Há poucas ameaças meteorológicas capazes de matar em menos de um segundo. Um raio é uma delas. Pode aquecer o ar a cerca de 30 mil graus Celsius — várias vezes mais do que a superfície do Sol —, transportar 300 milhões de volts e matar uma pessoa sem sequer a atingir diretamente. Pode rebentar uma árvore de dentro para fora, incendiar estruturas, atravessar o solo depois de cair a dezenas de metros de distância ou entrar por cabos, vedações e canalizações. É por isso que, nos Estados Unidos, onde o risco é levado muito a sério, basta que uma descarga elétrica seja detetada a cerca de 13 quilómetros de um estádio para um jogo ou treino ser imediatamente interrompido.
É isto que está a acontecer no Mundial de Futebol. Portugal viu um treino cancelado (e já tinha visto outro interrompido) e o França–Iraque esteve parado quase duas horas devido a uma trovoada. Para muitos adeptos europeus, estas paragens podem parecer excessivas, até ridículas. Quando já não chove, quando o céu parece estar a abrir ou quando a trovoada parece afastar-se, para quê continuar a esperar, perguntam. Só que é precisamente aí que começa uma parte importante do perigo.
Os especialistas que estudam os raios há anos chegaram a uma conclusão: o risco não acaba quando a chuva diminui ou até desaparece. E a maioria dos acidentes não acontece porque a tempestade, carregada de energia, era impossível de prever — normalmente são fenómenos muito previsíveis, até a alguns dias de distância. Acontece porque alguém subestimou uma trovoada que parecia pouco perigosa.
“A principal fragilidade continua provavelmente a ser a subestimação do risco”, afirma Stéphane Schmitt, especialista em deteção de raios da Meteorage e coautor de um dos maiores estudos europeus sobre acidentes provocados por raios, em resposta ao Observador. “Nas nossas latitudes, os acidentes são relativamente raros, o que pode dar a impressão de se tratar de um risco reduzido. No entanto, quando ocorrem, as consequências podem ser graves ou mesmo mortais.”
Os raios podem matar mesmo quando não atingem diretamente as pessoas
A primeira ilusão sobre os raios é pensar que só há perigo se a descarga cair diretamente sobre uma pessoa ou alguma coisa. Um raio pode matar de facto por impacto direto, mas também pode atingir uma árvore e “saltar” para alguém que está debaixo dela ou pode cair a vários metros de distância e matar ao espalhar a corrente elétrica pelo chão. Pode entrar por uma vedação metálica, um poste, um cabo, uma canalização, um qualquer equipamento elétrico ou uma estrutura de estádio. E pode ainda atingir um grupo inteiro de pessoas ou animais sem que nem todos tenham sido tocados diretamente pela descarga principal.
É por isso que uma praia, uma piscina exterior, uma montanha, um campo agrícola, um campo de golfe ou um campo de futebol e uma bancada aberta são locais particularmente expostos durante uma trovoada. E o problema não é a chuva, é a eletricidade. O National Weather Service, serviço meteorológico norte-americano, explica que um raio pode ter cerca de 300 milhões de volts e cerca de 30 mil amperes. Para leigos, pode-se fazer a comparação com uma tomada elétrica doméstica nos Estados Unidos, que funciona normalmente com 120 volts e 15 amperes (em Portugal são 230 V com uma frequência de 50 Hz). A diferença é por isso de (grande) escala. E ajuda a perceber a razão pela qual os protocolos de segurança norte-americanos são tão cautelosos.
Há também uma razão física para a violência dos raios. A sua descarga aquece instantaneamente o ar à sua volta e esse aquecimento súbito provoca uma expansão explosiva do ar, que produz a onda sonora que ouvimos, os trovões. Vemos primeiro o relâmpago porque a luz viaja muito mais depressa do que o som e só depois ouvimos o trovão, que chega com o atraso relativo à distância da descarga.
