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No dia em que a "Classe de 79" teve nota máxima no Rock in Rio, foi Cyndi Lauper quem deu a melhor aula

A celebração do rock português concentrou atenções no Music Valley. Ainda assim, no palco Mundo, Cyndi Lauper fez-nos lamentar que a sua estreia tenha acontecido tão tarde.

António Moura dos Santos
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Diogo Ventura
photography

Encaremos desde logo o elefante na sala: quando foi anunciado que os Xutos & Pontapés — única banda recordista em todas as edições do Rock in Rio Lisboa — iam pela primeira vez passar do palco Mundo para outro local no certame deste ano, a decisão cheirava a despromoção. Tiremos o chapéu e reconheçamos que, nesta passagem, ao tornar-se a curadora de um palco dito “secundário”, a banda lisboeta transformou-o num epicentro de celebração e alegria que rivalizou com todos os outros: “não sei qual o melhor palco, se o grande ou este”, disparou Tim.

Sendo este dia 27 o “Legends Day” — portanto, direcionado principalmente para artistas e bandas de extensa carreira —, a ideia dos Xutos passou por preencher o alinhamento do palco Music Valley com grupos fundacionais do rock português. O nome escolhido — Classe de 79, que também é um tema da sua autoria — é tecnicamente incorreto, já que os Jafumega, os UHF e os GNR não partilham dessa data de formação, mas serviu o propósito simbólico de unir todos estes nomes sob o mesmo princípio.

Da atuação dos Jafumega — escolhidos para substituir os Táxi — não podemos comentar pois não chegámos a tempo de presenciá-la. Quanto aos UHF, porém, só é preciso começar por frisar que o próprio António Manuel Ribeiro admitiu que a sua voz começou a quebrar no início dado o assomo de emoção que a ocasião proporcionou — a estreia neste festival ao fim de quase 48 anos de atividade. Apesar de estar a lidar com um som algo frouxo, a banda almadense fez-se valer pela força da convicção e da experiência, contando já com um extenso público, não obstante a hora precoce e o sol que ainda queimava na nuca. “Vocês são mesmo muitos, qual é o bruá de muitos?”, perguntou o guitarrista, vocalista e único membro original do grupo. Não tardaria a descobri-lo.

Diametralmente oposto ao alinhamento que levaram a palco em março no espetáculo Underground, onde só tocaram temas menos rodados ao vivo, no Rock in Rio os UHF apresentaram-se em versão “best of”, abrindo com Hey! Hey! (Bora Lá) e Matas-me com o Teu Olhar. A estas seguiu-se a ginga confiante de Rapaz Caleidoscópio e a toada new wave altamente The Police de Brincar no Fogo, tema que motivou uma das conhecidas tiradas interventivas de António Manuel Ribeiro, desta feita para saudar os bombeiros e pedir cautela para reduzir os incêndios florestais sazonais. Iguais reparos mereceu Sarajevo, lembrando que este tema “é contra todas as guerras”, pedindo que este fosse um “festival da paz”.

No entanto, não desmerecendo tais declarações, foi quando o vocalista se referiu ao orgulho de estar a “cantar em português, para os portugueses e os outros que nos vieram visitar” que o concerto assumiu outra pungência. “Assim vale a pena; não somos só futebol, somos Portugal!”, exclamou, lembrando o papel dos artistas na defesa da língua e da cultura portuguesas. Todavia, apontemos que houve excesso de zelo ao compor a canção RockinRio.PT, apresentada também durante a tarde. Apesar do propósito explícito de celebrar a estreia no festival e de estreitar laços entre Portugal e Brasil, soou menos a agradecimento e mais a material promocional.

Esse, de resto, foi o único faux pas de uma atuação coroada com Rua do Carmo e Cavalos de Corrida — ambas sonoramente cantadas pela audiência —, além da sua afamada versão de Menina Estás à Janela, com direito a invasão de palco por parte do clube de fãs. “Isto prova que é tudo nosso, não é”?, brincaram os UHF, antes de se lançarem na derradeira Os Putos Vieram Divertir-se, canção que por si só descreveria este concerto.

Só não foi “tudo deles” porque a parada seria elevada pelos GNR, muito provavelmente a melhor banda da história do pop rock português, pelos êxitos e pela vitalidade artística que foi continuando a ter até Caixa Negra, de 2015, até hoje o seu último álbum. Ao contrário dos UHF, o conjunto portuense já esteve no Rock in Rio, em 2006, sendo esta também uma espécie de aniversário. “Aqui vivi os grandes amores da minha vida, nesta cidade maravilhosa”, lembrou Rui Reininho em relação a Lisboa.

