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"Príncipe" expulso de palácio em que vivia no Rio de Janeiro não faz parte da família real brasileira, afirma Casa Imperial

Dinastia da cidade de Vassouras reafirma renúncia de Dom Pedro de Alcântara ao trono em 1908. Em Petrópolis, os Orléans e Bragança disputam a venda do Palácio Grão-Pará e da Casa da Princesa Isabel.

Larissa Faria
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A disputa pela venda dos palácios deixados pela Princesa Isabel e pelo Conde d’Eu na cidade de Petrópolis, a cerca de 70 quilómetros do Rio de Janeiro, tem levado os seus herdeiros a tribunal e reacendido as discussões sobre os sucessores do trono. Naquela que é conhecida como a cidade imperial do Brasil, a maior parte da família Orleans e Bragança não faz questão de reivindicar o título. Mas a insistência de um dos seus membros sobre a posse de um palácio e a manutenção do título monárquico fez com que as famílias, há mais de cem anos separadas, tornassem mais uma vez públicas a sua discordância e rompimento.

No início do mês, a empresa formada pela família Orléans e Bragança para administrar as casas herdadas em Petrópolis (nomeada Companhia Imobiliária de Petrópolis) decidiu impedir o acesso de Dom Pedro Tiago de Orléans e Bragança (trineto da Princesa Isabel) de 47 anos ao Palácio Grão-Pará, onde alega viver há mais de 40 anos. Ao sair para praticar exercícios físicos e regressar a casa, foi recebido com bombas de gás lacrimogéneo pela Polícia Militar após tentar forçar a entrada no imóvel. No dia seguinte, ao tentar entrar novamente, viu que as fechaduras haviam sido trocadas. Teve de solicitar na justiça o direito de regressar à casa em que vivia — o pedido foi aceite, para o desagrado dos demais Orléans e Bragança que desejam vender o palácio avaliado em cerca de 11,88 milhões de euros.

Pedro Tiago é filho de Dom Pedro Carlos de Bourbon de Orléans e Bragança, de 80 anos, que seria o primeiro da família na linha de sucessão. O chefe da família já admitiu em diversas ocasiões, no entanto, não ter interesse em dar continuidade ao papel monárquico. Mas não é este o desejo do seu filho, que então se autointitulou “príncipe imperial do Brasil”. O facto de Pedro Tiago dar declarações públicas em nome de uma Casa Imperial do Brasil (do ramo de Petrópolis) por ele próprio fundada e apresentar-se como um membro da família real daquele país não agradou a outra dinastia. O “lamentável ocorrido” em Petrópolis levou a que a Casa Imperial do Brasil (do ramo de Vassouras) publicasse um comunicado a esclarecer que não tem qualquer relação com as partilhas de bens em Petrópolis. “Os envolvidos nesse episódio — um residente no Palácio do Grão-Pará e os administradores da Companhia Imobiliária de Petrópolis — são descendentes da Princesa Dona Isabel que foram afastados da sucessão dinástica há mais de um século“, diz o texto.

O filho mais velho da Princesa Isabel, o Príncipe do Grão-Pará, Dom Pedro de Alcântara, renunciou aos direito ao trono em 1908 para se casar com a condessa Elisabeth Dobrzensky von Dobrzenicz, que não pertencia à realeza. Desta forma, a linha de sucessão seguiu para o seu irmão, Dom Luís Maria, e os seus descendentes, residentes na sua maioria na cidade de Vassouras (a cerca de 120 quilómetros do Rio de Janeiro e também de Petrópolis). Naquela altura, a renúncia do ramo de Petrópolis ao trono poderia ser meramente simbólica: o Brasil aboliu a monarquia em 1889 com a Proclamação da República. Pedro Tiago, do lado dos Orléans e Bragança em Petrópolis, contesta a exclusão do seu ramo da família real. Em Vassouras, o chefe da família, Dom Bertrand de Orléans e Bragança, argumenta ser a renúncia de 1908 válida e irrevogável. “[O ramo de Petrópolis] tem pouco ou nenhum contacto com o Príncipe Dom Bertrand de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil, seus irmãos e sobrinhos; e não representam a Casa Imperial, as tradições do Império e o ideal monárquico brasileiro“, afirmam na publicação.

Para a justiça brasileira, nem o ramo de Vassouras nem o de Petrópolis são considerados monarcas há quase 137 anos. Os títulos são agora simbólicos e históricos, mas a guerra pelo aluguer e venda dos palácios em Petrópolis continua — e Pedro Tiago não é o único alvo. A Companhia Imobiliária de Petrópolis propôs a outros dois Orléans e Bragança (Maria Cristina Schmidt Peçanha de Orleáns e Bragança, e o seu filho, Francisco Theodoro Peçanha de Orleáns e Bragança, tetraneto da Princesa Isabel) o pagamento mensal de 2,5 mil reais (cerca de 423 euros) como renda da Casa da Princesa Isabel, também em Petrópolis, onde estão a viver no segundo piso, noticiou o jornal O Globo. As partes ainda não chegaram a um acordo sobre o uso da casa. No rés-do-chão, estão a sede da Companhia Imobiliária de Petrópolis e um antiquário com peças do período monárquico.