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(A) :: "Um sismo não mata pela magnitude. Mata pela vulnerabilidade." Um terramoto de 7,5 pode matar milhares na Venezuela e ninguém nas Honduras

"Um sismo não mata pela magnitude. Mata pela vulnerabilidade." Um terramoto de 7,5 pode matar milhares na Venezuela e ninguém nas Honduras

Os sismos não matam por si só. O que mata são a exposição das populações e a vulnerabilidade das infraestruturas. Um geólogo fala dos prédios como “armas de destruição maciça".

Filomena Martins
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Dois grandes sismos atingiram a Venezuela em menos de um minuto. O primeiro, de magnitude 7,2, foi seguido apenas 39 segundos depois por outro ainda mais forte, de magnitude 7,5. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) descreve o abalo inicial como o primeiro evento de um “doublet”, uma sequência em que dois sismos de magnitude semelhante ocorrem muito próximos no tempo e no espaço. Na prática, isto significa que a Venezuela não sofreu apenas um terramoto forte: sofreu dois choques violentos, o segundo maior ainda do que o primeiro, quase sobrepostos, antes de edifícios, serviços de emergência e populações terem sequer tido tempo para reagir ao primeiro.

O número de mortos confirmado pelas autoridades venezuelanas depois do “doublet” de sismos de 7,2 e 7,5 separados por cerca de 40 segundos já chegou às centenas e continua a agravar-se, há milhares de feridos e edifícios destruídos em várias regiões do norte do país. Mas a pergunta que este desastre levanta vai além da Venezuela: porque é que um sismo de magnitude 7,2 ou 7,5 pode causar centenas, milhares ou centenas de milhares de mortos num país e quase não fazer vítimas noutro? É que são muitos os casos em que isso acontece. A resposta começa por desfazer um dos maiores equívocos sobre os terramotos.

A magnitude mede a energia. Não mede a destruição

A resposta curta é esta: a magnitude não mata sozinha. A magnitude mede a energia libertada pela Terra. Não mede quantas pessoas vivem perto do epicentro, nem se os prédios foram construídos para resistir a abalos, nem se o sismo ocorreu a dez ou a 600 quilómetros de profundidade, nem se houve tsunami, incêndios, deslizamentos ou liquefação dos solos. Dois sismos praticamente iguais na escala de magnitude podem ter consequências humanas completamente diferentes. E não faltam exemplos para o confirmar.

O USGS explica que cada terramoto tem uma única magnitude, que corresponde à energia libertada na falha geológica. Mas o movimento sentido pelas pessoas à superfície — aquilo que os cientistas designam por intensidade — varia de local para local, dependendo da distância ao epicentro, do tipo de solo, da profundidade do sismo e de vários outros fatores. É por isso que dois sismos com a mesma magnitude podem provocar consequências completamente diferentes.

É por isso também que os sismólogos repetem há décadas uma ideia simples: os sismos não matam por si só. Se acontecerem no meio do Atlântico, por exemplo — e acontecem —, dificilmente farão vítimas. O que mata são os edifícios, a exposição das populações e a vulnerabilidade das infraestruturas. Roger Bilham, geólogo da Universidade do Colorado, formulou a ideia de forma ainda mais dura depois do sismo do Haiti de 2010: em muitos terramotos recentes, disse, os edifícios têm funcionado como “armas de destruição maciça”. No Haiti, explicou, muitos prédios colapsaram porque não tinham qualquer resistência sísmica.

Um sismo de magnitude 7,5 a grande profundidade e longe de cidades pode ser sentido em milhares de quilómetros e, mesmo assim, não fazer qualquer morte. Um sismo de magnitude 7,0, superficial e junto de uma capital pobre, com construções rudimentares, pode ser catastrófico.

O que realmente determina o número de mortos?

Os especialistas identificam vários fatores que, em conjunto, explicam a maioria das diferenças entre grandes terramotos. O primeiro é a localização que, em conjunto, explicam a maioria das diferenças entre grandes terramotos. O primeiro é a localização: quanto mais próximo estiver o epicentro de uma grande cidade, maior deve ser a destruição. Um sismo de magnitude moderada diretamente sob uma área urbana pode causar muito mais danos do que outro bastante mais forte ocorrido numa região remota ou no oceano ou no deserto.

O segundo é a profundidade. Os sismos superficiais libertam a energia muito perto da superfície, fazendo com que as ondas sísmicas cheguem aos edifícios praticamente sem perder intensidade. Pelo contrário, um sismo muito profundo pode libertar uma enorme quantidade de energia, mas que se dissipa antes de atingir a superfície. É precisamente isso que explica um dos exemplos mais surpreendentes da história recente. Em 2013, um sismo de magnitude 8,3 atingiu o Mar de Okhotsk, na Rússia. Foi um dos maiores deste século, mas ocorreu a cerca de 609 quilómetros de profundidade e não provocou vítimas mortais.

