Cerca de 23 mil pessoas esperavam há mais de meia hora quando uma dúzia de modelos negras entrou em palco. Vestidas de preto e a segurar ramos de palmeiras dourados, confirmaram aquilo que o público já esperava. Aquele concerto, de 5 de junho de 1974, seria histórico. Ao som de It’s a Family Affair, descreve o New York Times, a multidão vai à loucura. “Esta é uma cerimónia sagrada”, diz ao microfone K.C. Stewart, a mãe de Sylvester Stward, mais conhecido por Sly, vocalista da banda Sly and the Family Stone. O anúncio antecipa a entrada do cortejo nupcial: Sly Stone num jumpsuit e uma capa longa bordados com lantejoulas douradas e a então noiva, a modelo Kathy Silva, num vestido a combinar — peças criadas por Roy Halston, designer que definiu a estética norte-americana dos anos 1970. A troca de alianças acontece numa celebração tradicional, conduzida pelo pastor da família, o Bispo B.R. Stewart, da Igreja de Deus em Cristo. Depois foi a vez dos fãs abençoarem a união, num concerto que ficou para sempre na memória de quem o assistiu, e marcado na história de Nova Iorque.

Não havia uma confirmação oficial de que o casamento aconteceria naquele concerto, mas muitas pistas. O casal já havia exibido os trajes em reportagens televisivias e cerca de 400 convidados famosos, entre personalidades do mundo da moda e do entretenimento, haviam recebido convites para a celebração e para a festa privada que se realizou depois, no Waldorf Astoria. Passados 52 anos, a história parece se repetir — troca-se o funk pelo pop e o black pelo girl power, mantém-se o gosto pelas lantejoulas e pelo espetáculo. Esta sexta-feira, 3 de julho, poderá ser Taylor Swift a usar novamente o Madison Square Garden como altar para o seu casamento com Travis Kelce.
A história do espaço envolve várias construções e localizações diferentes, a começar ainda na década de 1870 como uma arena aberta anexa ao Madison Square Park, na esquina da 26th Street com a Madison Avenue, recorda o site do Madison Square Park. Propriedade do herdeiro da milionária família Vanderbilt, o local recebia espetáculos com cães, exposições de cavalos, circo, teatro, óperas, bales, convenções políticas e lutas de boxe. O edifício foi vendido em 1887 e demolido em 1889, para dar lugar a um pavilhão fechado construído em apenas um ano, num regime 24/7 com pelo menos mil trabalhadores em ação a todo o momento. Em 1890, o Madison Square Garden era considerado “o epicentro dos eventos culturais de larga escala em Nova Iorque”.
O assassinato do século
Stanford White foi o famoso arquiteto nova iorquino que assinou o projeto daquele centro de eventos. Com inspiração renascentista espanhola e uma torre que chegou a ser a mais alta de Nova Iorque — que trazia no topo a escultura de Augustus Saint-Gaudens, Diana of the Tower, uma estátua que gerou controvérsia na época por Diana aparecer nua — o prédio contava ainda com um rooftop ao ar livre que recebia espetáculos. E foi neste teatro a céu aberto, durante a apresentação do musical Mamzelle Champagne, que o arquiteto foi morto a tiros, num crime que a imprensa da época chamou “o assassinato do século”.