Quando temos o vocalista em palco, temos um frontman por excelência à nossa frente, pela presença, pelo humor sardónico, por tudo aquilo que diz: ou tem graça, ou tem significância ou faz-nos sentir mal por não entendermos a graça e/ou significância do que disse. É um tipo de carisma especial, mas que de pouco lhe valeria se não o aplicasse em bombons de composição musical como Vídeo Maria, Sub-16 ou Efectivamente.

Além de contarem com um som bastante melhor, os GNR apresentaram-se também — tal como nos concertos dos 45 anos em 2025 — com a sua versão modernizada. Além dos elementos de longa data — onde se destaca o alquimista que é Tóli César Machado —, a banda conta com Ben Monteiro (principalmente conhecido como metade da dupla D’Alva) nos teclados e guitarra, injetando algum sangue novo com atitude punk. Cada vez mais enturmado, Ben tanto foi alvo de troça — disseram-lhe que não tinha rapado os sovacos — como carinho da banda. “Queria dar um presente especial ao nosso mais novo, o nosso tubarão azul”, afirmou Reininho, referindo-se ao facto de o músico ter ascendência cabo-verdiana, dando-lhe um chapéu alusivo a esse país.

Também eles em regime de “greatest hits”, há todavia que destacar o impacto que Pronúncia do Norte continua a ter, mesmo sem a voz de Isabel Silvestre presente, vendo-se pessoas em lágrimas a passar nos ecrãs. Ou a sequência rockada de Morte ao Sol, que contou com o público continuar a cantarolar o refrão espontaneamente após o fim da canção. Ou a forma como pegaram em Quero que vá tudo pro inferno de Roberto Carlos e tornaram-no também um tema seu, que causa sempre delírio quando é tocado. O apogeu foi atingido, sem surpresas, com Sangue Oculto. “Até daqui a 20 anos”, brincou Reininho, antes dos GNR terminarem com aquela que é das mais canónicas canções da cultura nacional, Dunas, que vale sempre a pena ouvir tocada pelos autores e não por quem está a aprender a tocar guitarra.

Seria difícil ultrapassar o que os GNR fizeram, mas na verdade apenas uma banda conseguiria fazê-lo, os Xutos & Pontapés, que conseguiram, ao longo de um vastíssimo percurso, transformar as canções que gravaram em património nacional, como muito poucos além deles souberam concretizar. Pense-se em como toda a gente sabe a letra de pelo menos uma das suas canções, ou como a sua versão de A Minha Casinha tornou-se num hino não-oficial em 2016, pela seleção nacional de futebol estar a jogar num país com tanta emigração portuguesa. Ou como foram a primeira banda rock portuguesa a receber condecorações da Presidência da República. Ou até mesmo como a morte de Zé Pedro foi encarada como uma tragédia nacional, com um funeral que, não sendo de Estado, foi tratado como tal. O conceito de uma psique nacional é tão confuso quanto nebuloso, mas se de facto existir, então é a banda lisboeta que tem ligação direta a essa forma de estar portuguesa; cada concerto que dão é uma catarse descomplicada e multigeracional.

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Ao caminhar para o palco, já se ouviam pessoas a berrar as letras de mais do que uma das suas canções com toda a convicção, e foi difícil lá chegar porque ocorreu uma verdadeira enchente. Mesmo que assumamos que os Xutos & Pontapés, nos últimos 20 anos, decaíram bastante no que toca à qualidade do material lançado, foram tantos os hinos concebidos até então que qualquer espetáculo com menos de duas horas vai deixar temas incontornáveis de fora. Foi esse o caso, não tendo havido Chuva Dissolvente, Para Sempre, Homem do Leme ou Ai Se Ele Cai esta noite. Ao invés, tendo esta atuação feito parte da digressão de celebração de Direito ao Deserto — o sexto álbum, de 1993 — tivemos direito a agradáveis surpresas, como a faixa título, de ritmo quase funk e letra ácida, ou a blueszada de Deitar a Perder, sacada de XIII, com João Cabeleira a fazer o que melhor sabe, meter a guitarra a chorar.

Segundo Tim, a banda escolheu fazer uma digressão com este tema porque se trata de uma “mensagem de combate contra a solidão”, num tempo em que “estamos cada vez mais sozinhos”, inclusive “contra os multimilionários”. Nessa lógica, foi ainda mais significativo os Xutos & Pontapés reunirem-se dos seus pares neste dia, para uma comunhão conjunta em torno do rock português. “Foram concertos espetaculares, parecia mesmo um festival à séria”, brincou o baixista e vocalista nas suas palavras de agradecimento aos outros grupos.

