Na Arena Música e Futebol falta meia hora para o Colômbia — Portugal (terceiro jogo da fase de grupos do Campeonato do Mundo) e já estão centenas de pessoas sentadas de frente para o ecrã gigante. Nas costas, Rod Stewart canta “if you want my body and you think I’m sexy (se queres o meu corpo e me achas sensual)…”, mas o sucesso do cantor britânico de 81 anos parece irrelevante para Rita Sousa e José Sarampo, ambos com 42 anos. “Viemos pela Joss Stone e pelo Shaggy, que são da nossa geração. Vimos o início do concerto de Rod Stewart, mas como não nos diz muito, preferimos vir já instalar-nos para ver a Seleção”, explica Rita ao Observador.
Na edição deste ano, o Rock in Rio Lisboa criou um espaço específico para transmitir as partidas do mundial e, entre jogos, há animação e atividades. Porém, com Portugal a jogar às 00h30 deste domingo, 28 de junho, o festival decidiu transmitir o jogo nos vários ecrãs gigantes espalhados pelo recinto, na zona oriental da cidade, incluindo os três do palco principal. Todos os concertos para aí agendados começaram 30 minutos antes do habitual e, às 00h18, já Rod Stewart se tinha despedido do público.
Há quem abandone o Palco Mundo apressadamente, a tempo de ver a segunda parte do encontro, pelo menos, já em casa. Porém, muitos outros aproveitam os espaços que se vão libertando para se sentarem no chão. É o caso de Bruna Secretário, de 24 anos, e da mãe, Paula Costa, de 52, que estiveram em pé nas últimas horas. “Adorei o concerto [de Rod Stewart]”, garante Paula. “Nunca o tinha visto, foi tudo o que esperava. Ele tem a idade da minha mãe, só que ela está deitada no sofá e ele aqui.”
Quando perceberam que o último jogo da fase de grupos de Portugal no mundial coincidia com o dia no Rock in Rio, ficaram ainda mais radiantes. “Foi maravilhoso descobrir que iam passar o jogo. Onde é que íamos poder vê-lo desta forma, com tanta gente a poder vibrar junta?”

Suzete e Luís Lopes, de 63 e 67 anos, respetivamente, estão sentados um pouco mais atrás e, apesar de não terem adorado a ideia, perceberam que assistir ao encontro no recinto seria a decisão mais acertada. “Viemos ver o Rod Stewart e a Cyndi Lauper, mas já não tínhamos pernas para nos despacharmos a chegar a casa. Ou víamos os concertos ou víamos o jogo. Olhe, vemos aqui. Não sei é se me levanto no final”, admite Suzete.
Às 00h25, porém, ainda consegue pôr-se de pé para cantar o hino nacional. Há alguns cachecóis esticados no ar, centenas de pessoas vestem a camisola da Seleção Nacional e há um aplauso estridente que explode quando surge Diogo Jota [que morreu há cerca de um ano num acidente de viação] no ecrã do estádio de Miami, EUA.
Acabada a música, tudo se senta ordeiramente. Os dois ecrãs laterais transmitem o encontro e o mesmo acontece com o ecrã ainda maior que está no centro do palco. No entanto, aí começam agora as desmontagens, o que atrapalha e distrai o público.
As placas que emolduram o Palco Mundo têm luzes que exibem as cores de Portugal: verde, amarelo e vermelho. O espaço onde, na hora dos concertos só se vislumbram cabeças amontoadas que ao longe parecem alfinetes, tem agora muitas opções para estender uma toalha (há festivaleiros profissionais que trazem tudo de casa) para sentar ou, em alguns casos, deitar.
O entusiasmo sente-se como uma vibração que se propaga, nem sendo preciso que o animador apareça nas pausas para pedir “energia para chegar aos EUA”, mas a primeira meia hora não dá basicamente nenhum momento de emoção ao público. Aos 38 minutos ouve-se o primeiro “aw” de desânimo com o remate de Bruno Fernandes às mãos do guarda-redes colombiano e, aos 44, a defesa do guarda-redes Diogo Costa vale mais palmas do que qualquer ataque da Seleção portuguesa — os poucos adeptos colombianos no recinto têm mais momentos de “quase lá” e não se inibem de se levantar e “quase” festejar.
Ao intervalo, sobem ao Palco Mundo “os homens do barco”, o grupo de amigos que criou uma versão de Canção do Engate, de António Variações, com uma letra dedicada à Seleção — e muita gente no público conhece-a toda.

De acordo com o Rock in Rio Lisboa, a estimativa de público para o penúltimo dia da 11.ª edição do festival, era de 75 mil pessoas e a ideia era manter o máximo dessa massa concentrada no palco principal para assistir ao encontro de futebol. Ainda assim, muita gente optou pela Arena Música e Futebol. “Aqueles três ecrãs fazem muita confusão”, explica Carla Pereira, de 54 anos. “E aqui também é mais acolhedor”, acrescenta. Tanto ela como o companheiro, Pedro Mendes, de 48 anos, envergam camisolas de futebol. “Gostamos de futebol, sobretudo da Seleção, mas está difícil. Já podíamos ter marcado e é uma pena estar tanta gente junta e ainda não termos conseguido festejar”, lamenta Pedro.
Independentemente do resultado — e da hora a que vão regressar ao Barreiro, onde moram —, pretendem ficar no recinto até ao final do jogo, mesmo que no domingo haja nova dose de RiR. “Viemos no fim de semana passado e amanhã estamos cá outra vez. Havia nomes que queríamos ver em vários dias, não conseguimos escolher”, diz Carla.
Os ecrãs do Palco Music Valley estão igualmente ligados a Miami, mas apesar de o som estar pior na arena, de o ecrã estar menos elevado e de haver pouca inclinação no piso, este espaço continua cheio. Delimitado por stands de promoção e bares, aqui ouve-se e sente-se tudo com mais intensidade: dos incentivos aos insultos.
Hugo Silva e Jaqueline Santos, com 47 e 42 anos, respetivamente, vieram de propósito de Resende (no Douro) e até tinham acesso a uma zona VIP junto ao Palco Mundo, mas na primeira parte do encontro já estavam aqui. “Acho que estamos mais perto do ecrã, vê-se melhor”, explica Hugo. “Vamos esperar que na segunda parte possamos ver golos.”

Os jogadores das duas equipas estão de novo em campo. Aos 59 minutos, João Félix oferece um golo a Ronaldo, mas não há concretização; aos 65 minutos, uma defesa de Diogo Costa desencadeia aplausos, desta vez menos eufóricos; e a partida segue adormecida até ao minuto 77, quando um remate de Diogo Dalot passa perto do poste da baliza adversária.
Há muita gente a ir embora uns minutos antes dos 90, tal como nos estádios de futebol quando o desalento de um resultado não desejado se alia à necessidade de fugir à multidão para conseguir um Uber mais facilmente ou entrar no primeiro metro.
Quando a Colômbia marca aos 90, apesar de o golo não ser validado, é a debandada geral. 90+5, apito final; Colômbia, zero; Portugal, zero. São 2h28, o recinto esvazia-se. Apesar de a Seleção Nacional estar já apurada para os 16 avos da competição antes deste encontro, o desapontamento é real. Nunca o público tinha saído tão desanimado e silencioso do RiR — talvez apenas em 2016, quando os Korn abandonaram o festival após quatro temas devido a falhas no som.
“É o nosso triste fado”, grita alguém uns metros atrás, a caminho da saída. Triste ou alegre, siga a música à meia-noite da próxima sexta-feira, 3 de julho, frente à Croácia.