Foi na presença de centenas de pessoas que assistiam ao espetáculo que o milionário Harry Kendall Thaw, herdeiro do empresário William Thaw e um dos homens mais ricos dos Estados Unidos da América na altura, usou o seu revolver calibre 22 para disparar dois tiros no rosto de White e um no ombro. “Fi-lo porque violou a minha esposa! Ele mereceu! Aproveitou-se da rapariga e depois a abandonou!”, terá gritado o milionário, diante do corpo ensanguentado do seu inimigo, descreve o historiador Douglas O. Linder no blog Famous Trials.
A motivação de Thaw terá sido a relação que a sua mulher, Evelyn Nesbit, havia tido com o arquiteto anos antes. A jovem modelo e dançarina tinha apenas 15 anos quando conheceu Standford White, de 46 anos, famoso em Nova Iorque como um homem rico, poderoso, mas também como um predador sexual. Casado e 30 anos mais velho, White não tinha a intenção de se casar com Nesbit, mas conquistou a sua família ao pagar por jantares e festas. A jovem mais tarde chegou a referir que o arquiteto era como um “vampiro benevolente”. “Stanford White era um homem bom… Fez-me mal, de acordo com alguns padrões morais foi perverso e decadente, mas isso não cega o meu julgamento”, escreveu, nas suas memórias.
Contudo, em 1902, quando protagonizava o espetáculo Wild Rose, conheceu Harry Thaw. O milionário, que na altura Nesbit chamava “Mr. Munroe”, passou a cortejá-la, até que a jovem aceitou casar-se com ele. Foi numa suíte de hotel em Paris que Evelyn Nesbit revelou ao marido a história do dia em que perdeu a virgindade com Stanford White. Diz que foi convidada para uma festa mas quando chegou ao apartamento, o arquiteto estava sozinho. Depois, terão bebido champagne. A jovem conta então que só se recorda de ter acordado nua na cama e ver sangue nos lençóis. Foi violada. “Pobre menina. Meu Deus”, terá dito Thaw, que passou a viver sob a sombra da história de violência.
Na noite de 25 de junho de 1906, Thaw jantava com Nesbit quando avistou White num restaurante próximo. Foi quando decidiu comprar bilhetes de última hora para o musical Mamzelle Champagne. Testemunhas dizem que viram Thaw a rondar os fundos do teatro antes de, com um revólver escondido embaixo do casaco, disparar três vezes contra White. Pelas três da manhã, o milionário foi acusado formalmente de homicídio e levado para a prisão de Tombs.
Mas mais famoso do que o crime, ficou para a história os seus dois julgamentos. A defesa apresentou o conceito de “dementia americana” para justificar uma insanidade supostamente comum ao homem americano, fundamentada na crença inabalável de que o seu lar e a honra de sua esposa e filhas são sagrados. Esta estratégia, entretanto, resultou num júri empatado, o que anulou o julgamento. A segunda tentativa da defesa focou-se uma tese de insanidade absoluta — o que fez o tribunal declarar Thaw incapaz. O milionário foi internado no hospital psiquiátrico de custódia Matteawan e libertado em 1915 — mas acabou por regressar a instituições psiquiátricas ao longo da vida por novos atos violentos.
Do comício nazi ao Happy Birthday , Mr. President
O Madison Square Garden, por sua vez, permaneceu ativo, mas em 1908 foi vendido mais uma vez, agora à companhia de seguros The New York Life. O centro de eventos fechou definitivamente em maio de 1925, dando lugar ao edifício principal da seguradora, e reabriu mais próximo da localização atual — na esquina da 49th street com a Eight Avenue. É este edifício que recebe uma polémica convenção nazi, ainda antes da Segunda Guerra Mundial.

