A figura de László Krasznahorkai quase não cabe na pequena Sala Gemma, na cave da Livraria Lello, dedicada às joias mais preciosas: livros raros, manuscritos, primeiras edições. Alto, de cabelo branco e movimentos pausados, o escritor húngaro entra acompanhado pela filha e cumprimenta todos com cordialidade. Chegou ao Porto na noite anterior. É difícil não reparar primeiro na sua presença física: tem a estatura de um personagem saído de um romance, alguém simultaneamente imponente e distante, mas afável no trato.
A conversa de cerca de 30 minutos decorre em húngaro, mediada por um intérprete. Há sempre um pequeno intervalo entre a pergunta e a resposta, como se as palavras tivessem de atravessar várias fronteiras antes de chegar ao destino. Nem sempre o humor sobrevive à viagem. A ironia perde-se por vezes na tradução, confessa-nos a filha, mais tarde, enquanto o autor distribui autógrafos. Mas a inteligência e uma certa melancolia obstinada permanecem intactas.
Krasznahorkai está no Porto como convidado do festival literário Babell depois de, em outubro, ter recebido o Prémio Nobel da Literatura. Ainda assim, fala da distinção com uma espécie de incredulidade persistente. Talvez porque nunca gostou da ideia de ser “escritor”, quanto mais uma autoridade literária. Durante décadas repetiu que não se considera propriamente um profissional da escrita, mas um “corrector”, alguém condenado a tentar melhorar o livro anterior através do seguinte.
Nascido em 1954, na Hungria comunista, Krasznahorkai pertence a uma geração que viveu sob ditaduras, testemunhou o colapso de sistemas políticos e assistiu ao regresso de velhos fantasmas europeus sob novas formas. Por isso, quando lhe perguntamos sobre o futuro da Hungria depois da queda de Viktor Orbán, após mais de uma década no poder, a prudência não parece falsa modéstia nem pessimismo literário. Parece memória histórica.
Autor de romances como Tango de Satanás, Melancolia da Resistência ou Guerra e Guerra, frequentemente comparado a Kafka, Beckett ou Thomas Bernhard, Krasznahorkai construiu uma das obras mais singulares da literatura contemporânea — a sessão pública no festival portuense acontece este domingo, às 18h30. O Nobel chegou numa altura particularmente feliz para os leitores portugueses: no mesmo mês foi editada a versão portuguesa do mais recente romance de László Krasznahorkai, Herscht 07769 (Cavalo de Ferro), romance ambientado numa pequena localidade da Turíngia, onde a ascensão da extrema-direita serve de pano de fundo para uma inquietação mais profunda. Porque, como o próprio livro avisa logo nas primeiras páginas, “a questão aqui não é simplesmente política, mas sim abertamente existencial”.
No discurso de aceitação do Nobel, em Estocolmo, afirmou que as suas “reservas de esperança tinham chegado definitivamente ao fim”. Também a epígrafe deste livro assume que “a esperança é um erro”. Como se posiciona hoje em relação à esperança?
Infelizmente, não mudei de opinião sobre absolutamente nada. Continuo a pensar exatamente o mesmo. Mas deixe-me dizer-lhe, Joana, que esse livro… qual deles?
Herscht 07769.
Esse livro tem um lema que, de facto, sugere que a esperança é um erro. É verdade. No entanto, há aqui um duplo sentido. O primeiro é aquele que apreendemos à primeira vista, ao ler: a esperança é um erro, o pensamento correto exige que a evitemos. Contudo, neste livro, falamos de um erro na sua aceção literal. Um erro na criação. A física quântica, a mecânica quântica e a cosmologia explicam-no. Cientistas brilhantes destas áreas formularam a teoria de que, nos primeiríssimos segundos após a criação do Universo, gerou-se a mesma quantidade de matéria e de antimatéria. Havia uma equivalência absoluta nesses instantes iniciais. Imaginemos um milhão de partículas elementares de matéria e um milhão de partículas elementares de antimatéria. E é aí que surge o erro: após a criação desse milhão de partículas de matéria, gerou-se menos uma partícula de antimatéria. Esse desvio elementar foi o único erro. E foi assim que o mundo físico nasceu. A existência do mundo material é a consequência direta desse erro.
Portanto, o erro é a nossa esperança. O equívoco é a nossa génese. Nestes processos naturais extraordinariamente concentrados, há falhas constantes. Mas houve uma, crucial, no momento da criação. Não estamos, portanto, a falar da esperança no seu sentido moral ou psicológico. O mote deve ser interpretado assim: a nossa única e mecânica esperança reside nesse erro cósmico. E a minha perspetiva não mudou. Penso desta forma há décadas, pensava-o no passado e penso-o agora. Precisamos da esperança, da mesma forma que precisamos do erro.