Essa diferença entre ver e ouvir é uma das razões pelas quais a perceção humana é má conselheira. Num estádio ruidoso, com vento, chuva, música, adeptos aos berros e anúncios sonoros, pode não ser possível ouvir o trovão. E de dia, ou com muita nebulosidade, pode não ser fácil ver o relâmpago. Mas mesmo quando já não se vê nada e parece já ter passado, a tempestade pode continuar suficientemente perto para produzir uma descarga perigosa.

Como nasce um raio
É preciso também saber que um raio começa muito antes de chegar ao solo. Dentro de uma nuvem de trovoada, normalmente uma cumulonimbus (nuvem densa, de grande desenvolvimento vertical e formato característico de bigorna, conhecida popularmente como “nuvem de tempestade”), há movimentos verticais intensos. Gotas de água, cristais de gelo e pequenos pedaços de granizo chocam entre si enquanto sobem e descem dentro da nuvem. Essas colisões ajudam a separar cargas elétricas. Em termos simples, a parte superior da nuvem tende a ficar carregada positivamente e a base tende a acumular carga negativa. O solo responde acumulando carga oposta.
Durante algum tempo, o ar funciona como isolador. Mas há um limite: quando a diferença de potencial elétrico se torna suficientemente grande, o ar deixa de conseguir impedir a passagem da corrente. Forma-se então um canal de descarga, uma espécie de caminho elétrico invisível que liga regiões com cargas opostas. Quando esse canal se completa, a corrente passa violentamente: e temos um raio.
Nem todos os raios chegam ao solo. Muitos ficam dentro da própria nuvem ou passam de uma nuvem para outra. Os que interessam mais para a nossa segurança são os raios nuvem-solo, designados muitas vezes pela sigla inglesa CG, de cloud-to-ground. São estes que atingem pessoas, animais, árvores, edifícios, postes, campos, linhas elétricas e infraestruturas.
Mas mesmo esta distinção pode enganar. Um único fenómeno elétrico pode ter vários impulsos de corrente. Aquilo que, para quem olha, parece “um raio”, pode ser composto por várias descargas muito próximas no tempo. E o perigo não depende apenas de o raio ser visível ou espetacular: uma trovoada moderada, com poucas descargas, pode ser suficiente para matar se apanhar pessoas ou animais no local errado.
O estudo da Meteorage mostra que os acidentes “não ocorrem principalmente durante trovoadas súbitas ou muito rápidas”, explica Schmitt ao Observador. “São as trovoadas com deslocação lenta que estão na origem de cerca de dois terços dos acidentes.”
O que acontece quando um raio atinge o corpo humano
Um raio não se comporta como uma corrente elétrica comum, como se fôssemos eletrocutados. O contacto é extremamente rápido, a tensão é altíssima e a corrente pode seguir trajetos inesperados pelo corpo ou pela superfície da pele. Em muitos casos, a descarga não atravessa integralmente a pessoa como se fosse uma corrente contínua. Pode produzir um fenómeno conhecido como flashover, em que parte da corrente passa apenas pela superfície do corpo, o que ajuda a explicar por que razão a grande maioria das vítimas sobrevive. Mas sobreviver não significa sair ileso.
O National Weather Service estima que cerca de 90% das pessoas atingidas por raios sobrevivem. O dado pode parecer tranquilizador, mas na verdade é enganador porque muitos dos sobreviventes ficam com sequelas físicas e neurológicas duradouras. Podem sofrer paragens cardíacas ou respiratórias, perda de consciência, queimaduras, lesões auditivas, cataratas, danos neurológicos, dores crónicas, perturbações de memória, dificuldades de concentração, alterações do sono e mudanças de personalidade. Sim, até nesse capítulo pode haver efeitos.
