Já chega de reformismo
A reforma laboral caiu. As ilusões sobre um Chega reformista deveriam cair com ela. Depois disto ainda há quem alimente a ilusão de que o partido venturista é a chave para grandes reformas liberalizadoras? Previ que isto ia acontecer, e não era particularmente difícil. O Chega é um partido personalista, populista, oportunista, de um nativismo à procura de bodes-expiatórios fáceis. Não tem, nem nunca teve um compromisso reformista liberal. Já mudou, aliás, radicalmente de programa, quando percebeu que certas medidas eram impopulares. Terá alguns convictos, mas é sobretudo o partido da ambição pessoal de André Ventura, a que se juntaram muitos descamisados de outros partidos, insatisfeitos com os tachos que lhes tinham cabido e à procura de melhores oportunidades. Independentemente de outras questões, quem alimenta a nostalgia autoritário por três Salazares, claramente, não quer ser uma alternativa modernizadora para o país.
Que Portugal precisa de mudanças não tenho dúvidas. Na verdade, o mercado laboral com o choque provável da robótica e da inteligência artificial pode estar à beira de mudanças radicais, a bem ou a mal. Mas o Chega é um partido sem qualquer visão estratégica de futuro para o país. A única mudança de fundo que realmente interessa ao seu líder é a mudança em quem tem poder, tachos e visibilidade. Basta verificar que o venturismo se aliou com Trump, abertamente hostil aos interesses de segurança europeus, e se juntou, no parlamento europeu com partidos como a AfD cuja grande prioridade é acabar com a União Europeia como a conhecemos (pelo menos o partido de Le Pen só quer reduzir o orçamento europeu para metade). Isso é do interesse de Portugal? Aí o Chega podia aprender alguma coisa com Salazar, que sempre recusou alinhamentos automáticos em blocos ideológicos, em nome da defesa do que entendia como o interesse nacional.
Infelizmente não se pode dizer que a estratégia abunde nos demais partidos. Afinal o atual governo continua sem conseguir aprovar o novo Conceito Estratégico de Defesa Nacional. E permitir a entrada, em poucos anos, de mais de meio milhão de migrantes, sem ponderar em que condições, também não é uma grande demonstração de visão estratégica da parte dos socialistas. Por outro lado, fazer de conta que não precisamos de imigrantes para fazer funcionar a economia, construir mais casas, cuidar dos mais velhos também não é muito estratégico.
Infelizmente, a fragmentação e a polarização que dão força ao Chega podem ser um alibi conveniente para os dois partidos fundadores do sistema político vigente nos últimos cinquenta anos se acomodarem na ausência de grandes reformas ou de uma grande estratégia nacional. Pensar que não teremos que repensar o lugar de Portugal no Mundo, num sistema global cada vez mais incerto e conflituoso, numa altura em que o ambiente, a tecnologia, a defesa estão a passar por enormes mudanças, é alimentar uma ilusão perigosa. Portugal e a Europa precisam de fazer mudanças difíceis se quiserem continuar a ser competitivos e seguros. Isso é um desafio para o governo e os partidos, mas também é um desafio para todos nós.
Já chega de Trump
A cimeira dos G7, começou bem, mas acabou naquilo que na diplomacia se chama uma peixeirada. Os G7 foram criados pelas sete maiores economias do Ocidente, entre 1973-1976, precisamente para lidar com o primeiro choque do petróleo, com origem no Golfo. Durante décadas foram o núcleo duro de governação económica global. Hoje em dia essa é mais a função do G20, de que estes países e a UE continuam a fazer parte, mas em conjunto com outras grandes economias que souberam tirar partido da globalização. O G7 passou a ser o núcleo duro de gestão da grande estratégia do Ocidente, exceto com Trump. Este ano, a cimeira em Évian, na presidência rotativa da França, até começou por correr melhor do que em anos anteriores. Donald Trump ficou até ao fim (Macron garantiu isso, só havia jantar no Palácio de Versalhes para quem ficasse para o último dia). Até foi possível, ao contrário de outras cimeiras com Trump, algumas declarações finais consensuais, em áreas como o apoio à Ucrânia ou o acesso a matérias-primas críticas. O tom foi relativamente cordial.
Qual foi o problema? A líder italiana Giorgia Meloni tentou, mais uma vez, pragmaticamente, normalizar a relação com os EUA, um aliado importante, embora sem aceitar um alinhamento automático, como qualquer líder nacional sério de qualquer país que se leva a sério. Trump aproveitou a ocasião para tentar humilhar publicamente Meloni por se ter atrevido a seguir o que considerava serem os interesses da Itália, não envolvendo o país mediterrânico numa guerra improvisada. E também por ter feito o que qualquer líder italiano que se preze faria, defendendo o Bispo de Roma, o Papa, contra um ataque pessoal do Presidente dos EUA. Meloni não tem uma divergência de fundo com Trump, pelo contrário, é ideologicamente próxima do presidente dos EUA, por exemplo, na questão da restrição da imigração. É por isso que esta rutura é importante. Mostra que Trump exige lealdade, alinhamento automático, mas sem qualquer reciprocidade. Se os europeus achavam que votando em líderes trumpistas teriam a garantia de uma boa relação com os EUA, as dúvidas ficam esclarecidas. Efetivamente, como Meloni disse a Trump nesta troca de galhardetes, uma excessiva proximidade e alinhamento com o atual presidente dos EUA, é um perigo para os líderes europeus. Parece que Ventura já começa a perceber isso.