Como é estar em Paris durante estes dias muito quentes? O imprevisto torna-se protagonista. Entrevistas que eram para acontecer com atores são antecipadas, os rostos de toda a gente, apesar de virem com sorrisos, não escondem o desgaste de quando se passa uns minutos lá fora, sem ar condicionado. Nos supermercados sempre que se tira uma bebida do frigorífico, ela vem à temperatura ambiente e não refresca como se imaginaria. Posso corrigir isso? Não. Estar no interior de qualquer sítio com ar condicionado é quase a única coisa que faz esquecer o calor que está lá fora. Isso e um eventual mergulho.
Por isso, primeiro que tudo, deixem-me falar de Uli. É o petit nom de Ulrich, vindo de Munster, na Alemanha. O motorista que me levou do aeroporto para o hotel e, mal o vi, cumprimentou-me com um sorriso que, apesar de habitual nestas situações, era, neste caso, para lá de simpático. Fez esquecer a onda calorífica que senti mal saí do avião. Eram nove da manhã e estavam perto de 30 graus. O Uli disse-me que, quando foi fazer o seu primeiro transfer desse dia, às cinco da manhã, estavam 32. Difícil de acreditar, fácil de aceitar quando horas mais tarde, pelas nove da noite, se dá um passeio por Paris a 37 graus.
O sorriso simpático de Uli, a conversa fácil, levaram-me a perguntar se era OK eu ir à frente com ele. A viagem ia ser longa e preferia conversar do que recuperar das três horas mal dormidas dessa noite no banco de trás. Ele diz que sim, claro, e mal me sento aponta para um botão na porta. “Carrega aí, o assento tem ar condicionado, refresca. Lá atrás há isso.” Escolha certa. O Uli começa a falar um pouco de tudo. Natural, bem disposto, apreciando cada momento de partilha. Até que lhe pergunto como vai ser o resto do dia e fala-me das restantes viagens que tem na agenda, quase todas elas relacionada com o evento de The Bear em que irei estar presente.
Exceto uma: ao final da tarde iria buscar Isabelle Huppert ao aeroporto. Pela conversa, percebo que não é a primeira vez, por isso pergunto se é hábito e a resposta vem com um “sou o motorista favorito dela”. Diz que se entendem bem, que sabe dizer as coisas certas quando surgem os nervos dos stresses das viagens. Mesmo só estando há vinte minutos com Uli, percebo que não é difícil perceber os motivos. Passado algum tempo manda mais um bom facto para a conversa: noutros tempos, em Paris, viveu a duzentos metros de onde agora vive Huppert. Aquelas coincidências da vida.
[o trailer da quinta e última temporada de “The Bear”:]
https://www.youtube.com/watch?v=ojjCvICC86c
A viagem e a conversa continua, grande parte à volta de música, trocando ideias sobre o que pôr a tocar no carro. As quase duas horas passaram rápido e fizeram esquecer o choque que seria quando saísse daqueles assentos frescos. Nas espedidas, Uli diz que espera que me leve de volta daqui a uns dias. Eu também. No hotel sou imediatamente recebido por John, que me diz que a minha entrevista foi antecipada. Há problema? Não, até prefiro assim.
A quinta temporada de The Bear é a última. E começa com um problema de canos. Os dois primeiros episódios são curtos, intensos, mas a acompanhar a questão técnica da canalização surge uma ideia de percurso, uma antevisão da tragicomédia que a série tem sido: apesar das vitórias pessoais, das conquistas de cada personagem, há uma sensação permanente de falhanço geral. Como se fosse impossível meter aquele negócio a funcionar. Esta temporada será o tira-teimas disso.
Quando a série sai da bolha e dedica um episódio a uma personagem, firma-se a ideia de um caminho a ser percorrido. Isso foi particularmente notório em alguns momentos — sobretudo na segunda temporada, com dois episódios em particular: o quarto, Honeydew, dedicado a Marcus, e o sétimo, Forks, em volta de Richie (Ebon Moss-Bachrach). Aconteceu mais vezes. Na terceira temporada, episódio seis, Napkins, em volta de Tina (Liza Colón-Zayas), e, de uma forma bastante diferente, em Groundhogs, primeiro da quarta temporada, um flashback sobre o passado de Carmy (Jeremy Allen White).
Estes são os episódios que afirmam o “percurso interno e externo de The Bear” para Lionel Boyce, com quem falamos horas antes da série ficar disponível no mundo inteiro. “A minha personagem passa por muitas coisas. Internamente, há a morte da mãe do Marcus, que é uma montanha russa na vida dele. E depois há o lado externo, a evolução das sobremesas, veres o que ele faz, como o faz, que é tudo muito orgânico. Pessoalmente, vejo o tempo, a intenção e o trabalho que ele coloca nas sobremesas.” E, pessoalmente, como é que um ator vê este percurso? “Após cada temporada, refletia sobre a minha personagem. Na terceira, o Marcus é muito disciplinado, mais do que eu alguma vez fui. É o início da fase em que ele começa a fazer as coisas nos seus próprios termos. E creio que transportei um pouco disso para mim.”