Uma publicação do Brazilian Journal of Surgery and Clinical Research, dedicada à mortalidade por raio atmosférico, sublinha precisamente essa diferença entre mortalidade e morbilidade. O artigo diz que se calcula que 5% a 10% dos acidentes com raios sejam fatais e que a paragem cardiorrespiratória é a principal causa de morte. Mas também enumera um conjunto de lesões que podem afetar os sobreviventes: hemorragias intracranianas, confusão, paralisia, cegueira transitória, cataratas, perfuração do tímpano, fraturas, deslocamentos e contusões provocadas pela onda de impacto. A recuperação pode ser lenta e deixar sequelas neuropsicológicas, como memória debilitada, dificuldade de concentração, perturbações do sono e as tais alterações de personalidade.
O mesmo estudo chama a atenção para outro ponto essencial: na maioria das vezes, as pessoas não são atingidas diretamente por um raio, mas por correntes indiretas, muitas vezes vindas do chão. Esta é uma das ideias mais importantes para compreender os protocolos em estádios e eventos ao ar livre. O perigo não está apenas no ponto de impacto, está também na forma como a corrente se espalha a partir dele.
É por isso que a recomendação “não se deite no chão” é tão importante. Durante uma trovoada, a tentação pode ser baixar-se ou deitar-se para não ser o ponto mais alto e o primeiro a ser atingido. Erro. Se houver corrente a propagar-se pelo solo, quanto maior for a área de contacto com o chão, maior pode ser o risco. O objetivo não é ficar rente ao solo, é sair do exterior e procurar abrigo seguro.

Árvores, animais e a corrente que se espalha pelo chão
As árvores são uma das imagens mais enganadoras numa trovoada porque protegem da chuva, mas não protegem dos raios. Pelo contrário: podem aumentar o risco. Uma árvore isolada, ou mais alta do que os objetos em redor, pode tornar-se um caminho preferencial para a descarga elétrica. Quando o raio a atinge, a corrente pode descer pelo tronco, saltar lateralmente para uma pessoa próxima ou espalhar-se pelo solo. A água e a seiva no interior da árvore aquecem quase instantaneamente, transformam-se em vapor e expandem-se de forma explosiva. É por isso que algumas árvores parecem rebentadas de dentro para fora depois de uma trovoada, com casca arrancada, ramos partidos ou o tronco aberto.
O risco não é apenas teórico. Em Portugal há casos que ajudam a perceber a mecânica do perigo: em 2010, a RTP noticiou a morte de um homem atingido por um raio enquanto trabalhava no campo. Segundo a notícia, a vítima ter-se-á abrigado da chuva e da trovoada debaixo de uma árvore, precisamente o comportamento que os especialistas desaconselham.
Outro caso dos arquivos da RTP mostra a força da corrente pelo solo. Em Travanca, no concelho de Vinhais, um rebanho foi atingido por um raio e morreram 15 ovelhas. Episódios deste tipo são típicos da chamada corrente de terra: a descarga atinge o solo ou um objeto próximo e a energia espalha-se pelo terreno. Como os animais têm as patas afastadas, pode formar-se uma diferença de potencial entre os pontos de contacto com o chão, fazendo passar corrente através do corpo. O mesmo princípio explica por que razão uma pessoa pode ser ferida por um raio que caiu a vários metros de distância.
Esta é uma das razões pelas quais os espaços amplos e abertos são perigosos. Não é preciso estar diretamente sob a descarga. Basta estar dentro da zona onde a corrente se propaga.
O carro protege. Os pneus não
Outra ideia muito repetida é a de que um carro protege dos raios por causa dos pneus. Isso não é verdade. Um carro fechado pode ser um abrigo relativamente seguro, mas a proteção não vem da borracha, vem sobretudo da carroçaria metálica. Quando um raio atinge um automóvel, a corrente tende a circular pelo exterior da estrutura metálica e a seguir para o solo. Por isso, durante uma trovoada, um automóvel fechado, com janelas fechadas, é muito mais seguro do que ficar no exterior.
