Acompanhe o nosso artigo em direto sobre os sismos na Venezuela
Sem qualquer aviso prévio, tudo mudou na região de Caracas de um momento para o outro. O sismo chegou poucos minutos depois das 18h (23h em Lisboa), com uma magnitude de 7,2 na escala de Richter, e foi logo fortemente sentido na capital venezuelana, a menos de 200 km do epicentro. Mas 39 segundos depois, aconteceu algo inesperado. Um segundo abalo, de magnitude superior (7,5) e uma intensidade ainda mais forte, fez-se sentir no mesmo local. Pelo menos 188 pessoas morreram e as autoridades admitem que o número de vítimas possa ultrapassar as 10 mil.
Os efeitos desta sequência de sismos foram catastróficos. A última vez que um sismo de tamanha intensidade abalou o território da Venezuela foi em 1967 — em Caracas, também —, na ocasião provocou a morte de quase 300 pessoas e deixou 1.500 feridos, após um tremor de magnitude 6,6. Ainda assim, mesmo com danos tão consideráveis, sismos fortes não são exatamente uma novidade naquela região do globo.
Nos últimos dois séculos, houve seis episódios sísmicos distintos a deixar pelo menos uma centena de vítimas mortais. Em dois desses episódios, o número de mortos ultrapassou os 10 mil. E, fora os abalos de maior intensidade, a capital da Venezuela está inserida num hotspot onde estas libertações de energia são um fenómeno relativamente comum.
Isto porque, como explica ao Observador o geólogo Filipe Rosas, a Venezuela localiza-se num contexto geológico extremamente favorável a estas oscilações. “O que temos aqui é uma falha que separa a terminação norte do continente sul-americano da região do Mar das Caraíbas”, indica o diretor do Instituto Dom Luiz, referindo que a região de Caracas acaba por ser a zona mais afetada pelos movimentos destas duas placas tectónicas. Mas não só.
A Venezuela está entre a placa das Caraíbas e a placa sul-americana. A dinâmica entre estes dois grandes blocos litosféricos é marcada por um movimento de deslizamento lateral, no qual a placa caraibenha se desloca para leste a uma velocidade de aproximadamente dois centímetros por ano. São estes movimentos que provocam os sismos: após um grande período de acumulação de tensões, libertam estes tremores mais intensos. E no caso desta quarta-feira, o sismo aconteceu mesmo no limite das duas placas.

Sismos registados no extremo de falha localizada numa zona de deslizamento de placas tectónicas
“Uma falha é a cicatriz da rutura que ocorre na parte mais crocante e estaladiça da superfície da Terra”, explica Filipe Rosas. O epicentro deste “doublet” de sismos está localizado entre as cidades de San Felipe e Morón, que estão perfeitamente alinhadas com a sequência de falhas Bocoró, San Sebastián e El Pilar. Com o movimento horizontal constante das duas placas que se encontram na Venezuela, existe uma tensão elástica que é acumulada precisamente naquele eixo pouco a norte da costa venezuelana.
“Quando a camada acumula forças ou tensões, como está relativamente fria, em vez de fluir ou de se deformar proporcionalmente com a força a que está submetida, ela vai partir. Vai acumular a tensão elástica até que se atinja o limite de resistência do material crustal, havendo uma libertação súbita de energia na forma de ondas mecânicas e elásticas”, acrescenta o especialista. “Estamos a falar de ondas que propagam a energia à custa da vibração das partículas materiais que constituem o meio”.
O epicentro dos sismos encontra-se no limite desta falha. “É como se tivéssemos dois sismos a ocorrerem na zona onde termina a falha”, descreve o diretor do Instituto Dom Luiz. O que é que isto quer dizer? Como a libertação de energia estava a ocorrer na parte terminal deste eixo, uma vez que esta não se propaga mais para oeste, poderá justificar o facto de terem ocorrido “neste contexto atípico”: dois sismos de magnitude aproximada, com um intervalo de tempo muito curto entre eles.
“Quando ocorre um sismo, as placas movem-se bruscamente uma em relação à outra. Há uma cinemática associada”, continua o geólogo. Neste caso venezuelano, onde existe um deslizamento lateral associado, registou-se uma “peculiaridade”. “O que verificamos é que o movimento destes dois sismos, separados por segundos, foi de cinemática oposta”, refere Filipe Rosas, admitindo que o facto de o epicentro se localizar no extremo da falha poderá ter contribuído para este efeito — que também poderá ser o motivo para a elevada intensidade do abalo.
