(c) 2023 am|dev

(A) :: Do nascimento de José Estebes ao hino intemporal: 40 anos depois, a história de “Bámos Lá Cambada”

Do nascimento de José Estebes ao hino intemporal: 40 anos depois, a história de “Bámos Lá Cambada”

Herman José, David Ferreira e algumas das vozes que gravaram o coro recordam a história, o sucesso e o legado da canção de apoio à Seleção no México '86 que se transformou num clássico pop português.

Ricardo Farinha
text

Foi há 40 anos que os portugueses vibraram com Bámos Lá Cambada, canção de José Estebes, personagem de Herman José, composta e escrita por Carlos Paião. A participação da Seleção Nacional no Mundial de 1986 no México deixou uma má memória — entre a eliminação na fase de grupos e as polémicas que rodearam a participação — mas o tema de apoio aos jogadores permaneceu na memória coletiva.

“Bámos lá cambada, todos à molhada, que isto é futebol total/Deixem-se de tretas, força nas canetas, que o maior é Portugal”, canta Herman José num carregado sotaque portuense, dando vida à personagem do comentador desportivo José Estebes. Há apenas quatro anos, em 2022, a canção foi regravada e ganhou uma nova versão para o Mundial no Qatar, desta vez como hino oficial da Federação Portuguesa de Futebol. Portugal não conseguiu vencer a prova, e curiosamente perdeu novamente com Marrocos, nos quartos de final, quando em 1986 tinha sido derrotado pela equipa magrebina na fase de grupos.

O Observador conta a história da participação portuguesa no México ‘86 num podcast especial de quatro episódios, O Escândalo que Destruiu a Seleção, abordando casos insólitos, comportamentos impróprios de dirigentes e jogadores e ameaças de greves aos treinos. Os problemas chegaram a tornar-se assunto de Estado, com comunicados do Presidente da República e do Governo, com a Seleção a sair mal vista da competição. Em contraste, a canção de apoio naquele ano ficaria na história da cultura pop portuguesa.

https://www.youtube.com/watch?v=2VWBYbAIb1U

Antes de “Bámos Lá Cambada”, havia José Estebes

Tudo começou cerca de uma década antes, entre 1975 e 1976, quando Herman José começou a trabalhar com um agente artístico para os espetáculos que fazia no norte do país, Cipriano Costa — que, curiosamente, era também o agente do músico popular José Pinhal, e o homem cujo antigo escritório acabou mais tarde por ser comprado como apartamento, e onde foram descobertas cassetes do artista que haveriam de alimentar um fenómeno contemporâneo de culto.

“O Cipriano Costa foi essencial na criação da personagem porque, na verdade, foi com ele que eu apanhei o sotaque nortenho perfeito”, comenta Herman José em declarações ao Observador. O humorista, ator, músico e apresentador achava graça à figura do seu agente portuense e começou a imitá-lo em privado de forma recorrente.

Foi António Tavares Teles, jornalista, colaborador de Herman José nos textos e amigo próximo de Tozé Brito, quem sugeriu que o humorista construísse uma personagem em torno daquele sotaque e daquela maneira de falar. “Ele privava connosco e teve a ideia de rentabilizar o sotaque e escrever uma rubrica de rádio para um programa que tínhamos na Rádio Comercial que era A Flor do Éter.”

É assim que nasce José Estebes, um comentador desportivo incontornavelmente portuense (e portista), que usa e abusa do jargão futebolístico e dos regionalismos para fazer uma caricatura na rádio, onde rapidamente se tornou um êxito. Herman José já era um ator cómico, um artista musical e um entertainer nato, mas só em 1983 faria a sua estreia com um programa televisivo de humor encabeçado por si: o emblemático O Tal Canal, na RTP, que iria firmar o seu nome.

Foi naquele espaço televisivo, numa época em que só existiam dois canais e muito antes da dispersão da atenção com a era digital, que José Estebes teve oportunidade para crescer. “A transição para a televisão foi natural quando fizemos O Tal Canal”, conta Herman José. “Como a voz e a ideia estavam feitas, foi só pôr um casaco aos quadrados, empastar o cabelo, pôr umas patilhas, um bocadinho de vermelho nas bochechas e no nariz, e a personagem nasceu.”