Mas isto não se aplica da mesma forma a descapotáveis, veículos abertos, carrinhos de golfe, motas ou bicicletas. Também não torna seguro tocar em partes metálicas ligadas ao exterior durante uma descarga. A regra é simples: estar dentro de um veículo fechado é melhor do que estar ao ar livre, mas o abrigo ideal continua a ser um edifício, com paredes, teto, instalação elétrica ou canalização.
Pelo mesmo motivo, pequenas coberturas — palas, tendas, quiosques, abrigos, paragens, bancadas abertas ou estruturas metálicas temporárias — não devem ser confundidas com locais seguros. Podem proteger da chuva, mas não necessariamente da eletricidade.

O pára-raios não impede o raio, os telemóveis não os atraem e a vítima pode ser tocada
O nome é enganador. Um pára-raios não “pára” raios no sentido de impedir que eles aconteçam. Também não cria uma bolha de proteção absoluta à volta de um edifício ou de um espaço exterior. O que faz é oferecer à descarga um caminho preferencial e mais seguro até à terra. Um sistema de proteção contra descargas atmosféricas é concebido para captar a corrente, conduzi-la por condutores apropriados e dissipá-la no solo, reduzindo o risco de incêndio, explosão, danos estruturais ou passagem da corrente por caminhos perigosos dentro do edifício.
Ou seja, um pára-raios protege sobretudo a estrutura. Não torna seguro permanecer no exterior durante uma trovoada. Estar perto de um edifício com pára-raios não é o mesmo que estar dentro de um abrigo seguro. E num estádio aberto, mesmo que existam sistemas de proteção e deteção, mesmo que haja para-raios, jogadores, árbitros, equipas técnicas, jornalistas, funcionários e pessoal operacional continuam expostos se estiverem no relvado quando há descargas elétricas nas proximidades.
Os telemóveis também não “atraem” raios de forma relevante. O perigo de usar o telemóvel ao ar livre durante uma trovoada não é o aparelho em si, é, repita-se, estar no exterior. Já os telefones fixos ligados por cabo, em edifícios sem proteção adequada, podem representar risco porque a corrente pode entrar por linhas elétricas ou de telecomunicações. A recomendação é evitar equipamentos ligados à rede e afastar-se de canalizações, janelas, varandas e estruturas metálicas durante a trovoada.
Há outro mito perigoso: a ideia de que uma pessoa atingida por um raio fica “eletrizada” e não deve ser tocada. Uma vítima de raio não retém carga elétrica e pode e deve ser assistida imediatamente. Se estiver inconsciente, sem respirar ou sem pulso, deve ser acionada ajuda médica e iniciadas manobras de suporte básico de vida, quando houver alguém treinado para o fazer. A paragem cardiorrespiratória é uma das principais causas de morte em acidentes com raios, e a rapidez da assistência pode ser decisiva.
Esta é uma diferença importante face a outros acidentes elétricos em que a vítima pode continuar em contacto com uma fonte ativa de corrente. No caso de um raio, a descarga já passou. O perigo imediato para quem presta socorro não é tocar na vítima, é (uma vez mais) continuar ao ar livre durante a trovoada. A prioridade deve ser chamar socorro, iniciar assistência e, sempre que possível, deslocar todos para local seguro.
O maior estudo europeu desmonta vários mitos
Durante muito tempo, os acidentes provocados por raios foram encarados como acontecimentos inevitáveis, quase obra do acaso. A ideia de que uma descarga elétrica “escolhe” aleatoriamente uma vítima ainda faz parte do imaginário coletivo, mas a investigação científica dos últimos anos tem vindo a mostrar precisamente o contrário: a esmagadora maioria dos acidentes acontece em situações que poderiam ter sido evitadas.
Essa é a principal conclusão deste que é o maior estudo europeu sobre vítimas de raios, publicado em 2022 na revista científica La Météorologie. Os autores, Stéphane Schmitt e Michaël Kreitz, analisaram 215 acidentes humanos provocados por raios em 20 países europeus, incluindo um estudo detalhado dos 56 casos registados em França ao longo de uma década.
