Do pouquíssimo que vi, e não tenciono ver muito mais, a qualidade e a capacidade de entretenimento do futebol jogado no “Mundial” (tenham calma que a minha intenção é partir da bola para tratar de temas sérios, no fundo à semelhança daqueles políticos rústicos que se especializam em analogias do género “A oposição fez falta para cartão em vez de debater a proposta com seriedade” ou “O presidente é um árbitro que deixa jogar e apenas intervém se houver infracções graves”) é próxima de zero.
Dentro das proverbiais quatro linhas, o espectáculo dá sono. Fora delas, a excitação é inversamente proporcional. Se Fulano passa 90 minutos sem rematar à baliza, milhões de furiosos vão para a Internet classificá-lo de nulidade daninha que devia ter pendurado as chuteiras em 2008, ou preferencialmente nunca as devia ter calçado. Mas se depois Fulano marca um golo à selecção de um país cuja existência era desconhecida por 94,3% dos adeptos, confirma-se que Fulano afinal é um “génio” [sic] e o maior futebolista de sempre. Porém, se no dia seguinte Sicrano marca dois golos a um adversário similar, prova-se em definitivo que Sicrano é que é o maior ser humano a pisar a Terra desde que evoluímos das enguias. E isto enquanto Beltrano não entrou em campo e perpetrou um “hat-trick” contra a equipa de Vanuatu, proeza que durante meia-hora o consagra como G.O.A.T. (“Greatest Of All Time”, em estrangeiro).
O que quero dizer é que no futebol as coisas mudam num instante. A cada dez minutos Fulano, Sicrano e Beltrano revezam entre si os títulos de maiores da História na medida em que não há História. Nem memória. Os comentadores profissionais e amadores parecem sofrer de amnésia anterógrada, doença em que o paciente somente consegue lembrar-se dos segundos anteriores a novo “reset” do cérebro. E quando raramente se lembram dos anos e das décadas passadas é de maneira difusa, desfocada e a preto e branco, critérios que inventam para misturar Pelé, Cruyff, Zico, Maradona ou Beckenbauer e desvalorizar-lhes o talento por alegada falta de “preparo físico” ou de “sofisticação táctica”. Não importa se as selecções brasileiras de “antigamente” eram um prazer para a vista e a actual uma miséria sem excepções (sim: vi o desafio com a Escócia e foi um suplício quase cómico). O que é “bom” e “relevante” é, por definição, o que está a acontecer agora mesmo. E agora. E agora.
O pior é que o “presentismo”, conforme alguns chamam à epidemia, não se esgota no futebol. O vício de desprezar o passado ou enxovalhá-lo à luz das modas em curso contamina tudo. E, portanto, distorce tudo, do cinema à arquitectura, da literatura às artes. Numa época movida à velocidade e à densidade dos vídeos verticais do TikTok e do Instagram, as produções “contemporâneas”, leia-se as realizadas após anteontem, enterram sem escrúpulos o que havia na semana anterior. É, claro, um exercício profundamente infantil e orgulhoso da própria ignorância, responsável pelo horror estético das cidades e subúrbios, das inomináveis porcarias que Hollywood e o resto fabricam, do entulho que enche as galerias de arte e das frases vaporosas que enchem as páginas de pretensos “romances” recentes ou das mutilações que se infligem aos romances “velhos” e “inaceitáveis”. Quando se tenta andar para a frente sem arrastar o peso do que ficou para trás, é fatal que não se chegue a lado nenhum, excepto a este lugar “kitsch” e perdido num tempo que desgraçadamente é o nosso. Não é irónico que a ânsia pelo “moderno” seja assim retardada.
Retardada e, sem surpresas, perigosa. O “presentismo” é também o motor do “revisionismo histórico” que motiva a remoção de estátuas de “heteropatriarcas” caucasianos a pretexto de “culpas” que devemos expiar (ou “reparar”, no jargão em voga). O “presentismo” que ergue o “racismo” com aspas a crime supremo é o que leva a polícia a algemar uma vítima branca e a tolerar gangues de violadores paquistaneses e a aceitar recorrentes motins “raciais” à laia de tradição “cultural”. O “presentismo” que revê diariamente as previsões do Apocalipse é a razão pela qual indivíduos sem competência para gerir um condomínio apelam à ralé que modifique hábitos particulares e os fundamentos do clima em geral. O “presentismo”, ou a arte de não aprender nada, é o que convence tantos a se esquecerem das centenas de experiências tragicamente falhadas e continuem, em 2026, a achar que o socialismo é a solução. O “presentismo” permite que governantes sem préstimo nem vergonha subsistam ao sabor de índices de popularidade e à revelia das contas. O “presentismo” censura, atrofia, embrutece. Além de ridículo, o “presentismo” corrói a civilização.
E ocasionalmente pode divertir. Sobretudo se repararmos num pormenor inevitável: atender, como crianças ou primitivos, só aos brilhos LED do presente é garantir que em breve aquilo que hoje se pensa e se faz será devida e rapidamente ignorado ou ridicularizado pelos “presentistas” do futuro. Por mim, nem preciso de esperar pelo futuro.