“Naquela altura era tudo para ontem, mas foi animado e divertido. O Herman era um bom músico, as opiniões dele para mim também pesavam, a comunicação era fácil, e acho que funcionou bem. Naquelas situações também não puxava dos meus galões. Não me armava em Quincy Jones. Tentava abraçar a essência do projeto", recorda Ramón Galarza.

Havia alguma apreensão quanto à maneira como a personagem poderia ser recebida a norte do país, sobretudo no Porto. “Quando começámos, não sabíamos mesmo como é que ela ia ser recebida”, recorda o humorista. “Mas a partir do momento em que o [icónico treinador portista] José Maria Pedroto foi um dos convidados do José Estebes, a adesão foi total e militante.” Essa ligação afetiva com o Porto saiu ainda mais reforçada quando, em 1985, Jorge Nuno Pinto da Costa, eleito presidente do FC Porto três anos antes, aceita partilhar um momento com a personagem já no programa seguinte do humorista, Hermanias. Hoje, José Estebes está no museu do clube.

Da personagem à canção

Terão sido os administradores da EMI/Valentim de Carvalho, Francisco Vasconcelos e David Ferreira, a ter a ideia de desafiar Herman José a fazer uma marcha futebolística para o seu muito popular José Estebes. “Provavelmente a ideia foi dos dois, porque naquela sequência do [álbum] Serafim Saudade, o Herman gravava connosco e o grande autor de canções para o Herman era o Carlos Paião, também nosso artista”, recorda David Ferreira ao Observador. A dupla já tinha trabalhado precisamente em Serafim Saudade, mas também em temas de outro disco de paródias, Canção do Beijinho.

“Havia aquela excitação que sempre há nos Mundiais, a ideia gerou-se e a memória que tenho é que perguntámos ao Herman e ao Paião numa sexta-feira e, na segunda, o Chico chama-me e diz-me: queres ouvir a canção?”, lembra David Ferreira. Em poucos dias já havia uma maquete gravada em cassete. “Achei interessantíssima a ideia de fazer uma marcha futebolística, sobretudo porque o Carlos Paião, com o seu enorme talento, arrancou em poucos dias aquela letra e melodia fantásticas”, relata Herman José.

Embora tivesse um percurso em nome próprio com canções sérias e mais sofisticadas, David Ferreira descreve Carlos Paião como um “escritor profissional de canções” que se conseguia adaptar a qualquer guião, “com uma disciplina de escrita como praticamente ninguém da sua geração”. “Essa ideia muito romântica de que para se fazer uma grande canção tem de se estar com uma grande inspiração… Não, há os da inspiração e os da transpiração. E o Carlos Paião era da transpiração.”

Com a maquete gravada e aprovada, a EMI/Valentim de Carvalho reuniu outros artistas do seu catálogo para cantarem excertos da canção ou participarem nos coros. Luís Represas, Alexandra, Dany Silva e o próprio Carlos Paião foram os solistas, enquanto o coro foi composto por Marco Paulo, Vitorino, Jorge Fernando, Diana e Peter Petersen.

“Não me espantaria que a lista inicial fosse um bocadinho maior e que alguém não tivesse podido, mas confesso que não me lembro”, admite David Ferreira. “O Paião terá escrito a canção de sexta para segunda e terá sido gravada [nos estúdios da Valentim de Carvalho em Paço d’Arcos] um ou dois dias depois, porque era tudo para andar depressa. O casting era bom, porque são vozes muito próprias, são cantores com muita personalidade. Aquilo tem cor e é o que dá graça nestas coisas. Quando ouvimos a We Are The World, aquilo tem graça porque se mistura cantores de diferentes famílias musicais.”

Todos recordam a gravação como um momento divertido. “Sentimos logo que estávamos a fazer qualquer coisa de impactante e diferente”, lembra Herman José. “Foi divertidíssimo”, acrescenta Luís Represas em declarações ao Observador. “Foram umas horas muito bem passadas em estúdio, em que pudemos aliar o divertimento e o matar saudades uns dos outros ao profissionalismo exigível, como sempre, especialmente numa canção destas que vai encabeçar uma campanha para os portugueses no campeonato do mundo. Era uma música fantástica com o Herman a fazer esta declaração de humor — e também de amor, pela Seleção — de podermos demonstrar aos portugueses e aos jogadores que iam entrar em campo que estávamos totalmente com eles.”