A primeira conclusão é reveladora. “Quase três vítimas em cada cinco praticavam uma atividade de lazer e um caso em cada cinco ocorreu no contexto profissional”, escrevem os autores. Traduzido para a realidade do dia a dia, significa que a maioria das vítimas não estava em situações extraordinárias nem a desafiar tempestades extremas, estava simplesmente a fazer caminhadas, a praticar desporto, a trabalhar no campo, a pescar, a passear ou simplesmente ao ar livre quando a trovoada chegou. Segundo Schmitt, em declarações ao Observador, “as ferramentas de deteção de raios poderiam ter sido eficazes em quase três quartos das situações analisadas, permitindo alertar para o perigo mais de 30 minutos antes do acidente.”
Mas é a conclusão seguinte que verdadeiramente muda a forma de olhar para este fenómeno. Schmitt e Kreitz escrevem que “os resultados do estudo da previsibilidade mostram que a maioria das trovoadas responsáveis pelos acidentes podia ser antecipada e só muito raramente foi súbita ou imprevisível.” Na maioria dos casos, as tempestades perigosas já estavam identificadas antes de provocarem vítimas. A investigação desmonta ainda outro mito: não são necessariamente as tempestades mais violentas que provocam mais acidentes.
Uma tempestade extremamente violenta tende a assustar as pessoas e leva-as a procurar abrigo rapidamente. Já uma trovoada aparentemente moderada cria frequentemente uma falsa sensação de segurança. Parece haver tempo, parece que ainda está longe, parece que vai passar ao lado. É precisamente nessa zona cinzenta que acontecem muitos acidentes. O estudo acrescenta ainda um dado particularmente importante para a meteorologia operacional. “A esmagadora maioria das situações ocorreu sob vigilância meteorológica amarela”, o nível mais baixo dos avisos emitidos em muitos países europeus. Isto significa que um aviso amarelo não deve ser interpretado como ausência de perigo. Significa apenas que existe potencial para fenómenos localmente perigosos. E os raios são um excelente exemplo disso.

Portugal também está exposto
Os números portugueses ajudam a perceber outra ideia importante: um ano com menos trovoadas não é necessariamente um ano menos perigoso. No seu mais recente Relatório de Trovoadas 2025, a Meteorage contabilizou 18.496 raios nuvem-solo em Portugal continental e 134 dias com atividade elétrica, valores inferiores aos de 2024. À primeira vista, podia parecer uma boa notícia. Mas a empresa francesa deixa um aviso que resume praticamente todo o conhecimento atual sobre este fenómeno. “O número de raios de um ano para o outro não reflete, por si só, o nível de perigo.” E, noutra passagem do relatório, escreve-se que “baixa atividade não significa baixo risco.”
As duas frases são de Stéphane Schmitt, o especialista em deteção de raios da Meteorage e coautor deste estudo europeu. A ideia é simples: basta um único raio, no local errado e no momento errado, para provocar uma tragédia. É precisamente por isso que os especialistas olham menos para o número absoluto de descargas e muito mais para o contexto em que ocorrem. Um ano pode ter menos raios, mas concentrados em zonas densamente povoadas, durante grandes eventos ao ar livre ou em regiões particularmente vulneráveis: nesse caso, o risco pode ser superior ao de um ano com muito mais atividade elétrica.
O relatório de 2025 mostra ainda que, apesar de a atividade global ter sido reduzida, houve episódios localmente muito intensos. Novembro entrou para a história como o novembro com maior atividade elétrica desde que existem registos da Meteorage, com cerca de 8.300 raios nuvem-solo, mais do dobro do anterior máximo registado para esse mês. Segundo a empresa, a sucessão de depressões atlânticas e o forte contraste entre massas de ar favoreceram a formação de tempestades particularmente ativas.
A Meteorage lembra também que os raios não provocam apenas vítimas humanas. Em 2025, a empresa identificou incêndios florestais desencadeados por descargas elétricas em vários países europeus, incluindo o grande incêndio do distrito de Coimbra.
