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Olga Tokarczuk: "A literatura é perigosa para mulheres"

No festival Babell, no Porto, a autora, Nobel da Literatura, denunciou como o cânone ocidental obriga as mulheres a abdicar da sua feminilidade para nele participarem como leitoras.

Joana Moreira
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João Porfírio
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A literatura clássica europeia esconde uma armadilha para as mulheres jovens: obriga-as a abdicar da sua própria identidade para conseguirem fazer parte dela. A provocação foi lançada este sábado no Porto pela escritora polaca Olga Tokarczuk. Diante de uma plateia de mais de mil pessoas na Praça Gomes Teixeira, a Nobel da Literatura explicou o paradoxo de crescer a ler um cânone ocidental “basicamente feito por homens, que falam de outros homens, e onde as mulheres aparecem sobretudo na ternura”.

“A literatura, para mulheres jovens, é muito perigosa”, afirmou a autora de 64 anos. “Para participar no mundo clássico da literatura, para participar como leitoras, de alguma forma temos de deixar a nossa feminilidade. Isso é muito difícil de suportar, porque a cultura clássica, de alguma forma, está contra a minha feminilidade.”

Foi precisamente para desafiar esta hegemonia que Tokarczuk escreveu Empúsio (2023), romance que descreve como uma intervenção crítica e uma resposta direta a essa exclusão histórica. “Não se pode escrever um livro tão grande, em dois volumes, sem mulheres”, apontou, num registo de diálogo simbólico com o passado: “Ouso, neste livro, sentar-me à mesa de Thomas Mann, nos anos 20, e dizer algo da minha parte”, disse. Em Empúsio (tal como os restantes livros da autora em Portugal, é editado pela Cavalo de Ferro), um grupo de homens num sanatório na Silésia, em 1913, conversam e criam uma forma de “fazer uma espécie de paródia, de paráfrase, da Montanha Mágica, dando voz às mulheres”.

Uma receção calorosa e percalços na tradução IA

Integrada no festival Babell, a sessão — que começou com cerca de 15 minutos de atraso — confirmou o estatuto da escritora como uma das vozes mais magnéticas do pensamento ecofeminista contemporâneo. A cumplicidade com o público portuense fez-se sentir logo na abertura, quando a moderadora Marta Bernardes surpreendeu a assistência com um apelo emotivo: “Expliquem à Olga como é receber alguém que se ama”, sucedendo numa forte ovação.

O evento, que contou com leituras de Ana Celeste Ferreira, decorreu entre o português e o polaco, com tradução através de um sistema de tradução simultânea, que combinou a inteligência artificial com a intervenção humana. A experiência, contudo, registou algumas falhas técnicas e levou algumas pessoas a abandonar a sessão. A determinada altura, a própria moderadora passou do português para o inglês, acabando por pedir desculpa pelo desvio linguístico.

Conduzida pelas dinâmicas da escrita, a autora de Viagens recusou fronteiras rígidas entre géneros literários, aproximando a poesia e a prosa como ferramentas semelhantes de acesso à experiência humana. Para Tokarczuk, o ato de criar está longe de ser uma técnica académica, é, antes, uma pulsão quase compulsiva. “Escrever sempre foi, de alguma forma, obsessivo. A escrita para mim é muito instintiva, ninguém nos ensina, não existem escolas que ensinem este artesanato.”

Ainda assim, se o motor da escrita é o instinto do autor, a sua sobrevivência depende inteiramente de quem está do outro lado. “A literatura existe graças aos leitores, e não aos escritores”, sublinhou, elevando a leitura ao patamar “da coisa mais complexa a seguir ao amor”. “Ter um leitor que consegue encontrar ou até criar a sua própria interpretação do que leu é, para mim, uma dádiva.”

A fechar a sessão, a escritora desenhou o perfil daquele que considera ser o “leitor perfeito”: alguém munido de uma bagagem profunda, capaz de dialogar com a tradição. “É aquele que já leu coisas como Flaubert ou Dom Quixote, para quem a literatura não são apenas livros fechados, mas um reservatório onde se pode entrar, mergulhar e sair.”