São as últimas vezes que, por decisão própria, escrevo sobre os meus, e dou-me conta de que nunca escrevi sobre eles. Inventei a minha família e, em grande medida, a minha história: e fi-la o mais fascinante que pude, pintei-os como não foram, cobri-os de grinaldas, para minha consolação.
Ninguém que me tenha lido alguma vez os conheceu. Fui dos meus a falsária. E talvez lhes tenha sido falsa, mesmo sem ser por escrito, e nunca a eles me tenha também revelado.
Que é uma família senão uma arena encenada? E os nossos pais, quando estão escritos, e não estão vivos — que são eles além de personagens, projecções, desejos, penas, ambiguidades, desilusões?
Agora, que esse capítulo se aproxima do fim, ou agora, depois de ter terminado, pergunto-me se alguma vez os conheci, para logo entender que não, ninguém os conhece, ninguém os reconheceria, o que escrevi foram invenções infiéis, em geral abonatórias, versões que escondiam as suas falhas, porque as falhas dos meus guardo-as para mim.
Tenho por vezes a impressão que sei errada que regressei vezes demais a essa origem, vezes demais procurei em vão uma raiz. Agora que passaram alguns anos a escrever, vejo que foi como construir o jardim mentiroso e misterioso de onde eu queria ter saído. E só me apetece arrancar as plantas da terra, revolvê-lo, destruí-lo, matá-lo à sede, abandoná-lo.
Prefiro como destino de escrita, descender dos livros que li, dos que escolhi amar, de país nem gente nenhuma. A origem de uma pessoa é talvez mais esse jardim, essa renda de remedeios que vai tecendo para se enganar, do que o lugar onde nasceu, ou aqueles que a criaram. Quão longe estou do tempo em que foram para mim heróis os que eram crescidos quando fui pequena. Tornei-os melhores do que foram. Agora, que os meus vão morrendo, morre também o tempo de os enfeitar de flores.
Talvez possa buscar uma família adoptiva junto dos estranhos que comigo se vão cruzando, demasiado brevemente para nos amarmos. Talvez nos outros, no vasto domínio do desconhecido, esteja a origem de quem quer que a procure.
E eu possa encontrar por fim os meus pais, irmãos, tios e primos, andando pela rua, à saída do metro, incógnitos numa carruagem de comboio, estranhos enfim como estranha no fundo sempre fui, que ideia bela, entabular conversa com alguém que não se conhece e dar conta de que, sem o saber, éramos sangue do mesmo sangue, inseparáveis e desirmanados, íntimos desconhecidos.