Nas minhas manhãs difíceis, com chuva, céu enfadonho e cinzento, chego a pensar que, a qualquer momento, o processo sofrerá uma nova falha: menos uma partícula de matéria e o mundo material simplesmente desvanecer-se-á. Mas depois o sol nasce, brilha, e Mats Malm liga-me de Estocolmo a anunciar que venci o Prémio Nobel da Literatura. Nessa altura digo para mim mesmo: “Muito bem, vamos adiar este pessimismo. Vamos apenas rejubilar e celebrar.” Esta notícia traz-me felicidade, e agradeço-lhe por ter salvo o meu dia. Apenas um dia, mas salvou-o.

Ao ler os seus romances, fica a sensação de que, enquanto escritor — e talvez como indivíduo —, se sente atraído por esse erro, essa imperfeição, o desvio. As suas personagens são sempre, de algum modo, imperfeitas. Seria capaz de conceber uma personagem absolutamente perfeita ou é uma ideia que rejeita à partida?
As suas dúvidas assentam num lugar muito próprio. Nos meus livros não há heróis nem personagens imaculadas. E nunca haverá. Para ler algo assim, precisaria de procurar outro autor, provavelmente alguém dedicado a contos de fadas, onde consigo conceber a existência de uma figura sem falhas.
Essa ideia do conto de fadas é curiosa, até porque Susan Sontag o descreveu celebremente como o “mestre do apocalipse”. Nos seus romances, contudo, o apocalipse raramente surge como uma catástrofe futura, parece antes uma condição oculta e latente do próprio quotidiano. Reconhece-se nesta interpretação do apocalipse enquanto banalidade dos dias?
Acho que o apocalipse não é uma sentença que virá: pessoas, tenham medo, não façam nada de prejudicial, não persigam as mulheres dos outros homens porque haverá o dia seguinte ao apocalipse. Isso não vai acontecer, na minha perspetiva. Se voltarmos ao significado filosófico, o apocalipse é agora. Está na nossa realidade. Em cada um e em todos os momentos que vivemos, e para todos neste mundo, não importa se é na África, Ásia, Europa, ou América do Sul, ou América do Norte. Em cada um e em todos os momentos está a acontecer um apocalipse. Agora, tudo o que fazemos é pesado naquele preciso momento, e é adicionado ao número infinito de pessoas, daquela massa, e ao seu destino comum. Está tudo somado, todas as nossas ações. Portanto, sabe, este dia do juízo final está a acontecer agora mesmo. É contínuo.

O seu mais recente livro publicado em Portugal — Herscht 07769 (2025, Cavalo de Ferro) — será a porta de entrada na sua obra para muitos leitores, após o Nobel. A ação decorre numa pequena cidade da Alemanha de Leste, uma região emblemática da polarização política e da ascensão da extrema-direita. Sendo um escritor húngaro, o que o atraiu nesse cenário? Um espelho das forças que operavam na Hungria e no resto da Europa?
A extrema-direita sempre esteve latente e que tem vindo a ganhar força nas últimas décadas, tanto na Europa como no resto do mundo. Olhemos para a história política da América do Sul. Repare no que acontece nos Estados Unidos, com aquela figura surpreendente na liderança de uma das nações mais poderosas do mundo. Não lhe chamarei destrutivo; limito-me a dizer que é surpreendente. Lamento profundamente pelos meus amigos norte-americanos, que têm de passar por isto.
Mas este fenómeno não é exclusivo da América, está por todo o lado e ganha cada vez mais tração. Sentimo-lo na Europa por razões óbvias. Conhece perfeitamente a realidade da Alemanha e de França — onde existe um partido assumidamente neonazi. Na região de Brandenburgo, na Alemanha Oriental, os índices de popularidade deles chegaram aos 60%, décadas após a derrocada da Alemanha Nazi. Eles regressaram. Olhemos para as últimas eleições: foi impressionante ver o antigo território da RDA pintado integralmente com as cores da AfD. E o mesmo cenário repete-se na Hungria, na Polónia, na República Checa, na Eslováquia, em Itália. Não falarei de Portugal, porque conhece a vossa realidade melhor do que eu.
O fenómeno é global e está em expansão. Há um elemento caótico na história social e política contemporânea. Ninguém sabe o que nos reserva o dia de depois de amanhã. Podemos intuir o dia de amanhã, mas o passo seguinte é imprevisível, o que gera uma profunda incerteza coletiva. Além disso, o advento da era digital transformou-nos. Temos acesso instantâneo a tudo o que acontece, pelo menos ao nível do fluxo mediático, o que não significa que tenhamos um conhecimento real dos factos. Se dois comboios colidirem, ou se houver um tornado ou um tsunami, sabemos que o evento físico ocorreu. Mas quando se trata de fenómenos mais abstratos, como viragens políticas, a dúvida instala-se. Estaremos perante uma mudança real ou perante meras fake news?