Este contexto é importante. O que geralmente condiciona a possibilidade de termos sismos seguidos — os “doublets” — é o facto de existirem sequências de falhas “que se cortam umas às outras”. “Imagine duas falhas a acomodar uma tensão compressiva; se uma delas atinge o limite de elasticidade e rompe, liberta energia. A outra falha, que ainda estava longe temporalmente de romper, acaba por ser carregada pela primeira, que transferiu a tensão para ela, antecipando a ocorrência do sismo”, esclarece o especialista.
https://observador.pt/especiais/como-e-possivel-haver-dois-sismos-superiores-a-7-em-menos-de-um-minuto-os-doublet-sao-raros-mas-acontecem/
“As falhas são as marcas da libertação e dissipação da energia. Se temos falhas próximas, a dissipação de energia numa delas pode condicionar a antecipação de um sismo na outra”, acrescenta, vincando que os sismos não são fenómenos que ocorrem de forma isolada, mas sim num contexto em que é importante considerar as falhas que estão próximas do epicentro.

“Não é de prever que haja sismos de maior magnitude”
A zona das Caraíbas é muito volátil num contexto sísmico. Como é possível observar nos mapas de enquadramento tectónico da região, existe uma clara tendência. Os pontos na figura representam os diferentes sismos que ocorreram na região entre 1900 e 2019, variando na magnitude e na profundidade dos epicentros. Mas o caminho está definido. “Há uma série de pequenas ilhas arqueadas que formam aquilo que chamamos um arco-ilha ou um arco vulcânico, que está associado à circunstância de uma placa estar a mergulhar por baixo da outra”.
As placas em questão são novamente a das Caraíbas e a Atlântica. Neste caso, a dinâmica entre as duas difere do que acontece próximo do território venezuelano. Em vez de se verificar um deslizamento lateral, a placa Atlântica mergulha por baixo da caraibenha — é uma zona de subducção. “Este é um mergulho que anda para leste. Ao mesmo tempo que mergulha, anda para trás e, no processo, arrasta a placa das Caraíbas naquela direção”, continua o especialista ouvido pelo Observador, justificando também a dinâmica entre as duas placas que provocaram os sismos desta quarta-feira.
Existem vários sismos associados a este sistema de falhas. Um dos casos é o abalo que aconteceu no Haiti em 2010, resultando na morte de mais de 100 mil pessoas. “Todos estão associados ao movimento da Placa das Caraíbas”, afirma Filipe Rosas. “Este movimento é o motor da ocorrência dos sismos perto da zona de subducção, que são tipicamente mais profundos. Umas vezes ocorrem sismos num lado, outras vezes no outro, e outras vezes na própria zona de subducção”, acrescenta.
Sendo todo um longo sistema afetado por este movimento tectónico, a dissipação de energia não acontece exclusivamente naquela região perto da Venezuela, ocorrendo no norte das Caraíbas e na própria zona de subducção, onde estão as ilhas de Granada, Dominica e Martinica, por exemplo, o que poderá resultar num alívio das tensões generalizado — e não focado numa só região. “Tipicamente, quando ocorrem sismos de grande magnitude, há uma distensão do sistema; o sistema tende a relaxar e volta a iniciar-se o ciclo em que a tensão elástica se vai acumular até atingir o limite”. Assim, Filipe Rosas admite que “não é de prever que haja sismos de maior magnitude”.
Mas não é um cenário linear. Apesar de ser comum após uma descarga de energia sísmica que exista um período mais calmo em que o “sistema volta a carregar”, seria necessária uma análise mais extensa, “com as botas no terreno”, para verificar se existem “falhas adventícias de menor dimensão” que possam estar “carregadas” depois deste episódio. “As previsões são muito difíceis de fazer porque o sistema é caótico”, confessa o geólogo, que refere que “pequenas variações nas condições iniciais podem produzir resultados muito diferentes”.
“Nós sabemos seguramente que vai haver sismos com recorrência na nossa zona, mas não sabemos dizer exatamente quando. É como o estado do tempo: consigo prever a meteorologia para amanhã, mas não sou capaz de o prever com rigor para daqui a um mês”, compara Filipe Rosas.