O terceiro fator é a qualidade das construções. Os estudos científicos sobre mortalidade em terramotos mostram que a esmagadora maioria das vítimas morre devido ao colapso de edifícios.

Foi isso que aconteceu no Haiti, em 2010. Um sismo de magnitude 7,0 provocou mais de 200 mil mortos numa capital com edifícios extremamente vulneráveis. Poucas semanas depois, o Chile sofreu um terramoto de magnitude 8,8 — quase duas dezenas de vezes mais energia — com cerca de 500 mortos. O país tinha normas de construção muito mais exigentes, edifícios preparados para resistir a grandes abalos e uma população habituada ao risco sísmico.

A diferença não esteve na magnitude. Esteve na vulnerabilidade.

Os alertas já estão muito avançados

O sistema PAGER do USGS foi criado precisamente para tentar responder rapidamente a várias perguntas importantes: não apenas “qual foi a magnitude?”, mas “quantas pessoas foram expostas aos abalos?” e “quão vulneráveis são os edifícios na região afetada?”. Num relatório de 2009, Paul S. Earle e colegas explicam que o PAGER calcula, poucos minutos depois de um grande sismo, o número de pessoas expostas a diferentes intensidades de abalo e a intensidade sentida nas cidades afetadas. Outro estudo do USGS, assinado por Kishor Jaiswal, David J. Wald e Mike Hearne, desenvolveu modelos empíricos para estimar vítimas em grandes terramotos a partir da população exposta e da vulnerabilidade regional. Nos sismos da Venezuela, logo depois de acontecer o de 7,5, a previsão apontava para 10 mil a 100 mil mortes e tudo estava em “red alert”, alerta vermelho.

Ou seja, a ciência olha para uma equação muito mais complexa do que a escala de magnitude. Um sismo de magnitude 7,5 a grande profundidade e longe de cidades pode ser sentido em milhares de quilómetros e, mesmo assim, não fazer qualquer morte. Um sismo de magnitude 7,0, superficial e junto de uma capital pobre, com construções rudimentares, pode ser catastrófico.

Susan Hough, sismóloga do USGS e autora de vários livros sobre terramotos, explicou esta diferença numa entrevista sobre grandes sismos: há, em média, cerca de um sismo de magnitude 8 por ano no mundo, mas esses sismos não são necessariamente destrutivos se ocorrerem no mar, a grande profundidade ou em zonas remotas. O que preocupa os sismólogos, disse, são sismos grandes — ou mesmo “apenas” de magnitude 7 — que sejam superficiais e próximos de onde vivem pessoas.

O que aconteceu na Venezuela?

A proximidade da superfície de grandes cidades é uma das chaves para perceber a Venezuela. Os dois sismos ocorreram a curta profundidade, cerca de 10 quilómetros no caso do abalo de magnitude 7,5, e de pouco mais de 20 km, no de 7,2, e afetaram áreas habitadas do norte do país, incluindo zonas próximas da capital, Caracas, e da costa caribenha. Por isso o problema não foi só a energia libertada. Foi onde essa energia chegou.

E a profundidade é decisiva. O sismo do Mar de Okhotsk, na Rússia, em 2013, teve magnitude 8,3 — um dos maiores deste século — e não provocou mortos. Porque ocorreu a cerca de 609 quilómetros de profundidade. A energia libertada foi enorme, mas as ondas chegaram à superfície muito mais dissipadas. É o exemplo perfeito de como um valor impressionante de magnitude pode ter impacto humano e de danos em estruturas muito reduzido.

Solos e efeitos secundários, como os de 1755

O tipo de solo também muda tudo. Solos sedimentares, antigos leitos de rios ou zonas aterradas podem amplificar as ondas sísmicas, fazendo com que bairros diferentes da mesma cidade sintam os abalos de forma muito diferente. Pelo contrário, zonas construídas sobre rocha sólida tendem a sofrer menores amplitudes de vibração. A intensidade — aquilo que as pessoas sentem e os edifícios sofrem — varia com a distância à falha, as condições do solo e a altura ou tipo de edifício. Por isso, duas cidades à mesma distância do epicentro podem ter danos muito diferentes.

Há ainda o problema dos fenómenos secundários. O terramoto de Lisboa de 1755 continua a ser um dos casos mais estudados do mundo porque não foi apenas um sismo. Foi uma sequência de catástrofes: primeiro o abalo, depois os incêndios que devastaram a cidade durante dias, depois o tsunami que atingiu Lisboa, o Algarve, Marrocos e outras zonas do Atlântico. A magnitude estimada, entre 8,5 e 9,0, é muito incerta porque o sismo ocorreu antes da era dos sismógrafos modernos. Mas a dimensão da tragédia não se explica apenas pela magnitude. Explica-se pela exposição de uma grande cidade à grande onda e às velas que tudo incendiaram, pela vulnerabilidade das construções, pela hora e dia a que tudo aconteceu (toda a gente na missa pelos mortos, de um dia feriado, Todos os Santos) e pelo encadeamento de destruição. O sismo foi apenas o início da catástrofe.