E a questão ultrapassa a desinformação: prende-se com a nossa própria forma de interpretar a realidade. Perante um acidente de viação, haverá tantas interpretações quantas as testemunhas presentes. Se a única testemunha for uma idosa que estava calmamente a comer amendoins ou sementes de girassol, teremos apenas a sua perspetiva. Se nos limitarmos ao seu relato, nunca compreenderemos o ponto de vista dos restantes transeuntes ou do agente da polícia. Trata-se de um ângulo único: ela viu um acidente, dois feridos e a morte de uma criança. Contudo, para apreender a totalidade do que ocorreu numa fração de segundo, precisaríamos de harmonizar múltiplas perspetivas em simultâneo. Sem essa convergência, restam-nos apenas interpretações fragmentadas.
A nossa perceção da realidade é refém da subjetividade da experiência individual; depende inteiramente do lugar onde nos posicionamos. Se um jovem de ressaca presenciar o mesmo acidente, o seu relato diferirá radicalmente do da idosa, apesar de terem testemunhado o mesmo evento físico. A incerteza sobre o que constitui a realidade não deriva apenas das fake news — embora estas contribuam —, mas sim desta raiz profundamente subjetiva da nossa interpretação.
E qual é o seu posicionamento nesta engrenagem? Qual é o papel e a perspetiva do escritor, o seu lugar no mundo?
Para ser franco, o nosso papel atual é residual. Existem escritores excelentes cuja voz, amplificada pelos media, ainda ecoa na sociedade. No entanto, esse impacto sempre foi muito indireto, e hoje é cada vez mais difuso e incerto. Mais incertas ainda são as suas consequências. No meu caso, ou no de autores que escrevem em húngaro e noutras línguas de leitura exigente, estamos claramente a perder terreno e relevância. Há dias em que sinto que a minha relevância é nula, que não tenho qualquer impacto na descodificação do mundo e que não contribuo em nada para tornar a realidade inteligível. Digamos que tenho dias pares e dias ímpares. Nos dias pares, dão-nos um Prémio Nobel; nos dias ímpares, retiram-no. É uma alternância constante. Não, não me vão retirar o Nobel, não me interprete mal, foi apenas uma piada.
Seja como for, subsistem países com comunidades de leitores excecionais. Portugal é um desses casos raros. Existem autores portugueses tratados quase como semideuses; sempre me disseram que Portugal é um país de leitores. O mesmo acontece nalguns outros pontos da Europa. Contudo, mesmo nestas geografias, há uma queixa comum: estamos paulatinamente a esquecer o que a literatura significou no século XX. A linguagem mudou. O mercado exige narrativas curtas, de consumo rápido, com personagens lineares e mensagens fáceis de descodificar. Se esta transição se consolidar, o impacto da grande literatura desaparecerá. Pense em Thomas Bernhard, ou noutras referências do século passado como Rainer Maria Rilke, Fernando Pessoa, William Faulkner ou Thomas Pynchon. Parece que os esquecemos. E quando tentamos resgatá-los, enfrentamos o mesmo paradoxo que eu vivo: ou somos alvo de uma enorme sobrevalorização — que é manifestamente o meu caso, sinto-me sobrevalorizado —, ou passamos completamente despercebidos, sem qualquer hipótese de construir uma carreira literária.
Desde a viragem do milénio, a literatura sofreu uma mutação dramática imposta pelas dinâmicas do capitalismo, que exige a mercantilização de tudo. Hoje, numa livraria, a revolução e a dissidência política tornaram-se produtos comercializáveis — não ao estilo de Maio de 68, mas num formato de consumo rápido. Pedimos um produto de fusão e ele é-nos entregue. O mercado editorial adaptou-se a esta lógica, alterando drasticamente as tiragens. Analisemos o panorama das grandes revistas literárias francesas da segunda metade do século XIX. Quantos exemplares vendeu Herman Melville da primeira edição de Moby Dick? Tenho esse volume algures aqui em casa. Crê-se que foram encontrados cerca de 300 exemplares esquecidos num armazém em Inglaterra. Ninguém os queria; apodreceram lá. E porquê? Porque é um livro exigente, dotado de um estilo estilístico assombroso. Os poucos que restamos continuamos maravilhados com a sua leitura, capazes de ler três ou mais páginas de uma assentada. E esta estimativa já é bastante otimista: hoje em dia, um miúdo de nove ou dez anos, fruto do consumo digital e da fragmentação dos estímulos, não consegue manter a concentração ao longo de três páginas consecutivas. Por causa do tempo de atenção, do consumo digital.

