-se a cargos políticos.

https://twitter.com/toshio_tamogami/status/2057953209986265414

Shoko Kawata conta com um percurso ligado às causas sociais e à política. Licenciada em Economia pela Universidade de Quioto, iniciou a carreira como assistente social na autarquia local e, mais tarde, assumiu funções como assessora política. Em 2023, foi eleita presidente da câmara de Yawata, sucedendo a um autarca de 71 anos.