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Debaixo de uma lona azul numa calçada em Portuguesa (estado a cerca de 440 quilómetros das regiões mais afetadas pelos sismos que abalaram a Venezuela), a líder local do Vente — partido da oposição liderado por María Corina Machado — coordenava na quinta-feira uma recolha de apoios. Além de quem lá se deslocou para entregar bens como fraldas, garrafas de água e roupas usadas, a polícia também apareceu.
De acordo com o The New York Times, o partido tem-se organizado através de uma rede de voluntários para realizar campanhas de recolha de bens, mas tem enfrentado um obstáculo: as forças de segurança. “Disseram que não podíamos ter um centro de doações, que o único local autorizado para a entrega era a Proteção Civil e o Governo”, denunciou a líder local, Heidy Loicett, classificando a ação como um ato de “perseguição política”.
Seis meses após a intervenção militar norte-americana que resultou na detenção de Nicolás Maduro, a Venezuela enfrenta uma nova crise provocada por dois sismos devastadores, que já causaram mais de 1.400 mortes. A catástrofe volta a deixar sob forte escrutínio a atuação de Delcy Rodríguez — e já há quem tema que a Presidente interina da Venezuela instrumentalize a gestão da catástrofe com o objetivo de legitimar e consolidar o seu poder político.
A versão do Governo: a prioridade das autoridades é restabelecer a ordem pública e garantir que as vias de circulação nas zonas afetadas pelos sismos fiquem totalmente desimpedidas. Segundo o Executivo, este controlo é indispensável para que as equipas de emergência e as colunas de apoio humanitário consigam avançar e operar sem quaisquer entraves no terreno.
https://observador.pt/2026/06/27/venezuela-cao-tsunami-ajudou-a-localizar-12-pessoas-com-vida-nos-escombros/
“Disseram-nos que não podíamos usar a expressão ‘Centro de Doação’, como se tivessem registado a marca”
Num vídeo que circula nas redes sociais, a polícia venezuelana surge a canalizar os voluntários apenas para os locais de recolha geridos pelo PSUV, o partido do Governo. Ao jornal, os ativistas denunciam que os pontos de recolha da oposição foram proibidos de usar a expressão “Centro de Doação” — ficando o termo reservado apenas para as estruturas governamentais. “Disseram-nos que não podíamos usar a expressão, como se tivessem registado a marca”, ironizou María Oropeza, outra dirigente do partido Vente. “É inevitável que tentem usar esta tragédia a seu favor para se manterem no poder”, referiu ainda, segundo o NYT.
A instrumentalização política da ajuda humanitária na Venezuela está a ganhar contornos explícitos no terreno, uma dinâmica que, de resto, especialistas citados pelo jornal consideram típica de regimes autoritários para encobrir fraquezas do Estado e garantir a sobrevivência do regime.
“Diante de catástrofes, os governos agem com base em interesses políticos”, explica Pablo Quintero, consultor político que afirmou trabalhar principalmente com a oposição na Venezuela. “Neste caso, o Governo chavista está a agir para ganhar maior destaque, demonstrar a sua capacidade de gestão à comunidade internacional e, de alguma forma, enviar uma mensagem à população de que conseguiu unificar o país”, refere ainda.
Depois, há o outro lado: a oposição também está a agir consoante interesses próprios, segundo o mesmo especialista. “María Corina Machado tem uma agenda política”, disse Quintero, acrescentando: “E a realidade objetiva é que os seus assessores de imprensa estão a conduzir uma campanha para demonstrar a incompetência do Governo”.
Mas nem Delcy Rodríguez nem María Corina Machado serão as primeiras a fazê-lo, sublinha Benigno Alarcón, ex-diretor do Centro de Estudos Políticos e de Governo da Universidade Católica Andrés Bello. Já em 1812, depois de outro grande terramoto na Venezuela, o libertador Simón Bolívar tinha como máxima: “Se a natureza se nos opuser, lutaremos contra a natureza e faremos com que ela obedeça”.