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Ronaldo e a morte do futebol

[Este texto foi escrito na quarta-feira passada, antes do Portugal-Uzbequistão e do Portugal-Colômbia, mas os valores que defende não dependem desses resultados.]

Tiago de Oliveira Cavaco
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Dos que gostam de futebol, desprezo principalmente os que o defendem na sua essência. Quando os ouço a queixarem-se do aburguesamento do desporto, de como o VAR matou a respiração natural da competição, da podridão da FIFA, entre outras denúncia supostamente proféticas, lembro-me porque me mantenho cauteloso com idealistas: para eles Génesis 3 (a parte da Bíblia que conta do fruto proibido a ser trincado) acabou de acontecer. E compreendam que eu, com quase 49 anos, tenha pouco paciência para quem acaba de descobrir que vive num mundo caído.

Não me tenham por cínico: não quero celebrar as degenerescências que são reais em qualquer aspecto da nossa existência. Não sou indiferente ao que piora e estou convicto de que há coisas que pioram mesmo no futebol (o aburguesamento do desporto, o VAR a matar a respiração natural da competição, a podridão da FIFA, etc.). Mas entre o mal daquilo que na vida piora, e o mal da pessoa que tenta a todo o custo evitar que algo piore, tendo a escolher o primeiro. E reconheço que não sou da religião do futebol: tive-o no coração durante a infância mas descobri amores muito maiores na adolescência. O rock’n’roll é a minha bola.

Ainda assim, pratico a bola do mesmo modo que Portugal é católico: se o Papa vem cá, somos todos dele. E o Papa vir cá é para mim na bola o mundial ou o europeu. Da mesma maneira que o Papa vir cá deixa os católicos praticantes desconfiados da festa de tantos que raramente vão à igreja, o mundial ou o europeu suscita reservas e até indiferença para quem é de facto ferrenho da bola. Os meus amigos ferrenhos da bola desprezam portanto a selecção, sem a necessidade de disfarçar muito. Compreendo. Sei que isso faz de mim o tal católico sazonal por época da vinda do Papa. Aceito.

Este fenómeno é especialmente visível na questão Cristiano Ronaldo. Os reais crentes da bola abominam hoje o Cristiano Ronaldo. Já os não-praticantes como eu, indiferentes às exigências do futebol essencial, têm-no como santo da sua devoção ocasional. Gostar de Ronaldo é a vela que se acende em Fátima por quem durante o ano todo evita a missa: o custo é relativo. Mais ainda: os reais crentes da bola em Portugal tranquilamente preferem Messi a Ronaldo. Uma vez mais compreendo e faço por remeter-me à insignificância de quem é mesmo da religião do futebol. Mas, por outro lado, não consigo esconder uma perturbação.

Quem prefere Messi está doido? Já parou para olhar realmente para ele? Eu vi o resumo do Argentina-Áustria e nem ao fim desses 4 minutos e 37 segundos consegui chegar. Messi é o grande futebolista mais desinspirado de sempre. Esta constatação nasce dos golos que marca e de como os festeja, do produto e do processo, do Génesis e do Apocalipse. Cheguei lá, reconheço, diante do desabafo cansado do meu filho Joaquim, de 18 anos: “Olha-me para este NPC!” (sigla em inglês para “non-playable character”, as figuras que nos jogos de computador não podem ser jogadas). Resumindo: se há algo que Messi realmente põe a rebolar é o Maradona no túmulo.

Se quisermos usar linguagem mais aristotélica, reconheceríamos que em Messi se fez uma excisão entre potência e entidade. Messi joga futebol como se a habilidade se tivesse separado da pessoa. Em Messi só existe futebol, não existe futebolista. Preferir isto é da ordem da aniquilação da humanidade inteira. Se a defesa de um futebol na essência servir de pretexto para alguém como ele ser preferido sobre Cristiano Ronaldo, então eu desejo que a essência do futebol morra para que sobre algum futebolista. Messi tem sido o maior jogando perto da perfeição: parabéns para ele; Ronaldo tem sido o maior de outro modo: há esperança para todas as imperfeições do mundo.

Para a sepultura da essência do futebol já está preparado um busto. Esse mesmo, o original, aquele que pouco tempo esteve no aeroporto de Ponta Delgada: semi-desfigurado na sua febril vaidade pós-adolescente, Cristiano Ronaldo ri. O futebol morreu mas ele não.

Para o meu amigo Miguel.