A NOAA explica que um tsunami nasce de um deslocamento súbito de uma grande massa de água, normalmente provocado por grandes sismos sob ou perto do fundo oceânico. Mas nem todos os grandes sismos geram tsunamis destrutivos. Para isso contam a localização, a profundidade, o tipo de falha, o deslocamento vertical do fundo do mar, a batimetria e a forma da costa. Mais uma vez, a magnitude é apenas uma parte da história.

Porque é que alguns grandes sismos quase passam despercebidos?

Os estudos sobre mortalidade sísmica apontam sempre para a mesma conclusão. Uma revisão publicada por Shannon Doocy, Amy Daniels, Catherine Packer, Amy Dick e Thomas D. Kirsch, sobre o impacto humano dos sismos entre 1980 e 2009, identificou o colapso de edifícios como principal causa de morte e apontou como fatores de risco a hora do dia (estar a dormir, estar na rua, ou estar no trabalho ou na praia faz muita diferença), o nível de dano nos edifícios e a densidade populacional. Outro estudo, de Thomas L. Holzer e James C. Savage, mostrou que os grandes desastres sísmicos com mais de 50 mil ou 100 mil mortos estão ligados ao crescimento da população mundial: quanto mais pessoas vivem em zonas sísmicas vulneráveis, maior a probabilidade de um grande terramoto se transformar numa catástrofe humana.

Os grandes desastres sísmicos com mais de 50 mil ou 100 mil mortos estão ligados ao crescimento da população mundial: quanto mais pessoas vivem em zonas sísmicas vulneráveis, maior a probabilidade de um grande terramoto se transformar numa catástrofe humana.

É por isso que a comparação entre sismos é tão reveladora. Um sismo de magnitude 7,5 em Tangshan, na China, em 1976, matou cerca de 242 mil pessoas. Um sismo da mesma magnitude nas Honduras, em 2018, não provocou mortos, porque teve epicentro no mar e longe de grandes centros urbanos. O Nepal, em 2015, teve um sismo de magnitude 7,8 e quase nove mil mortos, devido ao colapso de edifícios, aldeias vulneráveis e deslizamentos. A Nova Zelândia, em 2016, sofreu um sismo de magnitude semelhante e registou duas mortes, num país com normas sísmicas muito mais exigentes.

A Venezuela entra agora nesta lista por uma razão ainda mais rara: não houve apenas um sismo de magnitude superior a 7. Houve um “doublet”, dois grandes abalos em 39 segundos. Um primeiro choque capaz de danificar estruturas, seguido quase imediatamente por outro mais forte, capaz de agravar colapsos, surpreender populações já em pânico e dificultar qualquer resposta inicial. Em engenharia sísmica, isto é particularmente perigoso: edifícios já fragilizados pelo primeiro movimento podem falhar no segundo.

A mesma magnitude não significa, portanto, a mesma tragédia. A magnitude diz-nos quanta energia foi libertada pela Terra. O número de mortos depende do que essa energia encontra quando chega à superfície: cidades densas ou zonas remotas; edifícios frágeis ou estruturas preparadas; solos firmes ou sedimentos que amplificam o abalo; uma população treinada ou surpreendida; um sismo isolado ou dois choques quase simultâneos; um abalo sem consequências secundárias ou uma cadeia de incêndios, tsunamis e deslizamentos.

O Mar de Okhotsk, na Rússia, teve magnitude 8,3 e zero mortos. Lisboa, em 1755, tornou-se sinónimo de catástrofe. O Haiti, em 2010, teve magnitude 7,0 e mais de 200 mil mortos. O Chile, no mesmo ano, teve 8,8 e cerca de 500 mortos.

É por isso que alguns dos maiores sismos do mundo quase não ficaram na memória coletiva e outros, de magnitude menor, mudaram a história de países inteiros. O Mar de Okhotsk, na Rússia, teve magnitude 8,3 e zero mortos. Lisboa, em 1755, tornou-se sinónimo de catástrofe. O Haiti, em 2010, teve magnitude 7,0 e mais de 200 mil mortos. O Chile, no mesmo ano, teve 8,8 e cerca de 500 mortos.

A escala de magnitude é essencial para compreender a força de um sismo. Mas, para compreender a destruição, é preciso olhar para outra escala: a escala da vulnerabilidade humana.