Lionel Boyce está numa sala a fazer entrevistas via Zoom. Eu estou na sala onde uma equipa coordena todas essas entrevistas. Uma atrás da outra, atrás da outra e sempre assim. Estando ali dá para perceber o que se passa entre conversas feitas neste formato, algo que surgiu durante a pandemia para manter a indústria a andar e que se manteve, porque muitas vezes é mais fácil mais rápido, mais barato e muito mais desinteressante.
Que efeitos é que isto tem nos entrevistados? Um visível cansaço do ato contínuo e repetido, sem qualquer expressão verbal, a velocidade a que as coisas acontecem, sem que um segundo se perca, rouba expressões, desabafos e hipótese de surpresas. No início, Lionel diz que nunca imaginou poder ficar “tão popular”. “Há quatro anos, aliás, antes disso, quando estávamos a filmar, não havia nada que fizesse prever que isto iria acontecer e de forma tão rápida. No início, na rodagem, talvez seis pessoas sentissem que The Bear era especial.” Depois, aconteceu tudo muito rapidamente. “Uma semana depois, havia memes em todo o lado, passado duas semanas as pessoas passavam por mim e diziam ‘yes chef’, ‘corner’, ‘behind’. E aí percebi que isto teria pernas para andar. Na segunda temporada, explodiu. Quem diria?”
O ator atrapalha-se quando lhe perguntamos sobre um episódio favorito. Não porque não o queira dizer, mas porque está visivelmente cansado. Percebe-se noutras respostas, quando mistura aqui e ali detalhes sobre o que aconteceu em temporadas passadas. Não foge à resposta, sentia-se que iria sair algo como Review, o tenso penúltimo episódio da primeira temporada, onde tudo acontece em vinte minutos.
“Adoro as cenas em que todos estamos na cozinha. Há um ou dois episódios por temporada em que está toda a gente lá, tudo está a funcionar e, por breves momentos, sentimos que estamos a trabalhar num restaurante. Já é intenso na altura mas… depois da pós-produção, com a montagem e a música, aquilo passa de 7 para 75. Vou ter para sempre na memória o último momento em que estivemos juntos, neste ano, a filmar. Sabia que ia ser a última vez. E a forma como aconteceu e ficou gravado, a luz daquele momento… tudo ficou registado como existe na minha memória. Agora, que terminou, é estranho. Mas é muito bom.”

Lionel não prova as sobremesas que faz na série. Os outros provam-nas durante as filmagens: “Toda a gente prova as minhas sobremesas menos eu. Sinto-me de fora”, diz, entre risos. Adoraria ter experimentado o “seu” bolo de chocolate, porque é a sua sobremesa favorita. Mas não, não provou.
Ao longo das temporadas, Lionel tornou-se mais confiante. “No início, estava muito consciente de que poderia fazer asneira. E não queria ser essa pessoa, essa era a minha principal preocupação. Mas deixei de pensar nisso ao longo do tempo [em parte por causa de Christopher Storer, criador da série, que dá espaço aos atores para experimentar o que querem]. A dado momento bateu-me mesmo que o que estamos a fazer é especial e que isto só ficaria melhor se eu estivesse mais presente, a experimentar e a agir sem medo.”
Desde o início e ao longo da série, Carmy, o protagonista, vê potencial em Marcus, incentiva-o, aposta nele, defende-o e acredita que o pasteleito vai fazer a diferença. Apesar do caos na cabeça de Carmy, o problemático chefe empreendedor lá ia encontrando momentos para tirar o melhor da sua equipa, dos seus amigos. Com Marcus, a relação sempre foi diferente, até porque o doceiro partia de um local diferente e era, de entre todos, o que poderia subir para um novo patamar, um com o qual nunca teria sequer ambicionado.
A última pergunta em cima da mesa vai nesse sentido: se pudesse dizer uma coisa a Carmy, o que seria? Depois de uns segundos a pensar, hesitante… diz o que vai na cabeça de todos nós: “Relaxa.” E continua: “Penso sempre no Carmy desta forma: como lidaria com esta pessoa se fosse meu amigo? Porque não sei o que será passar o dia com ele. Na série, naquele dia de folga dele, ele passa o dia no sofá, a ver televisão, de uma forma muito solitária. Não o consigo imaginar a não trabalhar.”
Lá fora, está mais calor do que quando à entrada para o hotel. Talvez um percurso a pé em Paris às quatro da tarde, mesmo que curto, não seja a melhor ideia. Mas é uma ideia e chegará a algum lado. Como esta temporada final de The Bear. A ver vamos qual o resultado final de ambas as aventuras.