Foi na terceira segunda-feira de fevereiro, o dia em que os Estados Unidos da América celebram o aniversário de George Washington, que em 1939 o Madison Square Garden foi decorado com faixas de um “Comício Pró Americano”. Do lado de fora o contingente policial contava com mais de 1700 agentes para proteger o local das pessoas — entre veteranos, membros do Partido Socialista e donas de casa — que lotavam as ruas a protestar, recorda o New York Times. Uma orquestra de um musical da Broadway chegou a apresentar uma versão de The Star-Spangled Banner para os manifestantes. Já dentro dos muros da fortaleza que se formou, estavam mais de 20 mil apoiadores do movimento. As imagens da arena mostram uma imagem do primeiro Presidente do país com 10 metros de altura pendurada atrás do palco, entre bandeiras norte-americanas e suásticas. O comício foi organizado pela German American Bund, uma associação direcionada para norte-americanos com ascendência alemã e que apoiava Adolf Hitler. “O espírito que abriu o Oeste e construiu o nosso país é o espírito do homem branco militante”, discursou Gerhard Wilhelm Kunze, o relações públicas do grupo e um dos principais oradores do evento, recorda a NPR.
Um episódio que a organização do espaço prefere não lembrar. No site oficial, a aba história está reservada para recordar um envolvimento tímido na política norte-americana, com quatro convenções do Partido Democrata e uma do Partido Republicano. Mas mais do que as convenções, o Madison Square Garden foi palco de uma homenagem de aniversário que marcou a história do país — e talvez do mundo. Foi aqui que a 19 de maio de 1962, Marilyn Monroe apresentou a sua icónica interpretação de Happy Birthday, Mr. President para John F. Kennedy, durante uma gala de arrecadação de fundos para os Democratas e uma celebração do 45º aniversário do então Presidente do país.
“Senhor Presidente. Na ocasião do seu aniversário, apresentamos esta senhora adorável, Marilyn Monroe”, diz o apresentador no palco, a chamar a atriz, que entra a dar saltinhos como se estivesse a correr. Está envolvida num casaco de brocado branco, que tira com a ajuda do mestre de cerimónias, especialmente para a performance. Bate com a ponta do dedo no microfone, antes de começar a cantar. “Não achava que fosse sair nada. Quando cheguei ao microfone, respirei fundo uma vez e, de repente, pensei: ‘Vamos lá!'”, confidenciou a atriz, na última entrevista que deu, ao jornalista da revista Life Ricahrd Meryman.
A voz sedutora e quase em tom de sussurro de Marilyn Monroe acendeu os rumores de que a atriz vivia um romance secreto com o Presidente norte-americano, na altura casado com Jacqueline Kennedy. Aquela foi uma das últimas aparições públicas de Marilyn Monroe, que morreu a 4 de agosto de 1962, aos 36 anos.
O vestido, entretanto, continua a contar a mesma história. Desenhado por Jean Louis a partir de um rascunho de um jovem Bob Mackie, foi feito num tecido quase transparente com aplicações de strass ao longo de toda a silhueta, e tão justo que dizem ter sido cozido no corpo da atriz minutos antes de subir ao palco. Terá custado na altura 12 mil dólares, mas foi vendido num leilão em 2016 por mais de 4 milhões de dólares — cerca de 3,5 milhões de euros. Em 2022 Kim Kardashian usou a peça para ir à MetGala. Precisou emagrecer sete quilos para entrar no vestido. A peça faz parte do acervo da rede de museus Ripley’s Believe It or Not!.

Já o espaço, mudou de localização pela última vez também na década de 1960. O complexo atual, um quarteirão que ocupa entre a 31st e 33rd streets e a 7th e 8th Avenues, inaugurou a 11 de fevereiro de 1968.
O combate do século e as visitas papais
“Numa batalha clássica de 15 rounds, Joe Frazier quebrou as asas da borboleta e esmagou o ferrão da abelha na noite passada, ao vencer Muhammad Ali por decisão unânime em 15 rounds no Madison Square Garden”, arranca o New York Times na manhã de 9 de março de 1971. Foi o primeiro confronto entre os dois lutadores, que voltariam a enfrentar-se em outras duas ocasiões, em 1974 e 1975 — Ali vencendo ambas. Mas nesta noite, o encontro já há muito antecipado entre os dois grandes rivais, os maiores lutadores de boxe da época e invictos até a altura, ficou conhecido por “o combate do século”.

Do lado de fora do ringue, Frank Sinatra assistia a tudo através da lente da objetiva — foi contratado como fotógrafo freelancer para a revista Life. ““Frank Sinatra não suportava ficar sentado na primeira fila porque não estaria perto o suficiente, então pediu para ser designado um fotógrafo da revista Life”, recorda o jornalista Colin Hart à BBC. Nomes como Barbra Streisand, Bob Dylan, Diana Ross, Dustin Hoffman, Hugh Hefner e Sammy Davis Jr., também acompanharam in loco o combate — uma plateia que traduz o status do espaço.
Casa de eventos de desporto e entretenimento, o palco das estrelas fez do Papa um popstar, pelo menos por um dia. A 4 de outubro de 1979, durante uma visita oficial aos Estados Unidos da América, depois de uma missa na St. Patrick’s Cathedral e antes de um passeio pelo Battery Park, o Papa João Paulo II reuniu-se com 19 mil jovens de escolas católicas e públicas de Nova Iorque. O Madison Square Garden foi o local escolhido para o encontro. Os quadros eletrónicos da arena diziam: “Juventude em concerto com o Papa João Paulo II”. O líder da Igreja Católica discursou, mas a programação principal envolvia números musicais apresentados pelos jovens, que cantaram e ofereceram presentes ao Papa — como umas calças de ganga da Levi’s ou uma guitarra, recorda o New York Times.