Se tivemos direito a alguns “deep cuts”, seria incorreto não referir que o grosso do concerto foram os êxitos de sempre, que causam explosões de alegria quando se ouvem as primeiras notas ou batidas. Vale para Contentores — talvez das passagens de saxofone mais marcantes da nossa música —, para Dia de S. Receber, para À Minha Maneira, para Circo de Feras ou para Não Sou o Único, prefaciada de forma agridoce — “garanto-vos que quem a escreveu ia adorar estar aqui”, lembrou Tim. Quando os Xutos & Pontapés seguiram com Para Ti Maria, já tinha dado início o costumeiro fogo de artifício. No entanto, ao contrário do que acontecera uma semana antes durante o concerto dos Sepultura, aqui caiu bem, adicionando ao espírito de celebração, que concluiu no auge com A Minha Casinha. Aqui, tal foi a profusão de sorrisos e cantarolar desbragado que é impossível não sentir-se contagiado. Só vêm à memória o título de um livro do eterno jornalista polaco Ryszard Kapuściński: “os cínicos não servem para este ofício”.

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O dia era de Stewart, mas o palco foi de Lauper

Pode um artista ser reincidente e visitar duas vezes o mesmo país numa tour de despedida chamada “One Last Time”? Foi este o enigma de semântica que Rod Stewart nos propôs no palco Mundo, ele que já cá tinha estado a dizer adeus ao público português em 2025, voltou a fazê-lo este sábado, fazendo lembrar aquelas pessoas de quem nos despedimos mas depois vamos para o mesmo lado.

Dada a proximidade temporal com que nos visitou da última vez — e no mesmo âmbito —, este concerto não se revestiu da maior das significâncias. Mas o público do Rock in Rio também não se importou muito com isso, dada a forma como se entregou durante mais de hora e meia ao desfilar de clássicos do cantor britânico — os dele e as muitas versões que tornou suas. E as vindas consecutivas de Stewart também em nada retiram o mérito a um homem de 81 anos cuja carreira teve início ainda nos anos 60 e que esteve em risco de deixar de cantar devido a um cancro na tiróide.

A sua voz ainda está mais rouca que antes, é certo, e já se começa a mexer um pouco como uma marioneta quando dança, mas são poucos os artistas com a idade do britânico a mostrar a desenvoltura e a qualidade vocal que exibiu em palco (o que também provou que o incidente de dia 19 — quando foi forçado a interromper o concerto em Salt Lake City após quase desmaiar e necessitar de recorrer a um tanque de oxigénio para poder continuar — não passou de um susto provocado pela elevada altitude dessa cidade dos EUA). Não é só pela mera força do carisma, que podia disfarçar muitas debilidades; ainda há chama no peito de Stewart.

Mas além do elevado nível de toda a atuação — da qualidade dos músicos ao talento das cantoras de apoio, que deram metade do espetáculo em si mesmo, chegando-se à frente quando Stewart precisava de descansar —, fica-nos na memória como todos nós somos feitos de contradições. Como quando o cantor evocou Tina Turner antes de cantar It Takes Two, mas não Bonnie Tyler, de que fez uma versão de It’s a Heartache, apesar da artista britânica estar internada em Portugal. Ou como quando evocou a luta dos direitos civis dos anos 60 nos EUA para interpretar People Get Ready, dedicou Rhythm of My Heart a Zelensky e aos ucranianos e terminou o concerto com capas de jornais críticas de Trump, apesar de ter publicamente apoiado o partido britânico de direita radical Reform UK. São instâncias que não lhe tiram qualquer mérito artístico, mas provam a dificuldade de ser uma figura pública sem pisar minas.

Extensíssimo concerto, talvez a apontar haja o facto de não ter incluído quaisquer canções dos Faces, lendária banda dos anos 70 de que fez parte, ou a excessiva dependência de arranjos com violino, tornando as músicas mais melosas que o necessário. Este segundo ponto é tão mais premente quando considerando que em palco estavam verdadeiros multi instrumentistas que passavam das teclas para a harpa ou para o bandolim a cada canção. De resto, foram tantos os temas imortais que enumerá-los quase parece inútil. Destaque-se Forever Young, com direito a interlúdio de river dancing e instrumental de inspiração celta, Maggie May, que já tem mais de 50 anos e continua a envelhecer como o vinho que Stewart usou para brincar “à nossa saúde” (não perdeu o sentido de humor) ou o apelo irresistível de Baby Jane e Young Turks. Na reta final, e já depois de ele e as suas cantoras pontapear bolas de futebol para o público, Da Ya Think I’m Sexy? e — principalmente — Sailing encerraram com chave de ouro.