Este ano, a dimensão de alguns raios já impressionou. Na madrugada de 10 de maio, uma intensa linha de trovoadas atravessou a Grande Lisboa. Segundo dados do IPMA divulgados pelo Correio da Manhã, uma das descargas atingiu 265 quiloamperes, seguindo-se outra, poucos minutos depois, com 174 quiloamperes. No Baixo Alentejo foi registada outra descarga superior a 220 quiloamperes. Ao longo dessa madrugada, segundo dados do IPMA, foram contabilizadas quase três mil descargas positivas em apenas 24 horas, algumas das mais energéticas que ocorrem na atmosfera.
A falsa sensação de segurança
A Meteorage retirou uma consequência prática deste estudo. No comunicado divulgado depois da interrupção do jogo França-Iraque, no Mundial, a empresa chamou a atenção para um momento particularmente perigoso: “O ponto crítico não reside apenas na decisão de interromper uma atividade, mas também no momento de a retomar.” A explicação é simples: “Muitos acidentes ocorrem quando a tempestade parece afastar-se ou perder intensidade, criando uma falsa sensação de segurança.”
É precisamente essa falsa sensação que explica por que razão muitos jogos parecem ficar interrompidos “demasiado tempo”. Na verdade, os protocolos não procuram apenas evitar a primeira descarga. Procuram impedir que jogadores, árbitros, técnicos e espectadores regressem ao exterior quando o risco ainda existe. As interrupções no Mundial podem parecer frustrantes, reconhece Schmitt, “mas têm também uma virtude pedagógica: tornam visível um risco frequentemente subestimado.”
“Não se pode deixar espaço ao acaso quando se trata de proteger equipas, intervenientes ou público”, diz o especialista da Meteorage. “Estes protocolos criam um quadro claro, partilhado e antecipado, permitindo tomar decisões rápidas e justificadas.”
Poucos países levaram esta ideia tão longe como os Estados Unidos. Nas últimas décadas, o país investiu fortemente na investigação sobre raios, em campanhas públicas de sensibilização e em sistemas automáticos de deteção de descargas elétricas. A mensagem tornou-se conhecida em praticamente todas as escolas norte-americanas: “When Thunder Roars, Go Indoors” (traduzido literalmente, “Quando o trovão ruge, vá para dentro”). Não é apenas um slogan, é uma regra operacional. O National Weather Service resume a regra numa frase simples: se o trovão já é audível, a tempestade está suficientemente perto para representar perigo.
Qualquer pessoa que consiga ouvir o trovão está suficientemente perto da tempestade para poder ser atingida por um raio. Não é necessário estar a chover, nem é necessário ver o relâmpago. O simples facto de se ouvir o trovão significa que existe perigo. O National Weather Service recomenda que as atividades ao ar livre só sejam retomadas pelo menos 30 minutos depois de o último trovão ser ouvido. A recomendação parece simplista, mas resulta de décadas de investigação sobre acidentes reais. O Centers for Disease Control and Prevention – CDC (em português, Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos) recomenda exatamente o mesmo.
Esperar meia hora pode parecer exagerado para quem está numa bancada ou a ver um jogo pela televisão. Mas os especialistas lembram que um raio pode cair muito para além da zona onde está a chover. Existem mesmo descargas conhecidas por bolt from the blue — “raios vindos do nada” — capazes de atingir zonas aparentemente afastadas da tempestade principal.
Porque é que a perceção humana falha
Quase tudo nos raios contraria a intuição. A chuva pode estar fraca e o risco ser real, o céu pode parecer estar a abrir e ainda haver descargas, um raio pode cair longe da zona onde está a chover e ser muito perigoso, uma árvore pode proteger da água mas aumentar o risco de morte se houver uma descarga. Também um campo de futebol pode parecer amplo e seguro, mas é precisamente essa exposição que o torna perigoso: um jogo pode ter de parar mesmo com o relvado praticável, apesar da chuva intensa que caiu antes, e pode não recomeçar quando os adeptos acham que a tempestade já passou.
