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(A) :: A Cultura das Tampas Desniveladas aplicada à Política

A Cultura das Tampas Desniveladas aplicada à Política

A tampa desnivelada, o mato que invade o passeio e o sem-abrigo esquecido por onde anda a elite, não são fatalidades geográficas. São escolhas diárias de um País que se habituou a encolher os ombros.

José Maria Matalonga
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Quem pelo menos uma vez na vida não se interrogou do porquê da nossa incapacidade em nivelar as tampas da rua com o pavimento existente? Será falta de tecnologia ou revela uma cultura de falta de supervisão, responsabilidade e um não ligar às coisas mal feitas.

Depois de rodar mais de 7000 quilómetros de moto por diversas estradas europeias, o regresso a Portugal traz um choque de realidade que não é visual, é físico. Sentido no corpo e na mecânica. Levando a coisa para um lado mais sério, o verdadeiro problema  não são as tampas desniveladas com o asfalto, mas sim a cultura política e social que as tolera. O desnível crónico que destrói jantes, fura pneus e ameaça a vida de quem anda de veículo nas ruas, é o espelho perfeito de um país que substituiu o rigor pela negligência e a objetividade  pelo ruído partidário.

Em França, Espanha ou norte de Itália, há um rigor cego com a construção das estradas, são tapetes planos onde as tampas estão milimetricamente niveladas. Mas quando descemos ao Sul de Itália, a familiaridade regressa: as tampas voltam a estar afundadas, as estradas passam a ser mal sinalizadas e impera o caos.

Haverá alguma relação entre a engenharia rodoviária e a cultura de um povo? Claramente penso que sim. Onde a mentalidade é latina, propensa ao fatalismo e à desorganização, a infraestrutura sofre. Onde impera o rigor e a responsabilização, o chão é liso.

Esta “Cultura do Desnível” e da falta de supervisão, pode ser exemplificada, em Portugal, em quatro níveis diferentes:

1. O Ruído Político, contra a Objectividade

A recente rejeição  da reforma da lei do trabalho na Assembleia da República, ilustra perfeitamente esta falta de objetividade que nos afasta da Europa competitiva.O debate mediático do dia seguinte, centrou-se apenas em saber se o resultado era uma “vitória” ou “derrota” do Governo, ou na imprevisibilidade do Chega. Quase nenhum comentador analisou se a lei traria benefícios reais para as pessoas ou para a produtividade do país. É a táctica da distração.Discute-se o ruído do embate político, mas ignora-se a engenharia necessária para nivelar o piso e fazer o país avançar.

2. O Poder Local e o “Jardim Selvagem”

Tal como no Sul de Itália, quem lidera os municípios em Portugal sofre de uma paralisia crónica provocada pelo clientelismo.Os presidentes de Câmara são eleitos com base em discursos de modernização e anseios dos munícipes, mas acabam engolidos pela burocracia e pelos lobbies instalados.A falta de supervisão salta à vista nos passeios, nos separadores centrais e em redor das árvores urbanas, onde o mato cresce sem controle. Há quem lhe chame, ironicamente, “jardim selvagem”, mas é apenas desleixo partilhado e falta de brio de uma cadeia de comando de quem foi eleito e devia fiscalizar.

3. A Lei que Ninguém Cumpre

O nosso problema nunca foi a falta de legislação (temos leis para tudo), mas sim a total ausência de consequências.O próprio Estado ignora as regras que cria.Os cartazes políticos continuam nas ruas meses após as eleições, violando os prazos legais, sendo por vezes substituídos apenas no sufrágio seguinte. Se os partidos ignoram a lei à vista de todos, com que autoridade moral vão exigir que o empreiteiro nivele a tampa da rua?

4.A Conivência pelo Desgaste e o Contraste Social

O cidadão comum, exausto de fazer reclamações sem seguimento, acabou por normalizar o absurdo, adotando a mesma postura resignada que se vê nas regiões menos desenvolvidas da Europa.O desleixo atinge o seu pico quando, no passeio do bairro mais nobre da cidade, à porta das elites mais cultas, ricas e poderosas, se instala a tenda de campismo de um sem-abrigo.Ninguém manda retirar, ninguém realoja, ninguém resolve. A miséria humana passa a fazer parte da paisagem urbana, tal como o mato no rail ou a tampa desnivelada.O português já não exige rigor. Desvia-se do buraco, ignora a injustiça à porta de casa, tolera a falta de supervisão e paga o conserto do pneu do próprio bolso.

A tampa desnivelada, o mato que invade o passeio e o sem-abrigo esquecido por onde anda a elite, não são fatalidades geográficas. São escolhas diárias de um País que se habituou a encolher os ombros. Enquanto o cidadão português continuar  a desviar-se do buraco em silêncio, a pagar o conserto do pneu do próprio bolso e a votar no ruído em vez do rigor, a “Cultura do Desnível” continuará a governar as nossas vidas e instituições.

Mudar Portugal  exige uma nova postura cívica e política. Cívica onde o cidadão recusa a resignação, rejeita o desleixo e exija o brio que nos falta. Política onde os Governantes expliquem as vantagens reais das suas medidas com clareza, abandonando os chavões vazios dos discursos de congresso,  pois começamos a ficar cansados de tanto ruído em troca de “um” nada.