Em condições normais, este seria o concerto de maior destaque da noite no que ao plano internacional concerne, mas Rod Stewart teve o azar (ou o privilégio, depende da perspetiva) de suceder à atuação de Cyndi Lauper. Parece inacreditável que a cantora pop nunca tivesse antes passado por Portugal, mas mais do que a oportunidade de riscar o nome da lista, o que impressionou foi a vitalidade que ainda exibe do alto dos seus 73 anos. É injusto compará-la ao britânico, que não só é mais velho como tem um estilo de música diferente, mas foi estarrecedor ver como o seu alcance vocal de quatro oitavas é hoje mais quebradiço, mas mantém-se fundamentalmente intacto.

Acompanhada por uma banda totalmente feminina — excetuando um dos cantores de apoio — e onde se destacou a baterista, cuja gravidez de seis meses em nada a impediu de dar tudo, Lauper apresentou-se igual a si mesma: de crista azul elétrico e calças com padrão tartan, recordando-nos que foi das primeiras divas pop a fazer a ponte com o mundo punk. É nestas coisas que mostra ser uma nova-iorquina de gema, e não apenas no seu delicioso sotaque carregado nem quando tem momentos em que confunde a mão esquerda e a direita e reage como se uma personagem de desenho animado se tratasse. No fundo, a avó mais fixe do mundo.

Com a entrada enérgica de She Bop, tratou logo de surpreender-nos ao sacar de uma flauta de bisel e solar como todos sonhámos fazer nas aulas de educação musical. Já em The Goonies ‘R’ Good Enough, o baixo demasiado alto a sobrepor-se a tudo o resto ameaçou descarrilar a música, mas Lauper manteve o controlo da situação. Foi quando chegámos a I Drove All Night que o primeiro arrepio na espinha foi sentido, na forma como atingiu aqueles agudos. O mesmo se passou depois em Change of Heart, que teve direito a solos de bateria, percussão e baixo. Diríamos a famosa frase “França, Espanha, tudo”, mas para o caso só deu Portugal, já que a cantora apresentou este tema com uma camisola da seleção portuguesa de Cristiano Ronaldo ao alto, provocando a reação esperada.

Deu-se logo de seguida um dos mais notáveis momentos de todo o dia — quiçá do festival —, quando Lauper não pediu, mas ordenou mesmo as pessoas a ligar as lanternas dos telemóveis e a virá-las para trás (“metam em modo de voo, não vão morrer por causa disso”, gracejou). “Sabem o que parecemos? Uma comunidade de luz, e nunca nos esqueçamos disso, por mais escuro que fique”, alertou, antes de cantar um dos seus mais famosos êxitos, Time After Time. Até ao fim, ainda houve tempo de a cantora ficar prostrada no chão após a rocker Money Changes Everything, mas o que a maior parte das pessoas provavelmente vai levar deste concerto é a sequência de True Colors e Girls Just Wanna Have Fun, e não apenas por serem as duas mais famosas canções da artista.

A primeira provocou lágrimas nas primeiras filas e, se num primeiro momento surgia um arco-íris difuso nas imagens atrás, no final tornou-se numa bandeira de apoio LGBTQIA+. Só vai ao engano com Lauper quem quiser; estamos a falar de uma das maiores aliadas do movimento queer da história da música, tendo este tema em concreto ficado associado à epidemia do VIH nos anos 80 e 90. Mostrar as verdadeiras cores “ é para toda a gente, não só para alguns”, defendeu, merecendo aplausos. Já o segundo tema teve a enorme surpresa de contar com a participação visual da artista japonesa Yayoi Kusama, com o palco a ficar inteiramente de branco e pontilhado de vermelho — inclusive nos uniformes de toda a banda. Também esta canção, travestida de tema inocente, ocultava a pulsão de que as mulheres, mais do que divertir-se, queriam liberdade e autonomia. Lauper fez questão de recordá-lo numa longa sequência a encerrar a música, trocando o refrão pelo famoso slogan “Girls Want Fun-damental rights” e deixando o apelo: “Quero que gritem tão alto, minhas irmãs, para que aqueles que querem arrastar-nos para o fundo vos ouçam. Não vamos voltar atrás”.