A disputa pela venda dos palácios deixados pela Princesa Isabel e pelo Conde d’Eu na cidade de Petrópolis, a cerca de 70 quilómetros do Rio de Janeiro, tem levado os seus herdeiros a tribunal e reacendido as discussões sobre os sucessores do trono. Naquela que é conhecida como a cidade imperial do Brasil, a maior parte da família Orleans e Bragança não faz questão de reivindicar o título. Mas a insistência de um dos seus membros sobre a posse de um palácio e a manutenção do título monárquico fez com que as famílias, há mais de cem anos separadas, tornassem mais uma vez públicas a sua discordância e rompimento.
No início do mês, a empresa formada pela família Orléans e Bragança para administrar as casas herdadas em Petrópolis (nomeada Companhia Imobiliária de Petrópolis) decidiu impedir o acesso de Dom Pedro Tiago de Orléans e Bragança (trineto da Princesa Isabel) de 47 anos ao Palácio Grão-Pará, onde alega viver há mais de 40 anos. Ao sair para praticar exercícios físicos e regressar a casa, foi recebido com bombas de gás lacrimogéneo pela Polícia Militar após tentar forçar a entrada no imóvel. No dia seguinte, ao tentar entrar novamente, viu que as fechaduras haviam sido trocadas. Teve de solicitar na justiça o direito de regressar à casa em que vivia — o pedido foi aceite, para o desagrado dos demais Orléans e Bragança que desejam vender o palácio avaliado em cerca de 11,88 milhões de euros.

Pedro Tiago é filho de Dom Pedro Carlos de Bourbon de Orléans e Bragança, de 80 anos, que seria o primeiro da família na linha de sucessão. O chefe da família já admitiu em diversas ocasiões, no entanto, não ter interesse em dar continuidade ao papel monárquico. Mas não é este o desejo do seu filho, que então se autointitulou “príncipe imperial do Brasil”. O facto de Pedro Tiago dar declarações públicas em nome de uma Casa Imperial do Brasil (do ramo de Petrópolis) por ele próprio fundada e apresentar-se como um membro da família real daquele país não agradou a outra dinastia. O “lamentável ocorrido” em Petrópolis levou a que a Casa Imperial do Brasil (do ramo de Vassouras) publicasse um comunicado a esclarecer que não tem qualquer relação com as partilhas de bens em Petrópolis. “Os envolvidos nesse episódio — um residente no Palácio do Grão-Pará e os administradores da Companhia Imobiliária de Petrópolis — são descendentes da Princesa Dona Isabel que foram afastados da sucessão dinástica há mais de um século“, diz o texto.
O filho mais velho da Princesa Isabel, o Príncipe do Grão-Pará, Dom Pedro de Alcântara, renunciou aos direito ao trono em 1908 para se casar com a condessa Elisabeth Dobrzensky von Dobrzenicz, que não pertencia à realeza. Desta forma, a linha de sucessão seguiu para o seu irmão, Dom Luís Maria, e os seus descendentes, residentes na sua maioria na cidade de Vassouras (a cerca de 120 quilómetros do Rio de Janeiro e também de Petrópolis). Naquela altura, a renúncia do ramo de Petrópolis ao trono poderia ser meramente simbólica: o Brasil aboliu a monarquia em 1889 com a Proclamação da República. Pedro Tiago, do lado dos Orléans e Bragança em Petrópolis, contesta a exclusão do seu ramo da família real. Em Vassouras, o chefe da família, Dom Bertrand de Orléans e Bragança, argumenta ser a renúncia de 1908 válida e irrevogável. “[O ramo de Petrópolis] tem pouco ou nenhum contacto com o Príncipe Dom Bertrand de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil, seus irmãos e sobrinhos; e não representam a Casa Imperial, as tradições do Império e o ideal monárquico brasileiro“, afirmam na publicação.
Para a justiça brasileira, nem o ramo de Vassouras nem o de Petrópolis são considerados monarcas há quase 137 anos. Os títulos são agora simbólicos e históricos, mas a guerra pelo aluguer e venda dos palácios em Petrópolis continua — e Pedro Tiago não é o único alvo. A Companhia Imobiliária de Petrópolis propôs a outros dois Orléans e Bragança (Maria Cristina Schmidt Peçanha de Orleáns e Bragança, e o seu filho, Francisco Theodoro Peçanha de Orleáns e Bragança, tetraneto da Princesa Isabel) o pagamento mensal de 2,5 mil reais (cerca de 423 euros) como renda da Casa da Princesa Isabel, também em Petrópolis, onde estão a viver no segundo piso, noticiou o jornal O Globo. As partes ainda não chegaram a um acordo sobre o uso da casa. No rés-do-chão, estão a sede da Companhia Imobiliária de Petrópolis e um antiquário com peças do período monárquico.