Inês Magalhães tinha chegado há mais de uma hora quando curiosos perguntavam se aquela era mesmo a fila para ver Margaret Atwood. Junto às grades, de livro na mão, aguardava pacientemente pela abertura do recinto na Praça Gomes Teixeira, no Porto. Tem 26 anos, faz parte de um clube de leitura e não queria correr o risco de ficar sem lugar para ouvir uma autora que considera “vital”.
A primeira oportunidade escapou-lhe quando os primeiros bilhetes voaram. A segunda não. Conseguiu o acesso à sessão do festival Babell depois de comprar A Paixão Segundo G.H., livro de Clarice Lispector, na loja Fnac do centro comercial Alameda. Foi esse livro a senha para assistir à conversa com a escritora canadiana, uma das primeiras a esgotar do festival literário organizado pela Livraria Lello, em parceria com a Câmara Municipal do Porto.
Porquê? “Porque é a Margaret Atwood. É uma autora vital. No meu clube de leitura lemos A História de uma Serva. É uma história super importante, agora mais do que nunca. Vir aqui ouvi-la falar não só do livro, mas de tudo o resto, é uma oportunidade única”, conta ao Observador, sob um sol impiedoso.




À medida que a hora avançava, a fila crescia. Mais de mil pessoas foram ocupando os acessos ao Jardim da Cordoaria e à Praça dos Leões para assistir à conversa com uma das mais influentes escritoras da literatura contemporânea. Aos 86 anos, Margaret Atwood continua a atrair leitores de diferentes gerações, unidos por uma obra que abarca ficção especulativa, sátira social e reflexão política e que continua a dialogar com algumas das questões mais urgentes do nosso tempo. O Observador acompanhou-a na caminhada do hotel ao recinto, umas centenas de metros ao lado da filha e da neta, mas também dos autores Olga Tokarczuk e Alberto Manguel, com quem posou para retratos.
Não seriam os únicos a marcar presença no evento charneira deste sábado e a primeira fila da audiência era disso testemunho. Ali se encontravam várias figuras institucionais e culturais, entre elas o presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, o vereador da Cultura do município, Jorge Sobrado e até o romancista Salman Rushdie, cuja presença discreta só foi denunciada por um dispositivo de segurança visível ao olhar mais atento.




Moderada pela escritora e tradutora Tânia Ganho, num inglês escorreito, a conversa, que arrancou com um ligeiro atraso, transformou-se numa viagem pelas memórias da autora, recentemente reunidas em O Livro das Minhas Vidas. Atwood começou por explicar como a matéria-prima das suas memórias não foi a investigação histórica nem a consulta de arquivos, mas aquilo que permaneceu na lembrança. “São as coisas de que realmente me lembro”, resumiu. Histórias engraçadas, momentos embaraçosos, episódios de perigo, perdas e descobertas. Tudo aquilo que resiste ao desgaste do tempo.
A escritora revelou que mantém junto à cama um diário onde anota episódios do quotidiano, precisamente porque teme esquecê-los. Mas distinguiu esse registo diário do exercício das memórias, que assentam apenas naquilo que permanece vivo na recordação. “Lembramo-nos de histórias. Até as coisas más podem tornar-se histórias”.
A infância ocupa uma parte importante dessas recordações. Filha de um entomólogo, passou largos períodos do ano em regiões remotas do norte do Canadá, no Quebeque, onde o pai estudava insetos. Cresceu rodeada por florestas, sem eletricidade, água canalizada ou máquina de lavar roupa. Uma experiência de isolamento que viria a marcar profundamente a sua imaginação literária e a forma como observa o mundo.




Com o humor seco que a caracteriza, Atwood falou também da forma como foi recebida ao longo da carreira. Quando questionada sobre se os seus livros assustavam leitores e críticos masculinos, respondeu que sim — embora menos agora. “Estão menos assustados do que antes”, disse, provocando gargalhadas na assistência. “Quando somos jovens somos uma promessa. A meio da carreira, temos a idade dos críticos. Mas quando somos mais velhos do que eles, passamos a ser uma mulher inteligente ou uma bruxa velha.”
Outro dos momentos mais aplaudidos surgiu quando recordou o bullying de que foi alvo em criança. Tinha cerca de nove anos e, contou, as agressões vinham sobretudo de outras raparigas. Ao comparar as dinâmicas sociais entre rapazes e raparigas, descreveu as primeiras como uma hierarquia explícita e as segundas como uma espécie de “corte bizantina”, onde alianças e exclusões mudam de um dia para o outro.
A questão do feminismo acabaria por surgir inevitavelmente. Associada há décadas a algumas das mais importantes obras da literatura feminista contemporânea, Atwood começou por corrigir a própria formulação da pergunta da moderadora. “Não existe ‘as feministas”, respondeu. “Vou à Wikipédia e dizem-me que há 75 tipos de feminismos. Quando me perguntam se sou feminista, tenho de perguntar: de que tipo?”

A autora rejeitou as visões que caricaturam o movimento feminista como uma oposição aos homens e explicou que a sua posição assenta numa ideia mais ampla de direitos humanos. “Estou interessada nos direitos humanos. Os direitos das mulheres são uma parte dos direitos humanos e os direitos humanos — é um grande segredo — incluem os homens”, ironizou, arrancando risos e aplausos da plateia.
Nas mãos dos leitores, nas referências da moderadora e nas capas que se repetiam pela multidão, A História de uma Serva surgia como o livro incontornável da carreira de Margaret Atwood. Publicado em 1985, o romance transformou-se numa das distopias mais influentes da literatura contemporânea, ao imaginar uma sociedade em que as mulheres são privadas dos seus direitos mais básicos e reduzidas à sua função reprodutiva.
A dada altura, Tânia Ganho confessou que, ao reler o romance, não conseguia deixar de pensar na situação das mulheres afegãs. Atwood concordou sem hesitar. E voltou a uma ideia que, disse, lhe chega frequentemente através da correspondência enviada por leitores: “Recebo cartas de todo o mundo e dizem-me: A História de uma Serva não é ficção, está a acontecer”, resumiu a escritora canadiana, numa referência às restrições de direitos das mulheres que continuam a verificar-se em vários países do mundo. A moderadora alerta-nos para que não nos esqueçamos e para que prestemos atenção a essas mulheres, mas Atwood revela um tom mais céptico: “Podemos prestar atenção, mas isso pode não ter qualquer resultado.”
Pouco antes do final da sessão, uma interrupção inesperada trouxe a atualidade para dentro da conversa. O som da Marcha do Orgulho LGBTI+, que decorria nas ruas circundantes, começou a ecoar pela praça. Durante alguns instantes, houve quem procurasse perceber a origem do ruído, e, a avaliar pelos rostos confusos, até quem temesse por perigo, mas quando a audiência gritou para o palco que se tratava de uma manifestação pelos direitos das pessoas trans e da comunidade LGBTI+, Atwood interrompeu a conversa para aplaudir, um gesto que foi imediatamente acompanhado por grande parte da assistência.
Pouco depois, a sessão terminou com uma longa ovação de pé. Não haveria lugar para autógrafos, com a organização a anunciar que uma centena de exemplares já assinados estaria disponível para venda na Livraria Flâneur, à saída do recinto.
Enquanto a multidão começava a dispersar-se pelas ruas do centro histórico, muitos permaneciam ainda junto às grades, tentando prolongar o momento. Afinal, nem todos os dias se ouve uma escritora cuja obra continua a ser lida como aviso, memória e profecia ao mesmo tempo.