É certo que vivemos numa cultura onde o tempo de atenção médio é inferior a 30 segundos, mas a Academia Sueca decidiu premiar um autor que escreve frases que se estendem ao longo de centenas de páginas. Encara esta sua opção estilística como um ato de resistência ou simplesmente como uma recusa em ceder às tendências de mercado?
Um escritor que se assume como tal nunca iria pelas tendências. Nunca. Basta pensar na Grécia Antiga, nunca obedeceram ao gosto da época. Pense em Sócrates. Recusou alinhar com as correntes dominantes e pagou o preço por isso, claro. A ideia de “tendência” é alheia à literatura. Que modas deveria seguir um compositor, um escultor ou um pintor? Se não for a moda de Deus, que tipo de compositor seria esse?
Para quem escreve?
É uma pergunta a que não consigo responder. Escrevo estes livros na tentativa de corrigir o meu primeiro romance. Fiquei tão insatisfeito com ele que acabei por escrever todos os seguintes. A minha intenção inicial era publicar um único livro, mas quando o abri após a publicação e o li, percebi que não era, de todo, a obra que idealizara. Escrevi o segundo na esperança de retificar o primeiro, mas não ficou melhor. Avancei para o terceiro à procura de uma evolução que acabou por não acontecer.
Foi aí que compreendi que nunca tinha desejado ser escritor ou assumir qualquer profissão pública. Na Hungria comunista anterior a 1989, em plena ditadura, os agentes da polícia abordavam-nos na rua para fiscalizar a identificação e perguntavam: “Qual é a sua profissão?” Após o quarto ou quinto livro publicado, vi-me na contingência de responder que era escritor. Mas a verdade é que nunca me senti como tal. Nunca me consegui projetar ao lado de figuras como Dante, Homero, Fernando Pessoa, Samuel Beckett ou Thomas Pynchon. Continuo a não me ver como escritor.
Dá-me poder, força, este desejo eterno de aperfeiçoar os livros, de os tornar melhores. No início de um projeto, há a expectativa de alcançar algo pleno; porém, assim que o livro é publicado, constato que falhei na entrega daquela verdade fulgural capaz de transformar uma vida. Era isso que eu ambicionava: propiciar ao leitor uma faísca que ateasse um incêndio interior. Sei que ninguém se incendiou ou viveu uma epifania por causa dos meus livros, mas continuo a tentar. É assim que me vou tornando, lentamente, no escritor que nunca quis ser.

Abordando a questão política e as suas origens húngaras, como acompanhou o recente ato eleitoral na Hungria e a queda de Viktor Orbán?
Foi um acontecimento extraordinário. Ninguém ousaria prever um desfecho semelhante, mas é precisamente assim que as ditaduras terminam. É sempre difícil compreender a mecânica da queda de um regime autoritário e a rapidez fulminante com que o colapso ocorre. O impacto ultrapassa o mero resultado eleitoral, agora, várias semanas após as eleições, dia após dia, hora após hora, descobrimos quão odiosa esta ditadura era, que tipo de instrumentos, ferramentas usavam para manter a sua ditadura autoritária e para criar a uma estrutura de poder.
Sentimos um alívio imenso, comparável à atribuição do Nobel: sei que aconteceu, mas continuo sem acreditar. A Hungria vive um processo de transformação revolucionária que desafia a nossa capacidade de assimilação. O fenómeno assemelha-se à queda do regime de Kádár, o último ditador comunista húngaro. Quando esse sistema ruiu, a sensação foi avassaladora porque tínhamos crescido a acreditar que o mundo era imutável: a segunda-feira repetia o domingo, a terça-feira a segunda-feira, numa engrenagem perpétua onde o poder ditava todas as regras da nossa existência. Julgávamos que o regime de Orbán, pela sua longevidade, seria eterno. Hoje, assistimos ao colapso total daquela estrutura e à responsabilização judicial dos seus operacionais. Tudo veio abaixo. Mas é ainda mais difícil para nós acreditar que conseguimos, fomos bem-sucedidos. Ninguém fala realmente sobre isto. Estamos gratos a uma única pessoa, Péter Magyar, e a esta geração. Porque Magyar, devido a uma conjuntura favorável, devido a uma situação de sorte, mas foi a pessoa que conseguiu organizar este milagre para acontecer. E devemos estar gratos a esta geração, os jovens que depositaram os seus votos porque estavam fartos. E por causa dos seus votos esmagadores, o antigo regime colapsou completamente. Era cinzenta e sufocante, a vida na Hungria. Costumava ser. Agora está limpa e suportável.
E, mesmo assim, continua sem esperança?
Bem, continuamos à espera do erro.