“A mistura Herman-Paião foi muito importante. O Carlos era um tipo extraordinariamente talentoso. Há ali uma capacidade muito grande e a maneira como ele apanha muito do vocabulário que era utilizado nos programas desportivos, o próprio Herman mete bocas que pareciam mesmo de locutor desportivo... Estava completamente naquele universo", lembra David Ferreira.

Por sua vez, Jorge Fernando sublinha que “o grande destino da música é a partilha”, daí guardar com carinho esta sua pequena participação em Bámos Lá Cambada. “Era uma altura muito especial da minha vida, estava na época plena dos sonhos. Já se sabe que com o Herman não há tristezas, então foi fantástico, e o Carlos também era muito bem disposto. Ele era o meu grande amigo na música nessa altura, passávamos horas ao telefone quando não estávamos juntos e ele tinha uma grande disposição, daí conseguir fazer estas coisas cheias de um humor inteligente, muito bem escritas. Fiquei muito feliz de participar nesta cambada.”

Coube a Ramón Galarza fazer o arranjo. O produtor e instrumentista já trabalhava tanto com Carlos Paião (seguindo as pisadas do pai, o maestro Shegundo Galarza, que passou o testemunho para o filho) como com Herman José nos programas de televisão. “Naquela altura era tudo para ontem, mas foi animado e divertido. O Herman era um bom músico, as opiniões dele para mim também pesavam, a comunicação era fácil, e acho que funcionou bem. Naquelas situações também não puxava dos meus galões. Não me armava em Quincy Jones. Tentava abraçar a essência do projeto. Se aquilo era uma coisa popular, então vamos fazer uma coisa popular. Não vamos agora estar aqui a sofisticar demasiado as coisas, a ser pretensiosos.”

O êxito imediato

Naquela fase, no rebuliço típico de Mundial de futebol, gravaram em estúdio um vídeo da canção, que inclusive terá tido a participação de alguns futebolistas que não faziam parte da Seleção Nacional naquela altura. O vídeo, porém, não se encontra disponível publicamente — é provável que apenas exista nos arquivos da RTP.

“Naquela altura, os telediscos não eram pagos pelas editoras, era a RTP que queria material e nós dávamos as ideias, arranjávamos os sítios e os figurantes, e a RTP levava uma equipa pequenina de um operador de som, dois câmaras e um produtor”, explica David Ferreira. “Acho que um dos jogadores presentes era o Veloso, que não tinha sido convocado”, recorda sobre o antigo internacional português, que na altura era capitão do Benfica e não passou num teste de controlo de doping. “Tenho ideia de que ele apareceu, nós telefonámos-lhe… As coisas eram assim [risos]. ‘Não quer aparecer que isto é giro?’ Tenho impressão que nem foi um programa musical que fez isto. Pode ter sido uma coisa feita com o Telejornal ou a malta do desporto… Era tudo muito informal. Se eu dissesse ao Telejornal que tinha uma ideia para uma canção com o Herman e esta gente toda, claro que eles queriam e a coisa filmava-se. Quase que juro que fizemos umas filmagens na Rádio Comercial, a malta da rádio também era tudo simples. É giro, é uma ideia boa para mim e para ti, vamos todos juntos. Era assim que as coisas se faziam, só mais tarde é que começou a ser complicado.”

Com o apoio da televisão e das rádios, o êxito foi imediato. Terão vendido milhares de singles de Bámos Lá Cambada, com a canção no lado A do vinil de sete polegadas e o “instrumental rafeiro (rough mix)” no lado B. “Correu logo bem no dia do lançamento”, recorda Herman José. “Confesso que não foi inesperado, porque todos sentimos que a marcha era muito gira.”

“A mistura Herman-Paião foi muito importante. O Carlos era um tipo extraordinariamente talentoso. Há ali uma capacidade muito grande e a maneira como ele apanha muito do vocabulário que era utilizado nos programas desportivos, o próprio Herman mete bocas que pareciam mesmo de locutor desportivo… Estava completamente naquele universo. Para mim, é o melhor hino que a Seleção alguma vez teve”, acredita David Ferreira. “Não só é muito engraçado, como ainda por cima tem uma melodia que ficou. E aqui não houve nada de oficial, a Federação [Portuguesa de Futebol] ainda não estava organizada a esse ponto.”

