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(A) :: Uma das mais antigas mercearias de Lisboa fecha portas esta terça-feira. Manuel Elísio esteve 71 anos atrás do mesmo balcão na Estrela

Uma das mais antigas mercearias de Lisboa fecha portas esta terça-feira. Manuel Elísio esteve 71 anos atrás do mesmo balcão na Estrela

Às 17h desta terça-feira, vai entregar as chaves que carregou consigo por sete décadas e recolher o cheque do acordo fechado. Seguimos os últimos dias na Lapa: "este sítio é a minha vida".

Larissa Faria
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Em 1955, aos 15 anos de idade, um jovem minhoto recém-chegado a Lisboa tinha como primeiro emprego uma profissão que hoje já não existe como então existia: merceeiro. Manuel Elísio Rodrigues ia às cinco da manhã ao antigo Mercado da Ribeira para comprar frutas, legumes e tudo o mais que fosse preciso naquele tempo em que as grandes cadeias de supermercado e o abastecimento em larga escala ainda estavam por chegar. Carregava diariamente de 10 a 15 caixas pesadas e ia pessoalmente a cada uma das casas dos clientes da mercearia em que trabalhava perguntar o que era preciso. No mesmo dia, ia entregar os pedidos, a pé. O mesmo faziam os seus colegas de profissão, também jovens, que trabalhavam nos outros comércios da Rua do Meio à Lapa, no bairro da Lapa, freguesia da Estrela.

Ali funcionaram, conta ao Observador, uma leitaria, um talho, também outras mercearias, uma peixaria e uma taberna. “O único que cá continua sou eu, o velho”. Aos 86 anos, o senhor Manuel é hoje um dos merceeiros mais antigos da cidade: está há 71 anos atrás do mesmo balcão. De jovem empregado, passou a patrão — cargo que deixará esta terça-feira, 30 de junho, quando entregar a chave do rés-do-chão à empresa dona do prédio. Foram meses de negociação após o anúncio de que teria de deixar o espaço. “Queria mesmo era continuar aqui até aos meus últimos dias de vida”, admite. “Mas sei que sou um empecilho. Pago um aluguer vitalício de 70 euros”. A sua rotina nos últimos anos incluía chegar diariamente à sua mercearia entre as oito e nove da manhã e voltar para a casa, a um quilómetro de distância, a pé ou de autocarro, por volta das cinco da tarde. “A minha vida foi sempre entre o trabalho e a minha casa”, diz, referindo viver no terceiro andar de um prédio com nove inquilinos, sendo ele próprio o mais longevo em idade na vida e no edifício. “Dou-me bem com todos, mas não sei o nome de ninguém“.

A oportunidade na mercearia surgiu por indicação de um amigo do seu pai, que queria ajudá-lo a escapar ao desejo da sua família de que se tornasse padre. O jovem Manuel pensava em casar-se, caminho que era contrário àquele proposto pela igreja. “Não havia luz e água canalizada na minha cidade, mas nunca passei fome. Vim para Lisboa sem conhecer nada nem ninguém“, diz, relembrando o dia em que saiu da sua aldeia, nos arredores de Melgaço, para apanhar um comboio em Monção. O pai, mesmo contrariado, deu-lhe 300 escudos e a recomendação de não fazer mau uso do dinheiro. “Ó pai, só volto para cá se estiver morto“, respondeu-lhe.

Viveu em casa do patrão, na Calçada do Castelo Picão, na Madragoa, onde comia sentado à mesa com os donos da casa. Conseguiu não só escapar ao seminário em Braga, mas também mandar piscadelas e beijinhos para uma jovem que cosia tecidos numa varanda com vista para o balcão em que trabalhava: Cacilda, natural da Beira Alta, estava em Lisboa para um curso de corte e costura. Quando Manuel soube que a rapariga deixaria a cidade no fim dos estudos, decidiu não perder a talvez última chance de enfim conversar com ela. “Seguia-a até ao elétrico. Ela pediu um bilhete ao condutor, eu comprei dois. Fomos no caminho a conversar, passámos pela Portugália na Almirante Reis. Deixei-a na Praça do Chile”.

Naquele verão de 1963, quando Cacilda (agora modista) já havia desistido de ir embora, — sendo Manuel a principal razão — deu-lhe uma fotografia. “Para que nunca esqueças”, escreveu no verso. Casaram-se menos de um ano após a frase, sendo o filho do antigo patrão da mercearia o padrinho do matrimónio, celebrado a 26 de janeiro de 1964. Nunca tiveram filhos. E, de facto, Manuel nunca a esqueceria, revelando ser a sua morte em 2001 após quase quarenta anos juntos o “acontecimento mais triste” da sua vida. “Quem me dera mais quarenta anos ao lado dela”. O segundo acontecimento mais triste, lamenta, é o fecho da sua loja.

