Karl Popper, ilustre filósofo político do conceito de sociedade aberta, foi também um grande filósofo da ciência. Aqui, neste domínio, insurgiu-se contra os positivistas lógicos do Círculo de Viena, expondo as suas visões simplistas e conservadoras acerca do empreendimento científico e seu significado em termos de conhecimento humano. Igualmente condenou à prisão da pseudociência o marxismo e a psicanálise, remetendo-os para o nível da astrologia.
Tendo como critério de demarcação o falsificacionismo, segundo o qual uma teoria científica distingue-se pelo facto de poder ser refutada, conclui que há vários graus de falsificabilidade: aquelas propostas que apresentam mais informação e pormenor sobre o mundo são mais interessantes, mas, ao mesmo tempo, mais sujeitas à referida falsificação. Teríamos assim teorias científicas da ordem da redundância e outras com um valor superior de criatividade e risco e ousadia, oferecendo um fruto mais saboroso e substancial ao saber. O cientista deveria, na visão do austríaco, comportar-se como um artista, aventando conjeturas audazes e submetendo-as a testes empíricos rigorosos.
Fazendo um paralelo com a política, somos agraciados, aqui e ali, com agentes políticos corajosos que não temem a crítica, nem muito menos os resultados das eleições: Que se lixem as eleições!, já alguém declarou. Elaborando uma análise sobre o estado do mundo e do país, defendem as suas propostas destemidas, não de acordo com as brisas vindas das sondagens nem com a espuma dos dias, pelo contrário, agem e falam considerando os imperativos da ética e tendo em conta o quadro oferecido pela realidade.
Os discursos de António José Seguro, porém, a sua parca ambição e postura acomodatícia, certamente não surpreendem ninguém. Na campanha eleitoral para as presidenciais tivemos um aperitivo do que seria o mandato. As palavras inócuas, a neutralidade ideológica e o politicamente correto, representam, neste plano relativo aos assuntos da Pólis, um exemplo do que Popper, na ciência, reprovava como sendo um corpo teórico com um baixo grau de falsificabilidade. Dizendo o óbvio e o inocente, apelando a uma paz espiritual e cívica ocas, confere à sua retórica uma monotonia só superada pela apatia do auditório. Este, na sua dimensão ativa e passiva, não tem como discordar dos ditos do presidente – todavia, não reage, ficando na triste fronteira do visionamento de uma figura meramente decorativa. Na plateia, cada vez mais vazia, um ser sai da mesma forma como entrou, ou seja, desinformado e desalentado.
Em vez de profilaxia, a democracia exige tenacidade e ousadia. Sendo o discurso a arma do político, as suas ações e opções o seu escudo, o armamento deve ser usado com a devida parcimónia para manter a sua eficácia. Marcelo (presidente) ignorou esta máxima. O atual chefe de Estado tem mais juízo crítico. Contudo, perde-se em artificialismos totalmente desapropriados e desaconselhados aos tempos que correm. O caos internacional e a conjuntura morna nacional, desafiada momentaneamente por um Chega com posições cada vez mais socialistas (vide reforma laboral), requerem uma personalidade corajosa, determinada e eficiente.
Claro que o presidente da República pouco poderá fazer – não tem uma função executiva. Todavia, o seu simbolismo não se esgota no cerimonial público. O poder da palavra deve ser encarado de forma séria e executado com ainda maior rigor. Não se trata de empossar uma figura de proa, reivindicativa ou consensual. Deve sim, colocar de fronte dos portugueses a realidade, por mais dura que seja, do seu presente e futuro. Dos seus desafios.
Ninguém espera que Seguro seja a encarnação ou o arauto de um político naqueles moldes. A sua ação, contudo, não pode obstipar o surgimento (ou ressurgimento) de um tal protagonista.