Luís Represas argumenta que a canção “caiu na rua”. “Estava muito bem escrita, é fácil de toda a gente cantar e as pessoas, só de passarem por ela e de a ouvirem uma vez, começavam a assobiar. O modo como a letra está escrita, não se tornando uma canção lamechas, em que estamos a prometer sei lá o quê se ganharmos o campeonato, ou a dizermos que somos os maiores… É uma canção que tem uma energia própria e que apela a esse lado do tuga, que é dizer as coisas sérias a rir, aproveitar os momentos. Enquanto se divulga o nosso desejo de vitória, divulgamos também o nosso desejo de sermos felizes. A maneira como foi divulgada pelos meios de comunicação social, pelas rádios, na altura, também foi muito importante.”

"Nunca imaginei que, passados 40 anos, esta fosse uma música cantada por todas as gerações, uma música tão popular que acabo quase sempre os meus espetáculos com multidões de milhares de pessoas a acompanharem-me", diz Herman José.

Outro dos músicos que participaram na gravação foi o cabo-verdiano Dany Silva, radicado em Portugal há muitos anos. “Foi uma música bem aceite, ouviu-se muito durante o Mundial. Com a participação de todas as grandes figuras da música, e de outros no vídeo, pensei logo: isto vai ser um sucesso. É uma canção com muito ritmo, com uma letra muito engraçada. Teve muito sucesso e com razão.” Jorge Fernando descreve a “genialidade” de Carlos Paião, a capacidade de fazer melodias e letras “acessíveis” que toda a gente conseguia trautear assim que as ouvisse.

O fim da “cambada” e a improvável longevidade

Na primeira vez que Portugal participava de um Mundial desde 1966, a prova até começou bem com uma vitória frente a Inglaterra. Porém, os jogos contra a Polónia e Marrocos foram derrotas sentidas, e o descontentamento em relação à Seleção Nacional atingiu proporções inéditas. Isso também afetou a forma como Bámos Lá Cambada estava a ser recebida.

“A rapidez com que ela deixou de ser ouvida e vendida, assim que Portugal saiu, assim que foi desclassificado, na sua discutível participação de 1986…”, recorda Herman José. “O escândalo começou entre o segundo e o terceiro jogo, entre as duas derrotas”, realça David Ferreira. “O ambiente hostil à Seleção começa naquela altura, e o disco teve uma vida muito curta. Parou de vender de um dia para o outro. A brincadeira da cambada voltou-se contra eles próprios. Tornou-se, durante muito tempo, uma canção maldita — como se a culpa fosse dos jogadores, sobretudo daquele grupo do Barreiro.”

Bámos Lá Cambada tinha tudo para ficar perdida no tempo, esquecida e associada a uma má memória futebolística, a um período particularmente conturbado da Seleção Nacional que não deixava ninguém orgulhoso. Porém, a canção “renasceu”, como descreve Herman José. “Ela torna-se completamente independente daquele momento menos feliz da Seleção portuguesa e ganha uma vida própria. O que nunca imaginei é que, passados 40 anos, ela fosse uma música cantada por todas as gerações, uma música tão popular que acabo quase sempre os meus espetáculos com multidões de milhares de pessoas a acompanharem-me.”

Ramón Galarza encara o “tema orelhudo” como intemporal, o que ajuda a explicar a sua longevidade. “O espírito da música pode ser adaptado para este Mundial. Que no fundo é o povo a torcer pela sua Seleção, não é? É tão simples quanto isso. Por vezes são necessárias estas pequenas coisas para alegrar o povo. Quando são mais simples e diretas, acabam por… Se fosse algo mais sofisticado, se calhar as pessoas não iriam cantar tão facilmente.”

Jorge Fernando responde no mesmo sentido. “As coisas simples e boas têm essa particularidade. As coisas boas e complicadas, de que também sou fã, ficam no tempo, mas de uma forma reduzida. As coisas mais simples e boas vão-se manifestando, têm períodos cíclicos, e penso que foi o que aconteceu aqui.”

A escolha de Bámos Lá Cambada para o Mundial de 2022 no Qatar, como música oficial da Seleção Nacional e da Federação Portuguesa de Futebol, acabou por trazer ainda mais visibilidade (e legitimidade) ao hino humorístico-futebolístico. “Do meu repertório, faz parte das minhas reservas de ouro”, assume Herman José. “É daquelas armas secretas que resultam em qualquer momento e ambiente. Bámos Lá Cambada!”