O “fim” da sua história enquanto comerciante é parecido ao de muitos pequenos negócios que fecharam portas nos últimos anos em Lisboa. Alguns, por já não atenderem às necessidades da vizinhança, com bairros que já parecem ter mais turistas que residentes. Outros foram sufocados ou empurrados das zonas centrais devido aos seus rendimentos não acompanharem a subida do preço do metro quadrado na cidade. Tascas, mercearias, pastelarias e espaços de pequenos prestadores de serviço não têm resistido às vendas de imóveis — vários deles completamente remodelados para a construção de habitações ou transformados em hotéis.

Para quem apenas está de passagem num bairro, os pequenos espaços podem nada significar e o seu fecho pode nem sequer ser notado. Mas para quem vive o dia a dia de uma zona, para os que há muitos anos gerem um negócio e para os seus vizinhos, estas mudanças na paisagem da cidade podem ser impactantes. A guerra colonial, a revolução dos cravos, a nova constituição, a Expo98, o euro como a moeda oficial, a troika, o boom do turismo, a pandemia de Covid-19 e o apagão na Península Ibérica. Enquanto todos estes factos aconteceram e marcaram a história do país, Manuel permanecia atrás do mesmo balcão. “Este sítio é a minha vida“, diz, com os olhos marejados. “Éramos como uma família nesta rua. Cheguei a dar um cheque com a minha assinatura, sem valor determinado, para ajudar um merceeiro vizinho, tamanha era a confiança entre nós”, confessa.

Quando questionado sobre o que mais viu mudar na rua nestes anos todos, a resposta não tarda: a falta de habitantes. “Os prédios estão vazios e em vários deles funcionam alojamentos locais”, diz. O merceeiro viu avós morrerem, pais envelhecerem, os seus filhos e netos crescerem e deixarem aquela zona, hoje muito ocupada por turistas ou residentes estrangeiros. “Pouca gente me conhece, quase todos já morreram“, afirma. Mas enquanto conversa com o Observador, são vários os vizinhos que aparecem para cumprimentá-lo e lamentar a sua saída da rua. Crianças, jovens e idosos — estes últimos, apoiados por andarilhos ou cadeiras de rodas. Um miúdo pergunta-lhe se vende cromos para a caderneta do Mundial 2026, pelo que responde que não. Pouco antes, porém, uma vizinha agradeceu-lhe por partilhar o contacto telefónico do fornecedor de bilha de gás. Havia percebido que não teria água quente para tomar banho logo após espalhar champô pelos cabelos brancos. A presença do senhor Manuel, portanto, vai para além daquilo que tem para vender nas prateleiras, hoje já quase vazias: é também a de ajudar os que estão ao seu redor, reconhecendo também a retribuição da sua gentileza. “Se eu disser que estou mal disposto, aparece alguém com uma chávena de chá”, diz.

O minhoto, com mais tempo vivido em Lisboa que no Minho, percebe que um negócio como o seu hoje já não tem o êxito que tinha no passado. “Nos últimos anos, vendi pouco ou nada. Os supermercados vendem mais barato que nós [pequenas mercearias]”, diz. A exceção foi o dia 28 de abril de 2025, quando a Península Ibérica esteve às escuras por algumas horas. Manuel, que nunca aceitou pagamento com multibanco, neste dia nem o precisava: sem o sistema bancário a funcionar e com muitos dos supermercados fechados, muita gente recorreu a lojas como a dele. “Vendi naquele dia o que vendo num mês. Vendi tudo, tudo o que tinha de comida e bebida”, ri-se.

O vizinho do lado direito do seu negócio, quando este começou, era uma leitaria. Entre mudanças de donos e comerciantes no espaço, há quatro anos lá instalou-se uma cafetaria. Na sua página do Instagram, o Calmô Café lamentou a saída do comerciante mais antigo da rua. “O senhor Manuel fez parte da história da nossa rua e do nosso bairro. As suas piadas, o seu bom humor, as suas histórias e as conversas amigáveis que partilhou com toda a gente vão fazer muita falta“, diz o texto. “Foi sempre um vizinho maravilhoso. É desolador ver tais mudanças acontecerem, mas estamos imensamente gratos por tudo o que ele trouxe para a nossa comunidade”.

O senhor Manuel ainda não pensou na sua nova rotina. Não sabe o que fará na quarta-feira, dia 1º de julho, quando já não tiver de abrir a sua mercearia. Já se ouvem as obras nos andares acima do seu, mas não sabe o que ali se vai passar. “Não me interessa a vida dos outros, só quando interfere na minha”. Às 17h de terça-feira, vai entregar as chaves que carregou consigo por sete décadas e recolher o cheque do acordo fechado. Nas seis passagens que o carro do Google Street View fez na Rua do Meio à Lapa, as portas da sua mercearia estavam sempre abertas. No ano de 2009, é até mesmo possível vê-lo de pé, à porta, com o seu traje habitual: calças de ganga, cinto e camisa. Bem disposto e falador (no melhor dos sentidos) a atender quem por ali passa. Nas próximas vezes em que a empresa por lá passar, Manuel já não estará lá. Pelo menos não atrás do balcão que um dia foi seu.