Mas foi o Papa Francisco que em 2015 realizou a primeira e única missa papal no espaço. Mais de 20 mil fiéis acompanharam a celebração de dentro da arena, enquanto milhares de pessoas acumulavam-se nas ruas que circundam o Madison Square Garden, e outras centenas assistiam pela televisão. Cristãos, mas também budistas, muçulmanos ou ateus, escreve o The Guardian, que recorda que o papa argentino fez a homilia em espanhol. “Encontramo-nos no Madison Square Garden, lugar emblemático desta cidade, sede de importantes encontros desportivos, artísticos, musicais, que congregam pessoas de diferentes partes, não só desta cidade, mas do mundo inteiro. Neste lugar, que representa as diferentes faces da vida dos cidadãos que se reúnem por interesses comuns, ouvimos: “O povo que caminhava nas trevas viu uma grande luz”. O povo que caminhava, o povo no meio das suas atividades, das suas ocupações diárias; o povo que caminhava carregando os seus sucessos e os seus erros, os seus medos e as suas oportunidades. Esse povo viu uma grande luz. O povo que caminhava com as suas alegrias e esperanças, com as suas decepções e amarguras, esse povo viu uma grande luz.”
Despedida de John Lennon e casa de Billy Joel
A 28 de novembro de 1974, John Lennon subiu ao palco do Madison Square Garden como convidado num concerto de Elton John. Interpretou três músicas: Whatever Gets You Thru the Night, Lucy In The Sky With Diamonds e I Saw Her Standing There. Na altura as apresentações do ex-Beatle ao vivo já eram raras, mas cerca de seis anos depois se saberia que aquela havia sido de facto a última. O artista foi assassinado a tiro à porta do edifício Dakota, onde vivia com a mulher, Yoko Ono, na esquina com o Central Park, em Nova Iorque.
À parte das visitas mais surpreendentes e dos eventos desportivos, como o basquete ou o hóquei no gelo, a verdade é que o Madison Square Garden fez-se emblemático também pelos concertos. Entre os artistas que já tocaram na “arena mais famosa do mundo” estão nomes como Elvis Presley, os Rolling Stones, Madonna, Bob Dylan, Stevie Wonder e Billy Joel, o primeiro artista a usar o espaço para uma residência, que durou uma década. O cantor conhecido por Piano Man detém o recorde de performances no Madison Square Garden — apresentou-se 150 vezes no local desde a estreia, em 1978, até o último concerto, em julho de 2024.
Longe do número recordista, Taylor Swift já fez oito concertos na arena. A primeira vez que a cantora se apresentou no Madison Square Garden foi em 2009, para a Fearless Tour. Em 2019, no Jingle Ball, um concerto de Natal anual organizado por uma rádio norte-americana, a cantora teve o seu próprio momento de Happy Birthday. Como o evento foi realizado a 13 de dezembro, dia em que a cantora fazia 30 anos, a sua apresentação teve direito a bolo e uma celebração de anos.

Há meses que se especula se será no Madison Square Garden que Taylor Swift e Travis Kelce pretendem dar o nó. Com uma lista que poderá superar os mil convidados, o espaço seria o mais adequado para acomodar tantas pessoas e ainda assim manter a privacidade — apesar de ficar bem no centro de Manhattan. Certo é que a agenda do centro de eventos está vazia até o dia 7 de julho, e de acordo com o New York Times um pedido para limitar a circulação de veículos nas ruas que circundam a arena já foi preenchido.
Seria uma escolha ousada, mas que também condiz com o caráter de espetáculo com que a cantora e o jogador de futebol americano têm apresentado o seu romance. O Madison Square Garden combina com aquele que tem recebido a alcunha de “casamento do ano” — apesar de não ser propriamente inédito. Desde o casamento de Sly Stone e Kathy Silva, um outro enlace já aconteceu no local.
A 1 de julho de 1982, 2075 casais trocaram alianças de forma simultânea num casamento em massa organizado pela Federação da Família para a Paz Mundial e Unificação, conhecida por Igreja da Unificação. Sendo assim, se Taylor Swift casar-se mesmo no Madison Square Garden será, na verdade, a 2077ª noiva a subir este altar em particular.