“Quando a chuva diminui, quando o trovão parece mais distante ou quando a trovoada aparenta perder intensidade, as pessoas podem pensar que o perigo já passou”, diz Stéphane Schmitt, especialista em deteção de raios da Meteorage, ao Observador, mas “não basta interromper a atividade no momento certo. É também necessário saber quando é realmente seguro retomá-la”, alerta.
É por isso que os protocolos modernos não se baseiam apenas na perceção humana. Não basta perguntar se se vê relâmpago, nem basta perguntar se se ouve trovão, e muito menos basta olhar para o céu. Em eventos com milhares de pessoas, a decisão tem de depender de deteção, monitorização e regras previamente definidas.
“É neste contexto que se aplica a regra dos 30 minutos”, nos EUA, explica Schmitt. “Este intervalo permite assegurar, tanto quanto possível, que a atividade elétrica terminou e limitar o risco associado a raios ainda possíveis na periferia do sistema tempestuoso.”
No comunicado enviado após o França-Iraque, Stéphane Schmitt resume a filosofia dos protocolos modernos numa frase. “Estas práticas assentam num princípio fundamental: as decisões não devem basear-se exclusivamente na perceção humana.” E explica porquê: “Os sinais visuais ou auditivos — relâmpagos visíveis ou trovões audíveis — são, por natureza, variáveis e por vezes enganadores.” Mas os sensores continuam a detetar atividade elétrica.
É por isso que Schmitt conclui que “a tomada de decisão deve basear-se em soluções precisas de deteção de raios e em protocolos definidos antecipadamente, de forma a evitar qualquer improvisação.” A frase resume praticamente toda a filosofia seguida atualmente pelas grandes ligas desportivas norte-americanas. Nos Estados Unidos, praticamente todas as grandes competições ao ar livre seguem protocolos semelhantes. A National Athletic Trainers’ Association, que reúne milhares de profissionais responsáveis pela segurança de atletas, recomenda que exista sempre um plano específico para trovoadas, sistemas de monitorização meteorológica e critérios objetivos para interromper e retomar competições.
A decisão deixa de depender do treinador, do árbitro, do organizador ou da pressão do público: depende da meteorologia, depende da deteção de raios, depende da ciência. É exatamente esse sistema que a FIFA está a aplicar durante o Mundial. Não porque exista uma “regra FIFA” específica sobre raios, mas porque a competição decorre nos Estados Unidos e segue os protocolos de segurança utilizados pelas autoridades locais. É por isso que jogos podem ficar interrompidos durante muito mais tempo do que aquilo a que os adeptos europeus estão habituados. Não porque a tempestade seja extraordinária. Mas porque os responsáveis preferem esperar até terem a certeza de que o risco desapareceu.
“A gestão do risco de raios não deve deixar espaço à improvisação. Baseia-se simultaneamente na deteção, na monitorização, na pedagogia e em procedimentos coletivos adaptados”, diz ao Observador Stéphane Schmitt, que repete a ideia de que “os sistemas de deteção poderiam ter alertado mais de 30 minutos antes em quase três quartos das situações analisadas.”
As respostas deste especialista vão além do estudo e permitem fazer uma leitura mais ampla sobre se o Mundial está a funcionar como uma montra pública de uma cultura de prevenção que a Europa ainda não generalizou e se deve caminhar para protocolos semelhantes. Para Stéphane Schmitt, a resposta é afirmativa, embora com adaptações às diferentes realidades. “Sim, deveriam ser desenvolvidas reflexões para propor procedimentos coletivos adaptados ao risco”, defende. E faz questão de desmontar outra ideia feita: estes protocolos “não são exclusivos dos Estados Unidos”. Segundo o especialista, muitas entidades públicas e privadas europeias já os utilizam em parques de campismo, festivais, parques de lazer, algumas federações desportivas e atividades profissionais no exterior.
As interrupções registadas durante este Mundial podem assim acabar por ter um efeito que vai muito além da competição. “Podem surpreender, ou mesmo frustrar, mas têm também uma virtude pedagógica: tornam visível um risco frequentemente subestimado”, considera Schmitt. Para o investigador, o facto de milhões de pessoas assistirem, em direto, à interrupção de jogos devido à aproximação de uma trovoada poderá contribuir para alterar a perceção do risco também na Europa e incentivar uma maior adoção de protocolos em competições amadoras, eventos locais e outras atividades ao ar livre.
Schmitt lembra que a questão ultrapassa largamente o futebol. Segundo o estudo, cerca de um em cada cinco acidentes ocorre em contexto profissional, afetando trabalhadores da construção civil, telecomunicações, energias renováveis, redes elétricas, caminhos de ferro, aeroportos e todas as profissões que exigem trabalho no exterior. “Não se trata apenas de conforto ou organização, mas de segurança e responsabilidade”, sublinha. “Não se pode deixar espaço ao acaso quando se trata de proteger equipas, intervenientes ou público.”

Porque é que Portugal parou um treino e França um jogo. E como vai ser com a Colômbia?
Foi precisamente este conhecimento científico que a FIFA encontrou quando chegou aos Estados Unidos. Na Europa, uma trovoada pode provocar alguns minutos de espera, nos EUA, a resposta é diferente. Durante o Mundial, Portugal já viu dois treinos interrompidos devido à aproximação de uma tempestade elétrica e o encontro entre França e Iraque esteve parado perto de duas horas. À primeira vista, a decisão pode parecer exagerada, mas os responsáveis não estavam a olhar para a chuva, nem para o vento, nem sequer para a intensidade da trovoada. Estavam a monitorizar a atividade elétrica.
Sempre que é detetado um raio dentro do perímetro de segurança definido pelas autoridades locais, o jogo é interrompido. O cronómetro dos 30 minutos começa a contar apenas depois da última descarga. Se surgir um novo raio antes desse período terminar, a contagem recomeça do zero. É precisamente essa regra que explica interrupções aparentemente intermináveis. Na realidade, o protocolo não mede o tempo de espera, mede o tempo desde o último perigo.
A mesma possibilidade existe para o jogo decisivo da fase de grupos em que Portugal defronta a Colômbia no Hard Rock Stadium, em Miami Gardens, este sábado à noite. O estádio possui uma ampla cobertura sobre as bancadas, mas não é um recinto fechado. O relvado permanece completamente exposto, o que significa que as regras relativas aos raios se aplicam: os adeptos podem permanecer protegidos em grande parte das bancadas, os jogadores não.
As previsões meteorológicas apontam para um ambiente muito quente e húmido, típico do verão da Florida, com possibilidade de aguaceiros e trovoadas durante o dia. Como acontece frequentemente naquela região, pequenas diferenças na evolução da atmosfera poderão determinar se a tempestade passa ao lado do estádio ou passa por cima e obriga a interrupções (o que tendo em conta que o jogo começa às 00h30 portuguesas nos poderia dar futebol madrugada dentro). Porque apesar de ainda ninguém conseguir prever com precisão o minuto em que um raio poderá cair, consegue saber-se se o ambiente é favorável à sua formação. E essa diferença mudou completamente a forma como os norte-americanos gerem o risco.
O Mundial que está a decorrer nos Estados Unidos poderá acabar por deixar uma herança inesperada. Mais do que recordar que os raios continuam a ser uma das manifestações mais perigosas da atmosfera, poderá abrir na Europa uma discussão sobre até que ponto os protocolos de prevenção aplicados do outro lado do Atlântico deveriam tornar-se mais comuns também deste lado. Porque, como conclui Stéphane Schmitt, “a gestão do risco de raios não deve deixar espaço à improvisação. Baseia-se simultaneamente na deteção, na monitorização, na pedagogia e em procedimentos coletivos adaptados.”